Brasil Política

15/03/2019 | domtotal.com

A ingrata recompensa da democracia

Ao custo da minha simpatia, que a verdade seja dita: democracia é um negócio furado.

Ao longo do tempo, a democracia teve seus altos e baixos e ficou sem sequer ver a luz do sol.
Ao longo do tempo, a democracia teve seus altos e baixos e ficou sem sequer ver a luz do sol. (Reprodução)

Por João Lucas Vieira Saldanha*

Na essência de ser o que é, a própria proposta da democracia é, para quem se preocupa em pensar um pouco, complicada, para dizer o mínimo. Ora, um governo de todos para todos é uma proposta não apenas ousada, mas de baixíssima praticidade e, não raramente, de justiça questionável.

Diferentemente do que se sustenta por aí, a ideia do governo do demos (sem intenção de trocadilho) não é nova, e remete há pelo menos quatro séculos antes de Cristo, nas cidades-estados gregas, onde se teve o nome cunhado pela aglutinação das palavras demos, ou povo, e kratos, que significa poder. É óbvio que, de lá pra cá, a democracia teve seus altos e baixos, e por longos períodos ficou sem sequer ver a luz do sol.

As revoluções que sucederam a era do Iluminismo vieram para cravar o modelo de governo como sendo o mais “justo” e, por consequência, aquele que deveria ser buscado por civilizações que quisessem atingir o status de novo mundo. Já não mais havia espaço para déspotas ou tiranos, e mesmo seus menos pomposos sucessores, os ditadores, não tiveram muita sorte em suas empreitadas durante o século 20.

Primeira e segunda guerras mundiais, Guerra Fria e suas ramificações, conflitos bélicos intracontinentais, cada banho de sangue superando o anterior em brutalidade e número de mortos, bilhões e bilhões de dólares investidos em escala global no desenvolvimento de métodos cada vez mais eficientes de exterminarmos uns aos outros.

Holocausto, genocídio dos povos pré-colombianos, campanhas colonizadoras, tanto clássicas quanto neocolonialistas, imperialismos internacionais, violação de soberanias nacionais e atropelamento do Tratado Universal dos Direitos Humanos são só alguns dos marcos dessa longa estrada que foi o estabelecimento das democracias como mecanismo de governo ideal.

Digno dos cânticos gloriosos de batalha cada um que deu a sua vida, tanto literal quanto figurativamente, para que se atingisse o resultado final. Quanta filosofia foi escrita, quanto estudo, quanta tese se provou incorreta.

Estados inteiros construídos e destruídos sobre o eternamente fresco e frágil alicerce da conquista democrática, sem tempo para desfrutar dos períodos de paz, as próprias estruturas de direito, em vários casos, foram estabelecidas sobre pilares corruptos e viciosos, sempre elaborados com seus dias contados por aqueles que, eventualmente, viriam tentar destruí-la no frigir dos ovos.

Fomos, no curso dos séculos, engenheiros da nossa própria ruína no que diz respeito a essa busca incansável pela democracia perfeita. Sem entrar em méritos materiais, não pretendo aqui apontar o dedo para as cicatrizes do conceito, em si, mas que a ideia pareceu complicada desde o princípio, isso ela pareceu.

Como disse, democracia é um negócio foda. Mas, pelo menos, depois de tanto sangue derramado, podemos erguer as mãos em agradecimento por essa bênção que nos recai, e todos os dias declamarmos a eterna gratidão por fazermos parte de um sistema tão impecável e perfeito quanto o democrático.

Seria, então, a primavera das sociedades. Estrutura da mais justa e eficiente, como dito anteriormente, a democracia veio e exorcizou todas as nossas mazelas. Não mais iria o fraco se curvar diante do opressor. Nunca mais a fome bateria na porta da casa do operário sem que também o fizesse na casa do burguês. O ímpeto desta rapsódia levaria ao advento de inúmeras filosofias antropo-sociológicas, cada uma detentora de sua própria noção de justiça social, todas com o mesmo objetivo final, mas profundamente antagonizadas entre si. Nascia a multicotomia dos maniqueísmos sociais.

Mas, isso não importa. O importante é que era chegada a hora da bonança. Enfim os ardis artifícios empregados para conter a investida democrática estavam superados, o momento é de colheita, e que venham os nossos representes democráticos, que suas palavras de sabedoria reflitam os anseios populares, que as colocações pontuais sejam ilustração literal do desejo contido no coração de cada um que exerceu, com amor, o sufrágio sagrado. É a hora, coloque em palavras, governante, o desaguar de séculos e séculos de batalha, a recompensa final. Que se pronuncie o nosso líder eleito:

- O que é Golden Shower?

Democracia é um negócio foda.

*João Lucas Vieira Saldanha é advogado especialista em Direito Contratual e Proteção de Dados, Sócio Fundador do escritório “Saldanha & Gualtieri – Advogados Associados”, Sócio e Diretor Jurídico na empresa “Tripla – Data Privacy”, membro do “ISACA - Information Systems Audit and Control Association”, formado em Direito pela PUC-MG e pela Newton Paiva e pós-graduando em Advocacia Cível pela Escola Superior de Advocacia da OAB-MG.

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