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15/03/2019 | domtotal.com

Direitos & Esquerdos Ltda.

Essa ideia de que vivemos numa rua onde de um lado está a bondade e em outro não, já era.

Duas únicas vertentes ideológicas – esquerda e direita - não servem mais para definir com precisão a alma humana.
Duas únicas vertentes ideológicas – esquerda e direita - não servem mais para definir com precisão a alma humana. (Reprodução)

Por Fernando Fabbrini*

Outro dia, o humorista Cláudio Manoel, do Casseta, definiu o cenário ideológico nacional com muita propriedade. Disse ele: “Hoje no Brasil ser de esquerda é muito fácil. Basta dizer-se de esquerda para ser considerado vagamente intelectual, vagamente sensível, vagamente solidário. Porém, se você se diz “não de esquerda”, precisa se explicar pro resto da vida. Não sou de esquerda, mas... não sou homofóbico. Não sou de esquerda, mas... não sou racista. Enfim: essa ideia de que vivemos numa rua onde de um lado está a bondade e em outro não, já era. Já foi moída e massacrada pela história.”

Também concordo. Conheci esquerdistas machistas, rígidos, caretas, retrógrados, repressores. Idem para vários direitistas do mesmo estilo. Convivi com liberais extremamente conservadores no seu íntimo. E monarquistas de viés claramente democrático. E ainda anarquistas sedentos de ordem e disciplina. Como frequento os dois grupos e ambientes sem preconceitos, já vi defensores do porte de arma também portadores de ternuras inimagináveis pelos seus semelhantes, ao lado de outros assustadores e violentos.

O que quero dizer é que duas únicas vertentes ideológicas – esquerda e direita – não servem mais para definir com precisão a alma humana. É papo furado que interessa a quem quer ver o circo pegar fogo; idiotice semelhante às torcidas de futebol. O humorista focava apenas na política. Porém, como os brasileiros descobriram há pouco a importância de se preocupar com a política nacional – além do carnaval e do futebol – essa divisão simplista já anda de boca em boca, esquentando os debates de comportamento nas mesas de bar e nas redes sociais. 

Na pátria amada, temos uma corja unicamente interessada em manter seus quintais, a boa vida e os privilégios lícitos, além dos ilícitos. Para enganar a plateia, alardeiam seus princípios ideológicos como quem veste uma camisa da torcida. Porém, assim como as estrelas do futebol, podem trocar de time a qualquer momento, dependendo apenas do valor da proposta e das preferências da arquibancada do momento.

Acho que a alma humana é muito vasta, fragmentada e original para ser definida em duas palavras – esquerda e direita, por exemplo. Para piorar, recentemente no Brasil, por conta das campanhas eleitorais, essas duas posições políticas tomaram conotações curiosas – e alarmantes.

Por isso, mantenho meus sensores de alerta para extremismos insanos que nos rondeiam. Botou camisa e bonezinho igual? Ah! Minha liberdade tem boa memória: abre o livro de história e aponta a foto amarelada da juventude hitlerista uniformizada. E a foto dos integralistas, camisas verdes. E a dos nazistas, marrons. Dos fascistas, com as negras. Dos maoistas, estrelinhas vermelhas no boné. Dos ditos sem-terra, eviscerando vacas prenhes em fazendas da “elite” como “protesto”. E ainda aquelas do ditador Maduro numa camisa ridícula nas cores de seu país, como se o estilo brega-patriota superasse o caos no qual meteu seu povo massacrado.

Em Portugal, brincam que “governos de esquerda ou de direita referem-se apenas à mão usada para roubar”. Acho ótima a frase. Resta-me, portanto, o centro, buscando o equilíbrio e mantendo a mente alerta. E consolo-me, não estou sozinho. Nas rodas de papo e na internet encontro cada vez mais aqueles que, escaldados como eu, não se iludem com essas duas vias enganosas – e principalmente limitadas – que conduzem ao mesmo desencanto.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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