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18/03/2019 | domtotal.com

A madrugada do medo

Naquela noite teve medo. Sentiu que ia ser assaltado por um homem surgido do nada, com cara, roupa e jeito de meliante, que começou a segui-lo.

Apertou o passo, o homem atrás. Começou a correr, o homem atrás.
Apertou o passo, o homem atrás. Começou a correr, o homem atrás. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, como tantos outros do seu tempo. Morava num enorme casarão antigo, uma mansão assobradada de estilo neoclássico, semelhante a muitas outras construídas nos primórdios do velho, poético e boêmio bairro da Lagoinha, em "Beagá". A casa, utilizada pela proprietária como pensão, hospedava diversos estudantes vindos do interior, todos mais ou menos da mesma idade.

Nosso personagem, um garoto que além dos Beatles e dos Rolling Stones amava também uma garota deixada no interior e da qual não parava de falar, tinha 17 anos e vivia a vida dos rapazes de 17 anos, bem longe da família, que morava numa pequena cidade dos confins do Vale do Jequitinhonha. Estudava num colégio barato de classe média, do tipo pagou-passou, fumava seu cigarrinho, bebia de vez em quando sua cervejinha e sua cachacinha. Naquele tempo, bebida alcoólica não era proibida aos “dimenor”. Recebia do pai, pelo Correio, uma mesada que dava pra pagar o colégio, a pensão, e sobrava algum pra gastar com alguma coisinha, como de vez em quando comer um espaguete à bolonhesa no restaurante Capri da esquina de Rua Espírito Santo com Avenida Amazonas. Mas já estava aguardando ser chamado para trabalhar em um banco, onde tinha sido aprovado num processo de seleção. Seria o seu Grito do Ipiranga, a emancipação definitiva, sonhava ele.

Nunca pensou em maconha ou outra droga, embora a época fosse maconheiramente lisérgica – ou lisergicamente maconheira.

Um dos seus programas nas noites de sábado era ir aos bailes no salão da Colônia Portuguesa, na Rua Curitiba. Às vezes, até arranjava uma namoradinha com a qual passava horas dançando. Findo o baile, findava também o namoro e ele voltava pra casa na madrugada. A pé. Atravessava sem medo a linha férrea e a Praça Vaz de Melo para subir a Rua Itapecerica. Ainda não havia viaduto sobre a passagem de nível na Lagoinha. Nunca tinha sido incomodado por algum marginal, até porque naquele tempo a cidade era mais interior do que capital, tranquila, mansa, pacata, inofensiva.

Mas naquela noite teve medo. Sentiu que ia ser assaltado por um homem surgido do nada, com cara, roupa e jeito de meliante, que começou a segui-lo.

Nosso jovem amigo levava no bolso um dinheirinho de nada, mas não estava disposto a entregá-lo a um ladrão na madrugada da Lagoinha. Apertou o passo, o homem atrás. Começou a correr, o homem atrás. Acelerou a carreira até chegar ao enorme portão de ferro à direita da pensão. Portão que parecia inexpugnável, com suas pontas de lança apontando para o infinito e para possíveis barrigas invasoras. Tinha a chave do cadeado, mas pensou que não conseguiria abrir a tempo, e nem tentou.

Até hoje não sabe como pôde escalar aquele portãozão de três metros de altura, mas o certo é que conseguiu. Caiu em pé do lado de dentro sem um arranhão e não olhou para trás ao subir correndo a rampa que ia até o pátio nos fundos da casa. Era onde ficava o quartinho que ocupava junto com um dos estudantes.

A porta estava destrancada. Entrou, passou a chave depressa e, sem nem mesmo tirar a roupa ou os sapatos, ainda meio ofegante, deitou-se. Na outra cama, o colega roncava ruidosamente.

Levou alguns minutos para dormir o sono revolto dos sobreviventes. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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