Religião

18/03/2019 | domtotal.com

O sangue que do chão clama por justiça

O horror diante das mortes decorrentes da injustiça devem nos mover para além do luto e nos levar à promoção da vida.

Não precisamos de armas, precisamos de justiça social!
Não precisamos de armas, precisamos de justiça social! (Specna Arms/ Unsplash)

Por Felipe Magalhães Francisco*

A fé cristã se ancora no coração de um Deus que não é alheio às dores e sofrimentos de seus filhos. O silêncio divino diante do sofrimento não significa ausência e indiferença. Só quem, em meio à noite escura da existência, quando tudo era desamparo e desconsolo, manteve viva a chama da fé, consegue perceber que não há ingenuidade quando se diz que Deus não abandona os seus. Os sofrimentos pelos quais passamos diz algo a respeito do nosso Deus, que participou da dor de seu próprio Filho, injustamente torturado e assassinado numa cruz.

Esse Deus solidário é o Deus que se surpreendente frente a injustiça: “Que fizeste?” é a pergunta dele a Caim, ante a ausência de Abel. O sangue de Abel, derramado por força da injustiça, chamava ao Senhor, que não ficou indiferente. Quem pratica a injustiça pode até mesmo perder-se em meio à sua insolência (“Acaso sou o guarda do meu irmão?”, questiona Caim), mas o sofrimento do injustiçado toca o coração de Deus. E deve tocar nosso próprio coração.

A violência de Caim para com Abel é uma violência que se perpetua. Ninguém tem o direito de se apropriar da vida do outro, ninguém! Cotidianamente, vidas são ceifadas por força da injustiça. A vida está constantemente sob ameaça: não há segurança que nos prive de sermos afligidos, de alguma forma, pela violência. Desejamos segurança, quando o que deveria nutrir nosso querer é o sonho da paz. Mas não uma paz que, por força das armas, silencia o grito dos injustiçados. A paz que carecemos é aquela que não se confunde com o sossego. É a paz que nos faz sentir inteiros, mesmo diante da ameaça e do sofrimento.

Vivemos numa sociedade em que a violência para com alguns extratos sociais tem sido justificada de modo cruel. Todos os dias jovens negros das periferias são brutalmente assassinados, inclusive por força da mão do Estado, diante do consentimento, silencioso ou não, da população, por exemplo. Há um sem número de pessoas que, todos os dias, morrem anonimamente, vítimas da injustiça. Ficamos chocados quando tragédias horríveis tal como a acontecida em Suzano, no interior de São Paulo, acontecem. O choque, diante do horror, não deve nos paralisar na lamentação. O luto, nesse caso, deve ser verbo: deve nos impulsionar a uma mudança de estruturas que geram, cotidianamente, violência.

Não há vidas com valores diferentes, no sentido de que, algumas mortes lamentamos e outras até sentimos alívio pelo fato de terem se dado. O sistema tem insistido em incutir em nós que sim, que há vidas que valem mais que outras. Viver não é um prêmio para quem tem mérito. Todos e todas têm o direito de viver dignamente e de realizar-se como pessoa. Para isso, as condições sociais e culturais precisam estar orientadas para esse fim, e não para o despertar de mais e mais violência. Não precisamos de armas, precisamos de justiça social!

Precisamos continuar a nos horrorizar diante da violência e da injustiça. Precisamos, também, assumir uma postura crítica diante de nós mesmos, para percebermos até que ponto estamos coniventes com esse mal. Em tempos de disseminação e propagação de ódio contra bodes expiatórios, a energia que deveria ser empenhada na transformação da realidade em favor de todos e todas, volta-se para a produção de mais vítimas. Não sentar na roda dos maus (Sl 1), a acrescentar-lhe os números, deve ser um de nossos compromissos para com a humanização do mundo. A paz é fruto da justiça, ensina-nos as Sagradas Escrituras, e deve começar já dentro de nós e ser irradiada por nossas mãos e voz.

Deus continua solidário com as vítimas da injustiça e da violência. E sua compaixão e solidariedade se manifestam quando aqueles e aquelas que têm fé nesse Deus, atuam em favor das vítimas da história. A salvação do sofrimento gerado pela injustiça se dá, quando há mãos dispostas a agir conforme o querer de Deus, que é vida, vida para todos e todas, sem critérios de merecimento.

Quando o Estado institucionaliza a violência, não devemos ceder à tentação de nos aliarmos à perpetuação da injustiça contra aqueles e aquelas que já nasceram com alvos nas costas. É preciso nos aliarmos numa causa que gere a verdadeira paz, aquela fruto da justiça, e que nos faz todos e todas irmãos. Esse é um imperativo para quem tem fé nesse Deus que não suporta o mal e para quem ainda é capaz de sonhar com uma terra sem males. Basta, pois, de sangue irrigando o chão de nossa história!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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