Religião

22/03/2019 | domtotal.com

Evangelização se faz com testemunho

Dar testemunho significa, fundamentalmente, ser como Jesus, anunciador e realizador do Reino de Deus no mundo.

Frade franciscano brasileiro durante missão no Haiti: o critério-chave de nosso testemunho é o cuidado pelos pobres.
Frade franciscano brasileiro durante missão no Haiti: o critério-chave de nosso testemunho é o cuidado pelos pobres. (Marcello Casal/Agência Brasil)

Por Antônio Ronaldo Vieira Nogueira*

“Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho” (1Cor 9,16). Essa é a necessidade mais urgente para todos os cristãos no mundo atual. A exclamação paulina não pode ser entendida como um peso, mas é antes um grito que brota do coração daquele que se deixou alcançar pelo amor de Deus, revelado plenamente em Jesus Cristo por meio do seu Espírito. “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Bento XVI, Deus Caritas est, n.01).

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O encontro com Jesus nos leva ao discipulado e à missão. É assim que Marcos nos descreve o chamado/missão dos discípulos: “Chamou a si os que ele queria, e eles foram até ele. E constituiu Doze, para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar” (Mc 3,13-14). Assim, o discipulado e a missão não são dois momentos sucessivos, mas um único momento que brota do encontro com Jesus e seu anúncio do Reino de Deus: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e o que nossas mãos apalparam do Verbo da vida [...] o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos para que estejais em comunhão conosco” (1Jo 1,1.3).

Há, contudo, alguns riscos de se deturpar o sentido da evangelização, como equivalente de ensinamento de doutrinas ou como uma espécie de propaganda sobre Jesus ou sobre as atividades da Igreja. O papa Francisco nos recorda que “evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Evangelii Gaudium, EG 176). Portanto, a evangelização “não se trata tanto de pregar o Evangelho a espaços geográficos cada vez mais vastos ou populações maiores em dimensões de massa, mas de chegar a atingir, e como que a modificar pela força do Evangelho, os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a palavra de Deus e com o desígnio da salvação” (Paulo VI, Evangelii Nuntiandi, EN 19). Esse é o grande desafio da evangelização: fazer com que o Evangelho modifique o modo de ser e de viver das pessoas, começando pelos próprios cristãos. E, não poucas vezes, constatamos que o grande desafio à evangelização é a falta de testemunho dos próprios evangelizadores. Não se pode evangelizar sem testemunho.

O testemunho cristão diz respeito a uma vida que corresponda com aquilo que se anuncia. Muitas características dele poderiam ser elencadas aqui, mas vamos nos concentrar em três que consideramos principais: o amor, a alegria e o serviço.

Quanto ao primeiro elemento, o amor, ele é apresentado como um dos modos mais próprios do ser de Deus: “Aquele que não ama não conheceu Deus, porque Deus é Amor” (1Jo 4,8). É o amor do Deus Trindade que envolve toda a humanidade e a conduz para dentro de sua própria intimidade amorosa. Isso que é o mais próprio de Deus deve ser também o mais característico da vida cristã. Por isso, Jesus apresenta o amor como a identidade do ser cristão: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). 

Infelizmente, nossa sociedade atual deturpou e, com isso, esvaziou o sentido do amor. Dessa maneira vale ressaltar que o modo do cristão amar é como Jesus amou (cf. Jo 15,12), portanto, de maneira gratuita, doando-se totalmente e sendo fiel até o fim. Isso é muito importante, pois costumamos praticar um amor um tanto egoísta. Por isso, um bom critério de verificação é o amor aos pobres. “No coração de Deus ocupam lugar preferencial os pobres, tanto que ele mesmo ‘Se fez pobre’ (2Cor 8,9)” (EG 197). Deus ama os pobres não porque eles sejam melhores ou mais santos, mas simplesmente pelo fato de serem pobres, esquecidos, abandonados e maltratados por todos. Não é possível viver o Amor, que é Deus mesmo, e anunciar tal amor sem uma compaixão efetiva para com esses filhos de Deus cuja vida é pisada de muitas formas. A realidade de pobreza por si mesma é contrastante com o Evangelho e com o Amor e, para o cristão, é urgente um amor efetivo que socorra os pobres em todas as suas necessidades, sobretudo, pela prática da justiça para que o mundo seja diverso do que vemos agora.

O segundo elemento é a alegria. Ela nasce da experiência de sermos infinitamente amados por Deus. Não se trata de um mero sentimento passageiro, de algo secundário na vida cristã, mas de uma atitude de vida transbordante do coração que se encontrou com o amor gratuito de Deus, que liberta e salva de todas as amarras. E a alegria tende sempre a contagiar. Não se pode ser cristão autêntico sem a alegria do encontro com Jesus Cristo. Por isso, Paulo convida: “Alegrai-vos sempre no Senhor” (Fl 4,4). 

Não se trata simplesmente de algo que acontece quando tudo vai bem ou que aliena dos problemas e sofrimentos deste mundo. A alegria do cristão se dá pela íntima união com Cristo, por sua presença em nós. Essa alegria não ignora a dureza do mundo em que vivemos, nem seus sofrimentos. Por isso, também aqui os pobres têm algo muito importante a nos ensinar. Eles celebram a vida, os pequenos sinais de vitória, o que há de bom e positivo nas coisas pequenas e grandes e o fazem por um motivo muito profundo, explicitado por um camponês ao teólogo Gustavo Gutiérrez: “O que se opõe à alegria não é o sofrimento, mas a tristeza. Nós sofremos, mas não estamos tristes”. A alegria cristã, enraizada em Jesus Cristo, se transforma em princípio de luta contra toda tristeza provocada pela injustiça.

O terceiro elemento é o serviço. Também ele é um distintivo da vida cristã e, por isso mesmo, da evangelização. Não se pode comunicar o Evangelho do Reino sem o serviço. E o serviço do cristão deve se assemelhar ao de Jesus. É Ele quem nos diz como devemos servir. Antes do maior serviço à humanidade, quando se entrega na cruz por amor, ele se abaixa para lavar os pés dos discípulos: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13,15). 

Não se pode servir sem dar a vida por aqueles a quem se serve. E o serviço do cristão não escolhe destinatários, pois se o fizesse, seria algo interesseiro. O testemunho evangelizador se faz por um serviço que seja expressão do amor gratuito: "[...] o serviço da caridade é uma dimensão constitutiva da missão da Igreja e expressão irrenunciável da sua própria essência" [Bento XVI]. Assim como a Igreja é missionária por natureza, também brota inevitavelmente dessa natureza a caridade efetiva para com o próximo, a compaixão que compreende, assiste e promove” (EG 179). Vale ressaltar aqui que o critério-chave dado pelos Apóstolos a Paulo sobre sua missão evangelizadora (que não se esquecesse dos pobres [cf. Gl 2,10]) tem uma grande atualidade para a missão evangelizadora da Igreja, segundo Francisco: “A própria beleza do Evangelho nem sempre a conseguimos manifestar adequadamente, mas há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora” (EG 195). É pelo serviço desinteressado aos pequenos que poderemos manifestar o Reino de Deus.

Amor, alegria e serviço são realidades que nos fazem mais parecidos com Jesus e continuadores de sua missão evangelizadora. Dar testemunho dessas realidades significa, fundamentalmente, ser como Jesus, anunciador e realizador do Reino de Deus no mundo. O critério-chave de nosso testemunho é o cuidado pelos pobres! Deixemos, pois, que os pobres nos façam autênticos anunciadores do Evangelho, pois é pelo serviço a eles que seremos participantes da vida de Deus, que seremos salvos (cf. Mt 25,31-46)!  

[1] Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte/CE; Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) – Belo Horizonte/MG e professor de Teologia Sistemática da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF).

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