Religião

22/03/2019 | domtotal.com

Crer em Jesus Cristo em tempos de distopia

Não condiz afirmar que se professa a fé em Jesus e concordar com flexibilização de normas que deixam os pobres e as minorias sociais ainda mais vulneráveis.

Aliar-se aos sofredores, às minorias sociais é assumir uma mística no coração no Deus Revelado.
Aliar-se aos sofredores, às minorias sociais é assumir uma mística no coração no Deus Revelado. (Thomas Bauer / CPT Bahia)

Por César Thiago do Carmo Alves*

Distopia é um conceito filosófico utilizado pela primeira vez pelo filósofo e economista britânico John Stuart Mill (1806-1873), em 1868, ao discursar no Parlamento. Ela significa “lugar infeliz, ruim, de privação, de dor”. Em seu discurso, Stuart Mill contrapôs distopia à utopia. A perspectiva distópica está presente nas artes, na literatura e no cinema. Nas distopias, o Estado é corrupto, as normas que visam o bem são flexíveis e a tecnologia é usada como instrumento de controle. Esse conceito pode ajudar a compreender melhor o tempo presente e a profissão de fé da pessoa cristã em Jesus Cristo.

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No cenário de distopia, a pessoa cristã tem uma tarefa irrenunciável: ser testemunha da esperança. Esse testemunho brota da força do profetismo, aos moldes dos profetas bíblicos que podemos verificar na literatura veterotestamentária. Muitos têm se denominados cristãos. Frequentam alguma igreja e dizem confessar a fé em Jesus como o Senhor. No entanto, uma pergunta se impõe: qual Jesus Cristo? A pergunta parece ser irrelevante e com resposta, num primeiro momento, óbvia. Contudo, essa resposta não é algo tão somente racional ou metafísico. O ato de crer (fides qua) envolve uma opção fundamental que se revela na práxis. Não basta afirmar a fé. É preciso vivê-la. E viver a fé cristã é se pautar nos gestos e palavras de Jesus.

Ao percorremos os evangelhos sinóticos e também João, os evangelistas, cada um ao seu modo, deixam entrever quem era Jesus. Quais eram suas opções e prioridades. Qual era o seu modo de agir em sintonia com a proposta do Reino de Deus por ele anunciado. Jesus é o ungido, o Cristo, porque aceitou na obediência fazer a vontade do Pai e, com isso, ele revelou quem é Deus e quem é o ser humano (Gaudium et Spes, n.22). Suas atitudes eram pautadas na misericórdia e ele convidava quem o seguia a ser também misericordioso (Lc 6,36). Numa perspectiva de misericórdia, não se julga tampouco condena, mas perdoa (Lc 6,37).

Jesus se preocupava com os mais vulneráveis. Entre os necessitados, os famintos ganham destaque. Isso é constatado nos quatro evangelhos na narração da multiplicação dos pães (Mt 14,13-21; 15,32-39; Mc 6,30-44; 8,1-10; Lc 9,10-17; Jo 6,1-15). Tinha opção também pelo grupo dos doentes (Mc 1,34; Mt 8,16-17; Lc 4,40-41), das crianças (Mc 9,37; Mt 18,5; Lc 9,48), das mulheres (Lc 8,1-3; Mt 28,1-10; Mc 16,1-10; Lc 24,1-11; Jo 20,11-18) e dos trabalhadores (Mt 18,24-30; 31,33-41; Mc 12,1-9; Lc 20,9-16). Esses eram grupos marginais. Esses testemunhos bíblicos respondem à pergunta feita: qual Jesus? O Jesus que se alia às minorias sociais de seu tempo em virtude da proposta do Reino.

O tempo atual é, em geral, de distopia. O caso brasileiro consiste numa amostra dramática disso, sobretudo quando o discurso de ódio se fez Presidência e continua a fomentar verdadeiras tragédias, como o massacre em Suzano (São Paulo). Definitivamente, não condiz afirmar que se professa a fé nesse Jesus apresentado pelas escrituras e pautar demandas sociais que vão à contramão daquilo que o Mestre de Nazaré revelou. Aliar-se a sistema político-econômico que está escancarado e escandalosamente pactuado com a corrupção fundada em discursos pseudomoralistas e pseudo-religioso; concordar com flexibilização de normas ou com reformas que colocam os pobres e as minorias sociais ainda mais vulneráveis, retirando ainda o pouco direito conquistado a duras penas e usar das tecnologias para controlar a sociedade por meio de fake news, tudo isso é, no mínimo, viver a hipocrisia e ser destinatário das invectivas, isto é, os “ais de vós” de Jesus (Mt 13-32). É ser sepulcro caiado (Mt 23,27).

A vida cristã pautada em Jesus Cristo, neste tempo, não alimenta ainda mais a distopia. Muito pelo contrário, consiste numa luz em meio às trevas. Ser luz é tarefa cristã. Em meio à distopia, a pessoa cristã aponta para uma esperança. Essa indicação para esperança não é meramente metafísica. É concreta. É fruto de uma construção que pressupõe trabalho e encarnação efetiva na história, desde uma perspectiva libertadora. Diante da distopia, urge a necessidade de fazer, efetivamente, as mesmas opções fundamentais que Jesus fez. É aliar-se aos sofredores, às minorias sociais, a partir de uma mística encarnada na realidade e com o coração no Deus Revelado. É não se conformar com o tempo distópico, mas transformá-lo sendo arauto do amor, da tolerância, da solidariedade, da paz como shalom, do respeito, da hospitalidade e da luta por direitos e garantias fundamentais (Rm 12,2). Assim, não haverá a esquizofrenia da fé que consiste num enorme descompasso entre o que se professa com o que se vive.

César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.

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