Religião

22/03/2019 | domtotal.com

Viver pela fé e não numa fantasia espiritual

Uma fé desvinculada de ação concreta e vida de comunidade pode se transformar facilmente numa fantasia espiritual em busca do bem-estar pessoal.

Para a 'mesquinhez' na fé,  precisamos superar a espiritualidade do bem-estar, que não nos leva ao compromisso missionário.
Para a 'mesquinhez' na fé, precisamos superar a espiritualidade do bem-estar, que não nos leva ao compromisso missionário. (StockSnap/Pixabay)

Por Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN

Quando sentei para escrever este artigo me dei conta de como é difícil falar sobre fé. Talvez seja próprio do Amado escarpar-Se para não ser aprisionado. “Onde é que te escondeste, Amado, e me deixaste com gemido? Como o cervo fugiste, havendo-me ferido; saí, por ti clamando, e eras já ido...” (São João da Cruz). Falar sobre fé é procurar compreender Deus e sua relação com o ser humano e com toda a criação. Porém, quando paramos para escutar Deus, contemplando o seu mistério de amor, logo percebemos que o nosso discurso sobre Deus é mais uma antropologia do que propriamente uma teologia, ou seja, falamos mais do ser humano e de sua relação com Deus e com o outro do que de Deus mesmo. Neste sentido, falar sobre Deus e até falar com Deus exigem antes uma atitude de humildade e docilidade para escutá-Lo no rosto do outro. Pois a fé professada com a boca torna-se vazia se não é testemunhada no silêncio das ações. Mostrar a fé na comédia da vida, testemunhar Deus na obediência à sua palavra, viver transfigurado pela fé, eis o nosso grande desafio.

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O autor da "Carta aos Hebreus" (11, 1-40) faz um longo elogio a tantos homens e mulheres que viveram pela fé e, por causa da sua fé, se fizeram obedientes a Deus no serviço aos outros. A fé em Deus é, na verdade, uma experiência de entrega e confiança tão singular, que nos faz viver como se tudo dependesse de Deus e, ao mesmo tempo, ela nos leva a uma atitude de escuta, obediência ao mandamento do Senhor inscrito no rosto do outro. Por isso, viver pela fé é também fazer a experiência do engajamento serviçal ao outro como se fôssemos os únicos no mundo responsáveis por todos. Neste sentido, podemos afirmar que o nosso primeiro diálogo com Deus não é expresso como profissão de fé, “eu creio em Deus”, mas no “eis-me aqui” expresso ao próximo ao qual sou entregue.Eis-me aqui em que anuncio a paz, isso é, minha responsabilidade por outrem. Nas palavras de São João “se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4, 20).

Uma das tentações da espiritualidade cristã é a de querermos vivenciá-la enclausurada dentro das sacristias das igrejas ou no intimismo individualista. Pois, uma fé desvinculada da práxis e da comunidade pode se transformar facilmente numa fantasia espiritual, sem carne, sem rosto, sem “cidadania” no mundo. Faz-se necessário recordar o grande gesto eucarístico de Jesus, que se curva para lavar os pés dos discípulos. “O Senhor envolve-Se e envolve os seus, pondo-Se de joelhos diante dos outros para lavá-los; mas, logo a seguir, diz aos discípulos: ‘Sereis felizes se o puserdes em prática’ (Jó 13,17). Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até a humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (papa Francisco, EG, n. 24).

Quiçá o maior desafio dos crentes hoje é o de não deixar a sua fé cair na exterioridade estéril que não gera compromisso com a justiça e a paz. A Conferência dos Bispos Latino-americanos, reunidos em Aparecida (SP), em 2007, já nos alertava para o perigo de uma fé sem ressonância na vida. “Uma fé católica reduzida a conhecimento, a um elenco de algumas normas e de proibições, a práticas de devoção fragmentadas, a adesões seletivas e parciais das verdades da fé, a uma participação ocasional em alguns sacramentos, à repetição de princípios doutrinais, a moralismos brandos ou crispados que não convertem a vida dos batizados, não resistiria aos embates do tempo. Nossa maior ameaça ‘é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, na qual, aparentemente, tudo procede dentro da normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez’” (DAp. n. 12). A fé cristã é, pois, muito mais do que aceitar algumas verdades reveladas ou conteúdos doutrinais. A fé é existencial, no sentido em que toda a nossa existência é atingida por ela. Para aquele (a) que crer o seu querer, pensar e agir são iluminados pela fé, a partir de Cristo, “porque o justo viverá pela fé” (Gl 3,11).

Para vencer essa “mesquinhez” na fé precisamos superar a espiritualidade do bem-estar, que não nos leva ao compromisso missionário. “Em muitos agentes pastorais, a vida espiritual confunde-se com alguns momentos religiosos que proporcionam algum alívio, mas não alimentam o encontro com os outros, o compromisso no mundo, a paixão pela evangelização” (Papa Francisco, EG, n. 78). Essa espiritualidade do bem-estar pessoal, “inimiga da cruz de Cristo” (Fl 3, 18), quase não têm ressonância em nossa vida cotidiana, não nos compromete com os crucificados da história, não é a fé de Jesus de Nazaré, que passou a sua vida no mundo fazendo o bem.

Falando sobre a sua experiência vocacional, Charles de Foucauld escreveu: “Logo que descobri que existe Deus entendi que não podia mais fazer outra coisa a não ser viver por ele: minha vocação religiosa começa no exato momento em que despertou a minha fé”. Nota-se que a sua experiência vocacional é fruto da sua experiência de Deus, ou seja, uma vez que acredito que existe um Deus, não posso não viver somente para Ele. Nas palavras de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). Assim, a minha fé transpassa todo meu existir, vivo pela fé.

EMGE

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