Religião

22/03/2019 | domtotal.com

Catolicismo e os 'sabichões' da internet

Se multiplicam as pessoas que, munidas de uma câmera e um punhado de livros, assumem a postura 'mestres do catolicismo' que excluem os próprios irmãos.

As redes sociais se tornaram o antro das maiores imbecilidades em relação ao catolicismo que se tem notícia.
As redes sociais se tornaram o antro das maiores imbecilidades em relação ao catolicismo que se tem notícia. (Rachit Tank/Unsplash)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Ler a história da igreja sem anacronismos. Sem dúvida, um desafio para quem professa a fé católica em um período no qual o cristianismo, mais uma vez, está a mercê de jogos políticos e instrumentalizações. Jesus Cristo e os heróis do cristianismo se tornam baluartes de disputas humanas que, na maioria dos casos, não são humanizantes. Dá-se mais importância à carta de condenação de Pio XII ao comunismo que à sua encíclica Mediator Dei que, de maneira revolucionária para a época, abriu as portas para a renovação litúrgica que seria executada pelo Concílio Vaticano II posteriormente. Só para citar um exemplo entre tantos.

A verdade é que a maioria dos adeptos estão mais interessados na cruzada contemporânea virtual, segundo os moldes de uma falsa defesa dos valores, que na difusão do próprio saber. O objetivo é identificar “hereges”, não atrair as pessoas ao debate.

Nos últimos anos, temos testemunhado o despertar de um discurso bastante sedutor proferido por “gurus da internet”, cuja proposta está mais ligada à formação de guetos católicos que à busca pela verdade - seja ela histórica ou não. Lembrando que a verdade liberta, como diz o Evangelho, em vez de segregar.

Não é raro encontrar grupos de jovens que repropõem o pensamento de papas do século XIX e XX sem levar em consideração o contexto no qual esses pontífices viveram e conduziram seus respectivos governos. O saber dá lugar à soberba de pessoas que, convencidas de que o acúmulo de leituras oferece todas as respostas, militam em nome de uma espécie de positivismo intelectual cuja execução mina completamente a reflexão que pessoas sérias tentam promover. Por difundirem a ideia de que “não precisamos da doutrinação das universidades”, se tornam vítimas da própria convicção traiçoeira; a renúncia ao debate, ao confronto de ideias e ao diálogo promovidos dentro do espaço acadêmico, fomenta o surgimento de ideologias nocivas. E pensar que foi a Igreja Católica a grande responsável pela criação do sistema universitário (Bolonha, Itália - 1158). Quanta contradição!

Jamais imaginaríamos que teríamos convencer os próprios católicos da legitimidade de um conclave - sobretudo em relação ao último, de 2013 -, ou mesmo que a história da Igreja também é feita de sombras. Imaginávamos que, por uma questão óbvia, tais linhas de raciocínio jamais imperariam em pleno século XXI. As redes sociais se tornaram o antro das maiores imbecilidades em relação ao catolicismo que se tem notícia. Se continuar nesse ritmo, daqui a pouco encontrarão motivos para limpar a imagem de Alexandre VI, um dos papas mais promíscuos da história.

“Papa Francisco desfez o que um santo fez”, dizia a manchete de um jornal, referindo-se à suspensão das penas canônicas impostas ao sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal. É como se a canonização de um papa fosse capaz de gerar vereditos em relação à história do mundo e dos indivíduos, sujeitos a metamorfoses existenciais e a mudanças de rota constantes. Sem contar que o cristianismo é a religião dos novos inícios, das segundas chances, do “quem te condenou?”. Se a proposta é difundir algo diferente disso, reduzindo o catolicismo a uma lista de prescrições, rubricas, encíclicas e papas que nos agradam, há algo errado.

O catolicismo, uma das vertentes mais fortes do cristianismo, nasceu para ser lugar de encontro com Cristo e com o outro. E esse outro é o próximo que muitas vezes não nos agrada, que pensa diferente ou fez as escolhas com as quais não concordamos. Toda e qualquer pessoa é digna de receber as boas-vindas dentro deste redil, com direito a café e uma boa prosa, em nome dos reais valores, do conhecimento partilhado, do diálogo que constrói.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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