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22/03/2019 | domtotal.com

Pelo menos uma vez

O menino fecha os olhos, sonolento ainda. Queria ser rico assim igual aos caras da TV e da internet.

O menino detesta perder. Sente mais raiva.
O menino detesta perder. Sente mais raiva. (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

O menino abre a geladeira enferrujada. Não tem muito o que comer. A mãe saiu cedo para trabalhar de faxineira, passa o dia fora. O pai ele não conheceu. Só lembra que era um cara que fedia à cachaça. Vinha pouco, até sumir, dizem que mataram ele. Ainda bem, porque o menino notava as marcas no rosto da mãe, ouvia as gritarias, tremia sozinho no quarto, se mijava todo.

Na geladeira tem pão de forma; ele pega uma fatia quase mofada; espalha um pouco de margarina. Volta para a sala, liga a TV que a mãe comprou no cartão. Pelo menos a mãe se diverte à noite, vendo novela – mas nunca assiste tudo. Ronca antes do fim, exausta, no sofá cheio de furos.

O menino não vai à escola faz muito tempo. Mandaram dizer que a escola está fechada, um troço do governo que não deu dinheiro, o político roubou, ele não entende bem. Melhor: prefere ficar de bobeira o dia inteiro. Para que estudar? Estudar é um saco; acordar cedo, fazer dever de casa. E fazer sozinho, porque não tem pai, nem mãe, nem irmã para ajudar quando ele não entende o para-casa. Os colegas zoavam dele quando errava, dava vergonha, raiva.

Com o pão de forma na boca ele se assenta no sofá. Estica os pés sujos nas almofadas, aperta o controle remoto. Aparece aquela mulher conversando com o papagaio. Sempre aparecem também as moças lindas das novelas. Hoje ele teve sorte: veio aquela atriz moreninha que ele pira.

Lá no fundo ele queria ser o namorado da atriz moreninha; o bacana que ele viu na internet. O menino tem internet; tem um celular velho que a mãe comprou baratinho daquele sujeito que aparece no bairro vendendo de tudo. E tem o gato, o fio puxado do poste, foi mole.

O namorado bacana da moreninha foi com ela para praia, viu no site. Os dois rindo muito, postaram fotos, e a moreninha de biquíni contou que pagaram uma nota preta no hotel da praia. Três mil por dia. Nu! Já pensou se o menino tivesse essa grana toda e uma namorada assim?  

O menino fecha os olhos, sonolento ainda. Queria ser rico assim igual aos caras da TV e da internet. Cantor, ator de novela, pagodeiro, funkeiro, tudo milionário. Usar brinco do Neymar, colar de ouro, boné brilhante, anéis e tênis irados. Vê lá se médico, engenheiro, enfermeiro ganha grana assim? Qual é, meu irmão? Escola, aula, professora, para quê?

O menino dá mais uma mordida no pão quase mofado e sente uma coisa esquisita. Parece raiva. Ou vergonha. Um troço ruim. Desliga a TV, pega o celular. Dedos elétricos, olhos vidrados. Tem aquele game que ele curte, beleza, 'véio'. Já passou de fase; pode clicar no fuzil AR-15, no sabre ninja e agora invadir a 'mansão maldita'. Vai ser legal, até se esqueceu da fome.

O inimigo apareceu atrás do muro, atirando. Ra-ta-tá! Matou ele com uma rajada só, sangue para todo lado. Fica esperto, dá mole não! Mais três da 'mansão maldita' descem pela escada atirando com pistolas. Ra-ta-tá-tá-tá! Rajada nos cornos deles! Sangueira escorrendo pelos degraus. Mas aí... bobeou, dançou: um Guardião Rebelde surgiu atrás da moita e meteu bala na tela, no menino. Perdeu, cara. Perdeu.

O menino detesta perder. Sente mais raiva. Joga o celular num canto, ficou puto. Raiva de tudo: do pão mofado, da moreninha rindo com o namorado bacana. Raiva de escola, merda de vida. Sai de casa batendo porta. O menino quer ganhar um dia; pelo menos uma vez aparecer na TV, no site. Aí todo mundo vai ver; ele vai ganhar, sim.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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