Religião

25/03/2019 | domtotal.com

Libertar a Bíblia do poder da loucura

A missão cristã está cada vez mais em risco, quando uma legião de imbecis se tornou porta-voz de um evangelho alienado.

Coube à Educação, às Relações Exteriores e aos Direitos Humanos a governança por loucos.
Coube à Educação, às Relações Exteriores e aos Direitos Humanos a governança por loucos. (Wilson Dias/Agência Brasil)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Não ter vergonha da fé que se professa é um elemento importante de fidelidade daqueles e daquelas que creem. Uma provação, para estes nossos tempos, é não se envergonhar de nos confessarmos cristãos e cristãs, quando pululam, por todos os cantos, representantes histéricos da fé cristã. A pretensão de poder, a partir de uma interpretação interesseira das Sagradas Escrituras, por parte do neopentecostalismo, realizou-se. Temos um governo, a nível federal, que fez campanha a partir de um versículo bíblico. A instrumentalização do texto sagrado alcançou o nível da canalhice: uma vitória ancorada em fake news, que tinha a campanha sob o mote de conhecer a verdade, pois a verdade liberta. Vitória do neopentecostalismo, que se apropria do texto bíblico a bel prazer.

Não é novidade, pois, a relação entre religião e poder. Basta conhecer um pouco de História para nos darmos conta de que a relação entre poder religioso e poder político não pode resultar em boa coisa. No Brasil, mesmo, conhecemos a relação entre setores da hierarquia católica e o governo militar fruto de um golpe. Agora, pastores e pastoras ocupam o centro do poder, misturados com milicianos e toda a sorte de malfeitores. Que falta faz um conhecimento verdadeiro da Sagrada Escritura: bastava se levar em conta o Salmo 1, para que esses ímpios representantes da religião e responsáveis pela alienação da fé de pessoas simples, tomassem consciência de que não deveriam se misturar com bandidos para tomar o poder. Os fins não justificam os meios. E, claro, esse fim, de tornar a nação um poder evangélico, é um fim patético e nocivo.

Na atual formação do governo, os militares ocuparam aquilo que verdadeiramente interessa a eles. A economia está a serviço do invisível, mas bem nefasto, Mercado. Coube à Educação, às Relações Exteriores e aos Direitos Humanos a governança por loucos. Ressalto algo importante: não chamaria quem tem problemas psiquiátricos de loucos. A loucura à qual me refiro é a alienação. A nomeação dos representantes dessas pastas parece ter sido cuidadosamente feita: enquanto criam constantes embaraços que levam à chacota e ao absurdamento, a entrega de mão beijada do país e a destruição das políticas públicas que com muito custo conseguimos, vai se dando. Mas igualmente danosas têm sido o exercício dessas pastas.

A questão da mudança da embaixada brasileira para Jerusalém, que tem um fundo religioso imbecil e serve a interesses dos EUA, foi desastrosa para a exportação de carnes para o mundo árabe. Num país em que todos os dias mulheres são agredidas e mortas pelo simples fato de serem mulheres e que lgbtq+ são brutalmente assassinados por sua condição sexual e de gênero, a insistência em temas ridículos e extraperiféricos por parte da ministra dos Direitos Humanos e das Mulheres é um desserviço à vida humana e à dignidade do ser pessoa. O último alvoroço, de fundo religioso, foi a perspectiva idiota da que foi nomeada Secretária Executiva do Ministério da Educação. Nesse país, em que a educação é sucateada como projeto de poder, os passos para trás, a partir de agora, vão nos fazer sentir na pele o absurdo que foi ter elegido esse governo de incompetentes.

Viralizou uma entrevista em que a Secretária explana sobre o significado daquilo que ela acredita como sendo uma educação a partir de Deus. Nessa hora, não nos envergonharmos de nos confessarmos cristãos é um desafio e tanto. Quanto absurdo sem sentido! Que pobreza intelectual! É mais que urgente libertamos a Bíblia do domínio do poder da loucura. A missão cristã está cada vez mais em risco, quando uma legião de imbecis se tornou porta-voz de um evangelho alienado, e que nos afasta do verdadeiro e profundo significado do que seja a vida de Jesus Cristo e sua mensagem. Teólogos e teólogas do país, uni-vos!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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