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24/03/2019 | domtotal.com

Sepultamento simbólico

As perdas, especialmente pela morte, são muito difíceis de serem aceitas, principalmente por pessoas exageradamente apegadas àquela que desapareceu.

A experiência mundial mostra a eficiência dessa cerimônia para ajudar no fechamento do ciclo morte-luto.
A experiência mundial mostra a eficiência dessa cerimônia para ajudar no fechamento do ciclo morte-luto. (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Nesses últimos tempos, catástrofes de grandes proporções e com diversas vítimas ocorreram no Brasil e no mundo. Entre elas, o desabamento de duas barragens com resíduos de mineração: o de Mariana, em 2015, deixando 18 mortos e 1 pessoa desaparecida; e no final de janeiro deste ano, o de Brumadinho, causando a morte de 306 pessoas. Dessas, só foram recuperados os corpos de 210, até meados de março. Quase uma centena de vítimas continuava soterrada sob toneladas de lama e resíduos de mineração. Mas também ocorreram dois grandes desastres aeronáuticos, um em outubro de 2018, quando um avião Boeing 737 Max 8 com 189 passageiros, caiu no mar de Java, não havendo sobreviventes. E o outro, em 10 de março deste ano, quando outra igual aeronave caiu na Etiópia, matando 149 passageiros e 8 tripulantes.

Um ponto comum dessas catástrofes, foi a impossibilidade de localizar e identificar todos os corpos das vítimas, apesar de sofisticadas tecnologias de busca e pesquisas, mesmo com o hercúleo e admirável esforço dos bombeiros, dos profissionais e voluntários que colocaram em risco suas próprias vidas e saúde para tentar encontrar, uma parte que fosse, desses corpos. Com isso, as famílias e amigos ficaram num verdadeiro limbo, pois se há uma máxima jurídica que diz não haver o crime se não há o corpo, para eles, sem o corpo não houve o funeral, e sem o funeral, ficará um enorme vazio nos enlutados. Inclusive há casos de pessoas que se recusam, definitivamente, a acreditar que aquele seu ente querido, que teoricamente esteve envolvido numa tragédia, tenha morrido. Alguns chegam a assumir – quando possível – a continuidade da busca do corpo, mesmo quando os profissionais encerraram seu trabalho pela possibilidade zero de recuperar alguma coisa. Outros mais continuam a afirmar que aquela pessoa não morreu, que talvez perdeu a memória, e se encontra perambulando por outros locais.

As perdas, especialmente pela morte, são muito difíceis de serem aceitas, principalmente por pessoas exageradamente apegadas àquela que desapareceu. Trabalhando com enlutados, por mais de vinte anos, convivi com pessoas que afirmavam, com toda convicção, que seu ente querido estava vivo, recusando por isso qualquer ajuda para superar a perda. Superação que se pode alcançar tendo apoio adequado para vivenciar o luto, único caminho para a libertação do sofrimento intenso causado por uma perda não resolvida. Algumas chegavam a preservar o quarto da pessoa desaparecida, tal e qual ela havia deixado. Não desafaziam de uma só peça de suas roupas e objetos, tudo permanecendo em estado de espera por um impossível retorno.

Para os casos de corpos não recuperados, a Biotanatologia (ciência que trabalha com enfermos em fase terminal e pessoas enlutadas) tem um recurso que, para quem não está vivendo essa terrível experiência, pode parecer até um tanto absurdo e fantasioso, que é o “Rito mortuário substitutivo”, também chamado de funeral ou sepultamento simbólico. Apesar do que possa parecer, a experiência mundial mostra a eficiência dessa cerimônia para ajudar no fechamento do ciclo morte-luto, quando não há um corpo nem parte dele, para ser sepultado.

Para realizá-lo é necessário que os familiares sejam previamente assistidos e preparados por um profissional da ciência acima referida, hoje presente nas maiores cidades. Caberá a ele orientar o cerimonial em algumas sessões de acolhimento aos enlutados, nas quais explicará, com clareza, o seu sentido e os resultados esperados. Será também importante que após a cerimônia os familiares continuem trabalhando o luto, que tem várias etapas, reforçando e sedimentando o funeral simbólico realizado.

Sinteticamente, esse cerimonial é feito como se o corpo estivesse presente, havendo um caixão no qual são colocados roupas, fotos e ou objetos do falecido que, na falta do corpo, será representado por eles. Os familiares mais próximos escolherão o que melhor identificará aquela pessoa, colocando tudo no caixão que será em seguida rigorosamente fechado. Ele não voltará a ser aberto, pois a imaginação é o nosso melhor recurso para dissolver as grandes dores. Faz-se o velório como usualmente se faz, se possível mais curto, podendo um representante da família fazer a saudação ao morto. Um ministro religioso cuidará das orações, dentro da crença daquela família. Para isso, é muito importante que previamente haja um bom entrosamento do celebrante com o biotanatólogo, evitando contradições entre as suas falas. Outras homenagens poderão ser feitas, e em seguida o caixão será levado ao crematório, ou à sepultura da família, como o desejarem, para o sepultamento. Para a família isso é muito importante, pois a sepultura será a referência da pessoa querida, inclusive para possíveis visitas posteriores.

Em meu livro “Sobre o viver e morrer”, (Ed. Vozes) no último capítulo, “Para que servem os ritos mortuários? E o luto?”, faço uma descrição detalhada do Rito mortuário substitutivo”. Profissionais que eventualmente vivem essa experiência, se beneficiarão com sua leitura.

Quem acompanhou as notícias do acidente na Etiópia, deve ter visto o sepultamento simbólico e coletivo que foi feito, tendo nos vários caixões sem corpos, um pouco da terra do local onde o avião caiu e se desintegrou, não deixando restos mortais da maioria das vítimas. Em nossa cultura, não estamos habituados a isso, mas podem todos ficar certos de que é um método deveras eficiente para superar o luto e o sofrimento, nas mortes sem corpos.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

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