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25/03/2019 | domtotal.com

Memória como ilha de edição

Minha autodefesa me faz abraçar então as lembranças antigas.

Até porque me resta menos futuro e muito mais passado.
Até porque me resta menos futuro e muito mais passado. (Pixabay)

Por Ricardo Soares*

Tenho muito respeito e certo assombro diante das doenças degenerativas da memória. Perdi meu pai relativamente cedo por conta do maldito mal de Alzheimer. Tenho pavor de fazer o tal exame de doenças pré-existentes por temor de ser propício ao mesmo mal, visto que uma das teorias é  a "transmissão genética".

Mesmo diante desse assombro e, por causa dele, é que peço licença aos céus para comentar que nos tempos presentes eu preferia ter só as minhas lembranças mais antigas. As recentes são pesadas, onerosas, me conduzem a um labirinto do qual desconheço a saída. Estamos no tal beco sem fim, sem fundo, imersos numa enxurrada de ignorância e intolerância, inclusive festejada. Parece que virou moda ser xucro, ser intolerante, ser "valentão".  E evidente que o desgoverno que desabou sobre o país tem muito a ver com isso.

Minha autodefesa me faz abraçar então as lembranças antigas, no qual vejo São Paulo edulcorada por paisagens mais tolerantes e bonitas, com meu avô carregando uma porção de pacotes pardos com quitutes na praça das Bandeiras entrando com dificuldade no ônibus que o levaria para o Itaim Bibi, que na época era apenas a vila Olímpia, sem a avenida Juscelino Kubitscheck . Um bairro cercado de sobrados e com um córrego justamente onde hoje existe a avenida.

Poderia listar aqui uma centena de boas lembranças de tempos outros em várias geografias urbanas para situar meu corpo espiritual no passado. Pois o corpo físico anda cansado de tanta feiúra e intolerância no presente. Uma célebre frase do saudoso poeta Wally Salomão dizia que a "memória é uma ilha de edição". Tenho trabalhado a minha nesse sentido, dando ouvido ao meu sentimento (quiçá enganoso), que o passado foi melhor que o presente. Até porque me resta menos futuro e muito mais passado. Acabo me agarrando a ele, a mãos amorosas que segurei e já se foram, a amigos que partiram sem prévio aviso. Sim, doutor João Guimarães Rosa, "viver é perigoso", mas seria muito mais gostoso não tivéssemos hoje tantos ruídos ruins no nosso cotidiano. Sei que é uma mazela mas assumo. Pelo menos para mim o passado tinha mais encantos.

*Ricardo Soares é escritor e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

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