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25/03/2019 | domtotal.com

História de uma cadelinha caduca


Afonso Barroso
Afonso Barroso (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Branquinha, uma mancha preta no dorso em forma de coração, presente de uma amiga da família, a cachorrinha foi batizada com o nome de Dorothy, extraído de uma revista qualquer. Era uma vira-lata, mistura de pequinês com fox paulistinha. Acolhida com amor e carinho, integrou-se à família e cresceu como a nova alegria da casa. Tinha sua casinha almofadada na área de serviço, mas não raro era levada por uma das meninas para dormir na cama com ela.

Parecia agressiva quando chegava uma visita, mas logo se via que aqueles latidos não eram de agressividade e sim de boas-vindas, como bem demonstrava o balançar alegre da cauda. Quando tinha fome e faltava aquela ração imitando ossinhos que abocanhava para comer casa a fora, ela tinha o seu jeito de pedir. Olhava para quem estivesse mais perto e começava a dar latidos curtos, balançando a cauda, enquanto se dirigia à área de serviço, olhando para trás, como a dizer vem comigo, olha aqui pra você ver, não tem mais osso, faz favor de trazer o meu lanche.

Anos se passaram, e chegou a fase em que Dorothy era e não era mais tão querida. Já começava a dar sinais de caducidade. Fazia cocô fora dos jornais que formavam o seu banheiro privativo. Urinava nos sofás ou nas camas. Praticava, enfim, cada vez mais frequentemente, esses atos inconvenientes de animais domésticos quando a velhice vem chegando. Já estava com quase doze anos, idade avançada para cães daquela não-raça. E a Dorothy, que era festa, virou estorvo. Era preciso livrar-se dela. Mas como? 

Numa noite de inverno, uma ideia acorda o velho no meio da madrugada. Ele cutuca a esposa: “Vou fazer uma coisa: levo a Dorothy para o Parque da Lagoa e esqueço ela lá”. Podia não ser uma boa ideia, mas era a melhor que ocorrera. O parque, que ficava a mais de 20 quilômetros, era um lugar aprazível aonde ia muita gente, especialmente aos domingos e feriados. Eram famílias que faziam piquenique, homens que faziam caminhada, garotas que faziam ginástica, mulheres que faziam fofoca, atletas que faziam corrida, namorados que faziam preliminares, crianças que faziam arruaça, velhinhos que não faziam nada. Nos dias úteis, um lugar deserto, ocupado apenas pelos funcionários e algum aposentado temporão. 

Naquele dia, bem de manhãzinha, ele sai com a cachorrinha, coloca-a no banco de trás do carro e ruma para o parque, aonde chega trinta minutos depois. Dirige por uma das vielas até o fundo do parque, à beira de uma mata. Vê um banquinho ao pé de um jequitibá enorme, para o carro, sai, abre a porta de trás e tira a cachorrinha, que o olha triste, como a adivinhar o que a espera. Ele solta-a no gramado. De medo, ela esconde o rabo entre as pernas. Ele senta-se no banquinho. Ela parada, olhando-o. De repente, ele se levanta e anda rápido até o carro. Liga, acelera e vai embora sem olhar para trás. 

Não quer pensar nela, mas não tem jeito. Em todo o trajeto de volta a casa, o remorso. Irrita-se com o trânsito e com a sua atitude, sentindo-se uma pessoa cruel, perversa. Imagina a cadelinha perdida naquele parque, sem saber para onde ir, longe do carinho da casa que a expulsou. 

Dirige ouvindo latidos. Buzinas são latidos. Vozes são latidos. Uma mulher para ao seu lado e diz qualquer coisa, parece que reclamando da sua lentidão. Olha para o carro e vê a Dorothy ao volante. Esses delírios o seguem até chegar à garagem do prédio. Aciona o controle do portão, que se abre. Entra, estaciona o carro, sai, e quando chega à porta do elevador, um susto. Meu Deus, não pode ser, não é possível!

Na porta do elevador, olhando para ele, balançando o rabinho e soltando latidos curtos de alegria, ali está ela, na sua frente. Não, não é alucinação. É mesmo a Dorothy. Em pessoa. Esperando-o para também pegar o elevador, quem sabe nos braços dele até o quinto andar. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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