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23/03/2019 | domtotal.com

A ideia de África Global reflete a herança do continente em todo o mundo

Coordenador da Unesco participa de reunião internacional sobre a Coleção História Geral da África na Dom Helder Câmara

Ali Moussa-Aye, chefe do setor de História e Memória para o Diálogo da Unesco, faz pronunciamento durante abertura da reunião na Dom Helder.
Ali Moussa-Aye, chefe do setor de História e Memória para o Diálogo da Unesco, faz pronunciamento durante abertura da reunião na Dom Helder. Foto (Thiago Ventura/DomTotal)
Ali Moussa-Aye, chefe do setor de História e Memória para o Diálogo da Unesco
Ali Moussa-Aye, chefe do setor de História e Memória para o Diálogo da Unesco Foto (Unesco/Divulgação)

Por Pablo Pires Fernandes
Repórter Dom Total

Um dos grandes intelectuais africanos e nome de destaque na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Ali Moussa-Iye é chefe do setor de História e Memória para o Diálogo da Unesco. Doutor em ciências políticas, ele coordena grandes projetos da instituição: a Coleção Histórias Geral e Regionais, que engloba coleções específicas de vários continentes, e o projeto Rota da Escravidão. Entre suas muitas atribuições, o especialista estará em Belo Horizonte na condição de coordenador do Projeto do Volume 9 da “História Geral da África” (HGA).

Moussa-Iye participa, a partir de segunda-feira (25), da reunião do Comitê Internacional Científico, realizado na Escola Superior Dom Helder Câmara. O comitê elabora, desde 2013, o nono volume da Coleção HGA e prepara a publicação de mais dois volumes. O encontro terá sessão aberta ao público na terça-feira (26), no Auditório Dom Helder/EMGE.

O coordenador da Unesco concedeu entrevista exclusiva ao Dom Total, por e-mail, de Paris, onde funcionam os escritórios da instituição da ONU. Ele fala sobre a Coleção História Geral da África, projeto monumental criado em 1964 que, durante décadas, mobilizou cerca de 350 estudiosos de diferentes áreas – 80% deles africanos.

De acordo com Moussa-Iye, a publicação da HGA tem mudado paradigmas em relação à história do continente, já que dá voz a autores africanos e revela interpretações novas que superam e desconstroem as perspectivas eurocêntricas repletas de preconceito e distorções. Ele conta sobre a segunda fase do projeto, que busca levar o conteúdo da coleção a um público mais amplo e às salas de aula, sobre o conceito de “África Global”, trazido pela coleção para refletir melhor a cultura africana presente não apenas no continente, mas em todas as regiões do mundo que receberam as suas diásporas.

ENTREVISTA COM ALI MOUSSA-IYE

Como as visões e interpretações históricas a respeito da cultura africana têm se transformado ao longo das décadas de existência do projeto e da publicação da coleção “História Geral da África”?

Os preconceitos com a África e pessoas de descendência africana sobreviveram à abolição da escravidão e ao fim da colonização. Eles ainda estão vinculados ao que agora é chamado de "biblioteca colonial", contendo milhões de textos, ilustrações, imagens nas quais continuam sendo utilizados termos, categorizações e conceitos tendenciosos. Isto é o resultado de três tipos de negação com as quais as pessoas de ascendência africana têm sido confrontadas ao longo da história: a negação da sua dignidade e humanidade, a negação da sua história e cultura e a negação dos seus direitos e cidadania. É para desconstruir e desafiar esses preconceitos raciais que a Unesco lançou a “História Geral da África” (HGA) no início dos anos 1960. A HGA estabeleceu uma perspectiva africana e até mesmo pan-africana da história da África. Usando uma diversidade de fontes e uma metodologia científica inovadora, a HGA mostrou que as culturas e as civilizações africanas antecederam e influenciaram outras grandes civilizações. A obra explora a dinâmica da relação entre a África e suas diásporas através do conceito de “África Global”, que ajuda a compreender as maneiras como a África tem influenciado o conhecimento, a imaginação, a criatividade e a espiritualidade do mundo inteiro. Graças à sua abordagem inovadora e às contribuições de alguns dos maiores pensadores africanos e afrodescendentes, a HGA teve importante impacto na transformação das nossas visões sobre a África e as suas diásporas. Mas o trabalho pioneiro da desconstrução tem que ser constantemente perseguido, pois muito estereótipos em relação à África continuam a poluir mentes.

É essencial que o conhecimento reunido na coleção seja difundido. Quais estratégias são utilizadas para divulgar este conhecimento?

Vale lembrar que, apesar de todos estes esforços, a HGA não é amplamente disseminada nem suficientemente utilizada em escolas e universidades. Em alguns países africanos, as pessoas que elaboram o conteúdo didático tenderam a uma “nacionalização” da sua história, deixando de lado a herança comum das diferentes culturas e civilizações africanas . É por isso que lançamos a segunda fase do projeto HGA, em 2009, para desenvolver, com base na coleção, um conteúdo pedagógico, incluindo livros didáticos, guias para professores e material de acompanhamento para serem incorporados aos currículos nacionais de nível primário e secundário em todos os Estados-membros da União Africana. Esses materiais visam desenvolver um sentimento de orgulho dos africanos em relação à sua herança, auto-estima e autoconfiança, que seria capaz de empoderar a juventude africana e ajudá-los a conduzirem seus próprios destinos e o de seu continente. Destaco que, atualmente, todos os volumes da HGA estão acessíveis gratuitamente nos sites da Unesco, e o conteúdo pedagógico e outros materiais também serão publicados on-line em breve.

Além da educação, há ações de comunicação?

Esta segunda fase inclui materiais educacionais de produção para educação formal e informal, respondendo às novas formas de disseminação de conhecimento e utilizando as potencialidades da Tecnologia de Comunicação e Informação (ICT, em inglês). Estamos também incentivando produtores parceiros e jornalistas a realizar programas de rádio e televisão sobre a “História Geral da África” para alcançar maior audiência. Contribuímos para a realização de uma série de nove filmes, dirigidos pela famosa jornalista da BBC Zeinab Badawi e transmitido pela emissora britânica gratuitamente. Participamos também na produção de mais de 100 programas de rádio, transmitidos pela Rádio França Internacional.

Como é a Coalizão Internacional de Artistas criada pelo projeto?

Considerando que os artistas são formadores de opinião e podem ter influência positiva para ajudar a popularizar a HGA para o público em geral e, especialmente, para as gerações mais jovens, em 2015, criamos a Coalizão Internacional de Artistas para a promoção da HGA. Mais de 300 artistas de diferentes regiões do mundo já aderiram à coligação.

Há novidades conceituais ou de conteúdo nos próximos volumes da coleção?

Até agora, mesmo nos volumes anteriores da HGA, a África e suas diásporas têm sido, muitas vezes, apresentadas como grupos distintos, separados por oceanos, e cujo contato foi esporádico, apenas durante breves momentos históricos. Os escritores dos novos volumes da “História Geral da África” tentam quebrar essa perspectiva binária e simplista das relações entre a África e suas diásporas. Introduzindo o conceito de “África Global”, o Comité Científico Internacional propôs uma reinterpretação inovadora dessas conexões.

Pode explicar melhor o conceito de “África Global”?

O conceito de “África Global” possibilita a compreensão da história das relações entre africanos e afrodescendentes como processo interligado e contínuo, composto pela circulação de pessoas, conhecimento, know-how e produção cultural daqueles cuja matriz é a herança africana. O conceito também torna possível ir além da questão de raça e focar na presença multifacetada da África em diferentes regiões do mundo e na diversidade de suas influências em outras culturas. Geograficamente, a presença africana não é mais vista simplesmente sob a perspectiva do mundo atlântico (Europa, Américas e Caribe), mas de uma forma verdadeiramente globalizada, tendo em conta as diásporas do Oceano Índico, do Oriente Médio e da Ásia. Historicamente, a presença africana em outros continentes tem sido considerada ao longo do tempo, desde os tempos antigos, para ilustrar as diferentes ondas de “fluxos de saída” da África (explorações africanas e expansões fora do continente, as deportações em massa de africanos de diferentes regiões do mundo pelo tráfico, deslocamentos causados pela colonização, migrações pós-coloniais etc.). Além da utilidade de refletir a diversidade de trajetórias e a continuidade das relações, o conceito de “África Global” também apresenta um melhor entendimento das aspirações das novas gerações na África e suas diásporas para contribuir para o Renascimento Africano e para a construção de um pan-africanismo do século 21.


Redação Dom Total

EMGE

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