Cultura

23/03/2019 | domtotal.com

Ferlinghetti, 100

O mais velho poeta norte-americano em atividade, símbolo da ideologia beatnik, Lawrence Ferlinghetti comemora seu centenário neste domingo (24)

O escritor e editor Lawrence Ferlinghetti por ocasião do primeiro Festival de Poetas, na Praia de Castelporziano, em Roma, em 1979
O escritor e editor Lawrence Ferlinghetti por ocasião do primeiro Festival de Poetas, na Praia de Castelporziano, em Roma, em 1979 (Marcello Mencarini/Leemage/AFP)

Por Ronaldo Bressane*

“Eu penso em Ferlinghetti, um beat qualquer, eu penso...”, cantava Cadão Volpato nos anos 1980, à frente de sua banda Fellini. Eu tinha 16 anos e gostava daquele pós-punk tosco com letras surrealistas, entupido de referências nunca dantes navegadas. Que nome sonoro, Ferlinghetti! Me lembrava Meneghetti, o Gino, o maior ladrão que já existiu em São Paulo – notório ventanista, elegante até o último fio do bigodinho, Gino foi preso pela última vez aos 92 anos (!), saindo da janela do sobrado onde é hoje a Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho, em Pinheiros (há uma placa no local relatando o episódio). Imagine ser assaltado por um velhinho quase centenário – sim, sim, claro, Gino, leve também meu coração... Meneghetti morreu em 1976, aos 96. Não chegou a viver tanto quanto Ferlinghetti. Bem, escalar telhados e correr da polícia são atividades mais perigosas do que escrever, editar e divulgar poesia.

            Ou quase. Ferlinghetti, apesar de chegar em forma aos 100, passou por perrengues pesados em sua longa vida: foi abandonado pelos pais, escapou dos nazistas, viu uma bomba atômica ser lançada perto dele, foi preso por publicar um livro. Disso tudo eu ainda não sabia, adolescente ignorante, ao caçar Ferlinghetti pelos sebos e livrarias do bairro da Liberdade nos anos 1980. Para minha sorte, topei com a edição novinha da L&PM de “Um Parque de Diversões da Cabeça”, reunião de seus poemas traduzidos por Eduardo Bueno e Leonardo Fróes. Aí caí num troço assim:

“O mundo é um lugar maravilhoso

                                   onde nascer

se a gente não ligar para o fato

        de a felicidade nem sempre

                        ser muito engraçada

se a gente não ligar para umas horas de inferno

                de vez em quando

justamente quando tudo está ótimo

                    porque nem no céu

eles ficam cantando

                     o tempo todo”

            De cara já gostei do cara: em versos livres, ele se abria em uma declaração de amor pela realidade, mas logo em seguida desconfiava da possibilidade de ser feliz, da possibilidade de a vida ser uma merda, e da possibilidade de que nem mesmo em um momento de alegria o canto ser a única coisa interessante para fazer. De Whitman ele tinha o êxtase, mas de Dostoiévski ele trazia o veneno. Não descuidava das epifanias nem da visão crítica; uma mistura de Doors com Velvet Underground, minhas bandas favoritas à época. Não parecia um hippie alienado, nem um virjão preso numa torre de marfim. Folheei mais e caí nesse:

“O cachorro vai livre pela rua

e vê a realidade

e as coisas que ele vê

são maiores que ele

e as coisas que ele vê

são a realidade dele

Bêbados caindo nas portas

Luas subindo em árvores

O cachorro vai livre pela rua

e as coisas que ele vê

são menores que ele

buraco de formiga

peixe em folha de jornal

vitrines da Chinatown com galinhas

de cabeças pousadas um quarteirão à frente

O cachorro vai livre pela rua

e as coisas quele cheira

cheiram um pouco como ele”

            Estou gostando desse cara!, pensei. Ele é livre como um cachorro viralata, ele é um viralata punk, e eu sou um viralata pós-punk, nos meus 16 anos, era assim que eu me sentia: a minha realidade era só minha, eu via coisas que só eu via, e eu passava por elas sem me agarrar muito, mas de algum modo a sujeira daquelas coisas grudava em mim. Esse cara não é um poetastro solene: ele fuça os ossos da linguagem feito viralata. De repente caí nesses versos:

“Sou o pianista

de um cassino abandonado

numa colina à beira-mar

em meio ao nevoeiro

mas sempre a tocar”

            Aí bateu. Eu tocava piano à época (hoje menos), mas era assim que me sentia, sabia exatamente esta sensação de estar tocando no meio de um nevoeiro, sem que talvez ninguém me ouvisse, e mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, não parava de tocar. Ferlinghetti roubou meu coração, então, e como Meneghetti, eu só podia roubar o livro da livraria; depois o dei de presente, depois o comprei de novo, e desde então ele segue comigo, 50 anos após ter sido escrito, porque o autor daqueles poemas ainda está vivo, vivo, muito vivo. Com a recente morte do chileno Nicanor Parra, Ferlinghetti é provavelmente o mais velho poeta vivo – o mais velho entre os grandes.

Atualmente local turístico oficial de São Francisco (EUA), a Livraria City Lights, aberta em 1953, celebra o centenário de seu fundador com festa neste domingo (24) (Caroline Culle/Wikicommons)Atualmente local turístico oficial de São Francisco (EUA), a Livraria City Lights, aberta em 1953, celebra o centenário de seu fundador com festa neste domingo (24) (Caroline Culle/Wikicommons)

Até pouco tempo, Lawrence Ferlinghetti estava de férias no México, entrando e saindo da City Lights e trabalhando em pinturas e poemas. Mas os últimos dois anos têm batendo duro no corpo do ícone literário. Ferlinghetti está quase cego, passa muito tempo descansando e quase não dá mais entrevistas. Em uma conversa recente, para a rádio KQED, de San Francisco, disse que ainda sonha em começar uma revolução. Mas a América ainda não está pronta para isso. "Seria necessária uma nova geração inteira que não fosse dedicada à glorificação do sistema capitalista", diz ele. "E não uma geração presa no eu, eu, eu." (Nos anos 1980, conforme conta Eduardo Bueno no prefácio da excelente edição da L&PM – aliás, quando sai outra, hein? – , Ferlinghetti, ao receber o brasileiro em sua livraria, se desesperava com seu entusiasmo juvenil: “Ronaldo Reagan será eleito presidente. Onde está rebelião?”. Pobre Ferlinghetti, que ainda viveu para aturar a apatia de jovens que aplaudem Trump e Bolsonaro.)

No entanto, apesar da saúde dando os primeiros sinais de fragilidade, Ferlinghetti teve ânimo para lançar um romance autobiográfico: “Little Boy” (Editora Doubleday). Seu aniversário ganhou várias celebrações: leituras de sua poesia, exposições de suas pinturas, festas, plantação de oliveiras; e a prefeitura de São Francisco anunciou 24 de março como o Ferlinghetti Day.

Luzes da cidade sobre o mundo

Ferlinghetti ajudou a mudar a face da cultura literária nos Estados Unidos quando co-fundou a City Lights, em 1953, ao lado do poeta Peter Martin. A livraria e editora tornou-se uma instituição cultural, atraindo e influenciando figuras literárias através das gerações, do autor de “On the Road”, Jack Kerouac, ao best-seller escritor e editor de São Francisco, Dave Eggers. “Tudo o que fizemos foi influenciado pela City Lights”, diz Eggers, autor the “O Círculo” (Cia das Letras), publisher da editora McSweeney’s e da melhor revista de literatura do mundo, “The Believer”. “Nós só tentamos ver por cima dos seus ombros.”

Nascido em Yonkers, Nova York, em 1919, Ferlinghetti foi para a Califórnia no início dos anos 1950, em busca do que ele chamava de “última fronteira”. A missão de Ferlinghetti para a City Lights se alinha com sua ideologia socialista: quebrar a poesia de sua gaiola acadêmica abafada e torná-la acessível a todos. Foi um risco enorme. “Éramos jovens e tolos”, disse. “E nós não tínhamos dinheiro.”

Ao contrário de outras livrarias de todo o país, a City Lights ficava aberta sete dias por semana e ia até altas horas da noite. Ferlinghetti queria criar um senso de comunidade – um lugar onde as pessoas pudessem lançar ideias. Além disso, o negócio era originalmente focado em vender livros de bolso, em uma época em que o establishment literário só se importava com livros de capa dura. “Livros de bolso não eram considerados livros de verdade”, lembra Ferlinghetti. “Os únicos livros de bolso à venda eram romances policiais e de ficção científica.”

Mas o nome Ferlinghetti tem tudo a ver com a democratização da literatura. A City Lights resistiu a seu quinhão de altos e baixos ao longo dos anos, como problemas financeiros, e à prisão de Ferlinghetti em 1957 por acusações de obscenidade ao publicar o poema épico “O Uivo”, de Allen Ginsberg. As acusações foram retiradas, estabelecendo um importante precedente para a redução da censura, no mundo editorial.

A atual editora e diretora da City Lights, Elaine Katzenberger, diz que o negócio continua a atrair clientes de todo o mundo, apesar dos desafios enfrentados pela indústria editorial atual. “Não temos best-sellers, e não vamos publicar best-sellers”, diz Katzenberger sobre a clivagem às tendências anticomerciais do fundador. “Permanecer fiel a esses ideais é muito difícil. E, por outro lado, é a coisa mais importante”, diz a editora.

Menino pequeno, homem grande

Para confirmar sua independência – e sua coerência, virtude tão rara a poetas –, Ferlinghetti comemora o centésimo aniversário com a publicação de “Little Boy”, uma autobiografia contada em versos livres, flashes e árias. Raros seres humanos podem compactar em um século uma biografia que tão ardentemente incorporou as visões e contradições, as conquistas e calamidades, a mobilidade social e as animosidades sociais do século 20. Poeta, empresário, crítico social, editor, veterano de guerra, pacifista, menino pobre, menino privilegiado, socialista franco e capitalista de sucesso, com raízes na Costa Leste e na Costa Oeste (assim como na França e na Itália), Ferlinghetti não apenas sobreviveu por um século: ele sintetiza a cultura norte-americana do século 20.

Ferlinghetti foi um protagonista único em um drama nacional: a luta norte-americana para imaginar uma cultura democrática. Como o ideal de mobilidade social afeta noções de alta e baixa, Europa e Novo Mundo, tradição e progresso? Essa luta da imaginação fundamenta uma série de questões norte-americanas – da segregação racial e econômica nas escolas públicas até a realidade das mudanças climáticas causadas pelo homem. Essas questões políticas envolvem nosso cruzamento do intelectual e do vulgar em um processo sobrecarregado cujas complexidades desafiam termos simplificadores como "guerras culturais".

Segundo sopram as primeiras críticas, as páginas iniciais de “Little Boy” falam de seu orfanato em Chappaqua até entrar na escola preparatória em Monte Hermon; como em sua poesia dos anos 1950, ele foi da fome ao luxo sem escalas. Descendente de italianos – seu nome original era Lorenzo, assim como batizou seu filho (e como também batizei meu filho), Ferlinghetti morava com a tia Emilie, no Upper West Side, e em Estrasburgo (o francês foi a primeira língua do garotinho), e mais tarde se mudou para uma mansão em Bronxville, onde Emilie por um tempo trabalhou como governanta. Após sua graduação em Letras na Universidade da Carolina do Norte, Ferlinghetti comandou um submarino nos desembarques da Normandia, depois “foi para o Pacífico como navegador... e viu Nagasaki sete semanas após a segunda bomba ser lançada e viu a paisagem do inferno e se tornou um pacifista instantâneo”.

Editor alternativo que deu voz à contracultura, socialista inconformado, Ferlinghetti é um resistente e, provavelmente, o mais velho dos grandes poetas vivosEditor alternativo que deu voz à contracultura, socialista inconformado, Ferlinghetti é um resistente e, provavelmente, o mais velho dos grandes poetas vivosOs cem anos de Ferlinghetti trazem algumas questões complexas. Sua carreira como um poeta influente e campeão de vendas é uma história da alta cultura ou da cultura pop? Sua City Lights virou mais uma armadilha turística na ultragentrificada San Francisco? Ou a City Lights é um santuário literário, moral e legal que não apenas publicou os primeiros capítulos de “Pescar Truta na América” de Richard Brautigan, os “Lunch Poems” de Frank O’Hara, os “Antipoemas de Nicanor Parra, mas que, em 1957, através do caso judicial em que foi acusado de obscenidade por publicar “O Uivo”, de Allen Ginsberg, estabeleceu princípios da Primeira Emenda que transformaram para sempre a vida norte-americana? O local da North Beach da loja é hoje apontado como um ponto de referência “oficial” de San Francisco. Isso é uma contradição engraçada em termos? Ou um triunfo? A resposta a todas essas perguntas é um enfático sim – a todas as opções acima.

A capa de “Little Boy” leva o subtítulo "Um romance". Não se trata de mera questão de forma literária, mas sim uma afirmação do direito do escritor em inventar, embelezar e criar criativamente memórias corroídas ao longo da maresia das décadas. O livro começa com algumas dezenas de páginas de narrativa envolvente de um tipo convencional: ancestralidade (incluindo uma vertente de imigrantes sefarditas para as Ilhas Virgens e outras linhas que são dinamarquesas e francesas, assim como a tia Emilie) e história de infância. Essa configuração linear gradualmente sublima em longas frases líricas associações livres: os riffs verbais de um bom conversador, como Ferlinghetti sempre foi (veja o documentário definitivo “A Rebirth of Wonder”, de Christopher Felver, de 2009, polvilhado de depoimentos de gente como William S. Burroughs, Dennis Hopper, Gary Snyder e Dave Eggers). Mas os leitores que esperam por reminiscências de figuras como Ginsberg e Jack Kerouac talvez fiquem desapontados. Ferlinghetti aborda escritores e escreve de uma maneira mais abrangente e elevada, como sua visão de Ginsberg “de braços dados” com “os outros grandes escritores e poetas e grandes articuladores da consciência”, uma procissão que inclui Shakespeare, Tolstói e Dylan Thomas.

Acima de tudo, Ferlinghetti é literário à maneira americana da geração beat, com o atraente entusiasmo antiquado de um autodidata – ou, como ele formulou, um selfmadman. Apesar de ainda chamar Shakespeare de “o bardo de Avon”, zomba de Ezra Pound e de T.S. Eliot; o escárnio e a reverência se mesclam na velha dualidade cultural do alto e baixo presente na literatura beatnik, determinante na cultura planetária de nossa época. 

O primeiro livro de poemas amplamente influente de Ferlinghetti, “Um Parque de Diversões da Cabeça”, ecoa essa duplicidade em seu próprio título: a Cabeça, com C maiúsculo, e o emocionante parque de diversões de baixa classe do Brooklyn. O primeiro poema do livro, que não só este pós-punk paulistano como muitas gerações leram como adolescentes encantados, começa evocando um grande artista europeu:

Nas melhores cenas de Goya, parece que vemos

as pessoas do mundo

exatamente no momento em que

pela primeira vez ganharam o título

de ‘humanidade sofredora’”.

Gerações e gerações impactadas pelo livro de Ferlinghetti (vendeu mais de um milhão de exemplares!) podem nunca ter visto uma imagem de Goya, mas intuíram a ressonância desse nome nos versos finais da primeira parte do poema:

E são aquelas mesmas pessoas

só mais longe de casa

nas estradonas de cinquenta pistas

num continente de concreto

demarcados por outdoors insípidos

ilustrando ilusões imbecis de felicidade

A cena mostra

menos carretas para a forca

mas muito mais cidadãos limitados

em carros pintados

que têm placas estranhas

e motores

que devoram a América".

Hoje, aos 48, sei das limitações desse poema, um entusiasmo algo juvenil que parece datado – mas quem ousará dizer que superou um poema se ainda está profundamente agradecido a ele? Quem, meninos e meninas, jovens ainda que velhos, pensamos que somos?

Nicanor Parra, grande poeta chileno que morreu aos 103 anos, foi levado aos EUA por Lawrence Ferlinghetti (teve sua obra finalmente publicada no Brasil ano passado, pela Editora 34: “Só Para Maiores de Cem Anos”). Em um poema visionário dos anos 1950, mesma época em que passeou com Ferlinghetti pela América, o chileno escreveu: “Só para maiores de cem anos/ Me dou ao luxo de estender os braços/ Debaixo de uma chuva de pombas negras”. Estamos, hoje, em 2019, como nos anos 1960 lutando porcamente no Vietnã, ou nos 1980 debaixo de uma porca abertura democrática, ou agora, porcamente debaixo de uma chuva de pombas negras que saem pelas bocas de presidentes fascistas, no norte ao sul da América. O legado de Ferlinghetti, além da resistência férrea, da crítica honesta, do sorriso constante, da capacidade de se indignar e do irredutível senso de solidariedade, tem a ver com a sua lírica:

“Sim, é o melhor lugar de todos

                                   para um monte de coisas como

fazer a cena engraçada

                                               e fazer a cena de amor

e fazer a cena triste

            e cantar canções baixinho e ter inspirações

                        e andar por aí

                                   olhando tudo

                                               e cheirando flores

e arruinando estátuas

                        e até pensando

                                               e beijando pessoas e

                        fazendo bebês e usando calças e

                                               abanando chapéus e

                                   dançando

                                               e indo nadar em rios

                        nos piqueniques

                                   em pleno verão

            e enfim apenas ‘vivendo’.”

            Meu filho Lorenzo tem 16 anos e passa as tardes nadando nos rios da Itália, meu amigo Cadão Volpato, outro carcamano de uma figa, tem 62 e flana pelas ruas de Nova York, meu avô perdido Gino Meneghetti ainda sobe o telhado de uma livraria em São Paulo, Lawrence Ferlinghetti comemora 100 anos e o mundo segue sendo um lugar maravilhoso onde nascer. 

* Ronaldo Bressane é poeta, prosador e jornalista, autor de “Metafísica Prática” (poesia, Ed. Oito e Meio, 2017) e “Escalpo” (romance, Ed. Reformatório, 2017), entre outros livros. Site: ronaldobressane.com.

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