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26/03/2019 | domtotal.com

Morrer e matar

O atentado de Utrecht correu mundo, foi a principal manchete em todos os telejornais do globo.

A tragédia de Moçambique foi causada por um furacão, portanto, uma tragédia da natureza que atingiu tantas pessoas.
A tragédia de Moçambique foi causada por um furacão, portanto, uma tragédia da natureza que atingiu tantas pessoas. (Kenzo Tribouillard/ AFP)

Por Lev Chaim*

Fiquei profundamente impactado com as duas tragédias ocorridas naquela semana. Primeiro, com o atentado de Utrecht, na Holanda, ocorrido há mais de uma semana e meia, em que morreram três pessoas e cinco ficaram feridas, quando um terrorista, nascido na Turquia, começou a atirar a esmo dentro de um bonde da cidade contra os passageiros que ali viajavam. Segundo, com o furacão, que adentrou Moçambique e atingiu mais três países, um dia após o atentado na Holanda, que acabou fazendo mais de trezentas vítimas fatais. Uma fatalidade.

O atentado de Utrecht correu mundo, foi a principal manchete em todos os telejornais do globo e, é claro, na Holanda, com notícias e análises a cada meia hora, com acompanhamento ao vivo da caça ao terrorista que, mais tarde, foi encontrado. Em primeira instância, não se sabia ao certo os seus motivos, mas agora sim: foi mesmo terrorismo, uma violência sem qualquer explicação racional do fato. Aliás, nem se pode, explicar racionalmente , pois assassinar pessoas inocentes por qualquer causa que seja nunca poderá ser explicado.  

A tragédia de Moçambique foi causada por um furacão, portanto, uma tragédia da natureza que atingiu tantas pessoas. Uma tragédia que não recebeu tanta atenção da mídia em geral quanto o atentado na Holanda. É claro que na vida, todos sabem que nascemos, vivemos e um dia morreremos. Mas interromper esse ciclo, sem qualquer motivo, abatendo aquelas pessoas dentro do bonde, aliás, mesmo se o tivesse, não é correto e nunca será aceito pelas pessoas em geral. Aí, talvez, esteja a diferença em percepção feita a priori, sem muito raciocínio, pelos que cobriram as tragédias para os órgãos de imprensa.  A repercussão desse atentando foi tão grande que até mesmo a minha irmã que vive no Brasil me enviou um artigo, em português, falando do atentado em Utrecht.  

A primeira coisa que me veio à cabeça foi o seguinte pensamento: esse homem, que matou pessoas e feriu outras no bonde, tinha duas coisas importantíssimas faltando em sua vida - família e Deus. Ao meu ver, quem tem família e Deus não faz uma coisa dessas! Só se estiver realmente louco! Quando fiz essa reflexão, lembrei-me do grande escritor e ativista para a paz no mundo, Elie Wiesel. Esse grande e pequeno homem, em suas memórias “Todos os rios desaguam no mar”, foi um dos que se aprofundou em perguntas controversas para tentar explicar tragédias que ocorreram em sua vida.  

Wiesel conta que sonhou com o pai, que ele pouco conheceu na verdade. Tanto o pai, como a mãe e a irmã morreram em campos de concentração nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. Wiesel, por aqueles milagres inexplicáveis, conseguiu sobreviver. Muitas vezes em sua vida, ele questionou a Deus sobre o porquê dessas tragédias e a morte de tantos inocentes. Ele queria entender como é que Deus, que criou tudo isto, deixou seus filhos serem dizimados pela raiva do ditador nazista e autor do Holocausto, em que seis milhões de judeus morreram pelo simples fato de serem judeus. A coisa mais próxima de uma explicação foi a seguinte: “morrer, um dia vai ocorrer; mas matar, jamais deveria ocorrer.”

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

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