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01/04/2019 | domtotal.com

As mulheres invisíveis

Algumas mulheres que foram notáveis nas ciências e nas artes, ou no apoio fundamental que deram a homens notáveis, ficaram completamente obscurecidas.

Hedi Lamarr não conseguiu foi ser reconhecida os pelos seus dotes menos evidentes, onde obteve sucessos mais importantes.
Hedi Lamarr não conseguiu foi ser reconhecida os pelos seus dotes menos evidentes, onde obteve sucessos mais importantes. (Divulgação)

Por José Couto Nogueira*

Dia 8 foi o dia internacional da mulher. Nos Estados Unidos comemora-se março como o mês da história da mulher. Muito se tem dito sobre as desigualdades que as mulheres aturam, nos salários, nas promoções e nas tarefas familiares, e muito se sabe sobre o assédio no trabalho e a violência doméstica. Tem havido progresso, sem dúvida, mas não há progresso suficiente, embora as mulheres já sejam maioritárias em certas profissões de prestígio que antes eram predominantemente masculinas, como no judiciário e na saúde. A questão não é os pergaminhos que têm, mas o modo como são tratadas.

Para trás desta situação ficam as injustiças históricas: as mulheres que foram notáveis nas ciências e nas artes, ou no apoio fundamental que deram a homens notáveis, e que ficaram completamente obscurecidas pelo sucesso daqueles que acompanharam, ajudaram, inspiraram, ou mesmo superaram. E ainda as que para aparecer na ribalta tiveram de se passar por homens. Sim, isso aconteceu e, porventura, ainda acontece.

Na impossibilidade duma lista completa – pouco se conhece, muito ficará por saber – fizemos uma lista de algumas mulheres que merecem melhor reconhecimento.

Antes do mais, seria injusto não lembrar das exceções, as mulheres que foram mais famosas do que os seus maridos. Entre a cientista Marie Curie e a artista Vieira da Silva, mais conhecidas do que Pierre Curie e Arpad Szenes, há as que viveram uma igualdade reconhecida, como os cientistas Virgínia Johnson e Will Masters, ou os artistas Sonia e Robert Delaunay. Contudo, estas exceções, devidas a um esforço redobrado ou a parceiros igualitários, são uma percentagem ínfima da norma.

Os casos que fomos buscar não pretendem sequer formar uma lista exaustiva, nem obedeceram a nenhum critério particular. A pesquisa foi suscitada por dois livros: o de Marlene Wagman-Geller, “Atrás de cada grande homem”, publicado em 2015, e o divertido “Tipas mazonas doutros tempos” (“Bygone Badass Broads”), da twitter Mackenzi Lee, lançado em 2018. Sendo ambos americanos, dão mais ênfase a esquecidas de lá, mas o livro de Lee tem histórias de outros tempos e outras latitudes.

É o caso da esposa do Imperador Amarelo, Huandgi, que reinou na China no século 25 A.C., e ao qual são creditadas inúmeras invenções, como o compasso e a roda de oleiro. Uma delas, talvez a mais impressionante, foi a seda. Pois bem, o fio do casulo e a tecelagem se devem à sua mulher, Xi Ling Shi, que tipicamente não ficou na história. E a transferência dessa tecnologia para a Índia, três mil anos depois, também se deve a uma princesa chinesa que casou com um marajá, cujo nome ficou esquecido.

Quanto à primeira faraó feminina do Egito, Hatshepsut, era uma monarca esclarecida e também egocêntrica, que desenvolveu o país e encheu as margens do Nilo com estátuas e monumentos em sua própria homenagem. O filho não foi tão empreendedor, mas teve o cuidado de destruir todos os vestígios da mãe, ao ponto de só em 1822, por acaso, se descobrir que ela tinha existido.

Quem quase não ficou para a posteridade foi Mary Anning, uma inglesa especialista em paleontologia que descobriu dois esqueletos pré-históricos tão importantes que foram enviados o Museu de História Natural de Londres – estamos na Grã Bretanha do princípio do século XIX, um período em que a ciência entusiasmava o público mas as mulheres não tinham lugar na ciência. As duas descobertas foram publicadas por homens. Embora o nome de Mary fosse conhecido pela comunidade científica, nunca conseguiu publicar nada sobre estas e outras pesquisas que fez. Há exemplares encontrados e classificados por ela em museus de todo o mundo. Não há referência de quem os descobriu.

Por falar em ciência e tecnologia, temos a caso da ponte de Brooklyn. Foi concebida por um engenheiro revolucionário, John Roebling. Quando da inauguração, em 1883, era a maior ponte suspensa do mundo e a primeira a usar uma combinação híbrida de suspensão e tração. Chamaram-lhe a oitava maravilha do mundo. Mas John, sendo genial em engenharia, não era tão perspicaz em medicina; quando ficou com uma perna esmagada no estaleiro, decidiu curar a ferida apenas com água. Morreu de tétano, e a direção das obras, que duraram 14 anos, passou para o seu filho, Washington Roebling. O que os livros não dizem é que os cálculos para grande parte da ponte, sobretudo para os caixotões necessários para abrir as fundações no leito do rio, foram feitos por Emily Warren Roebling, a mulher de Washington. Não tendo formação de engenheira, porque nessa altura não havia engenheiras, não podia assinar os planos. Washington também adoeceu e os promotores da ponte decidiram dispensá-lo. Foi Emily que os convenceu de que o marido era capaz de completar o projeto, sabendo muito bem que quem o faria era ela. Só em 1903, quando morreu, é que foram colocadas umas pequenas placas nas torres da ponte com o seu nome.

Foi também em Nova Iorque que nasceu a primeira personagem de banda desenhada realmente famosa. Chamava-se Ally Sloper e era publicada numa revista popular, a “Judy”, dirigida por Charles Ross. As histórias de Ally, iniciadas em 1869, incluíam muitas ideias que se tornaram convencionais no gênero, como personagens secundários permanentes. Foi também a primeira personagem – Ally era um trabalhador narigudo e azarado – a ter merchandizing, desde caixas de rapé a travões de porta (sim, peças para manter uma porta aberta). Pois bem, Ally não foi criado nem era desenhado por Ross. A autora era a sua mulher, Marie Duval, da qual nada se sabe, para além de que nasceu em França e não tinha formação artística.

Continuando no século XIX, temos quatro escritoras hoje icônicas cujos livros foram inicialmente atribuídos a homens: as irmãs Bronte, George Eliot e Mary Shelley.

Caindo no século 19, podemos lembrar-nos da discreta Lilian Disney, que se saiu com o nome do rato Mickey. Toda gente sabe que o Walt criou o ratinho, os mais informados até lhe atribuem um co-autor, Ub Iwerks. Sobre Lilian, nada.

Também são conhecidas as aventuras e a triste vida de Alan Turing, o gênio inglês que descobriu o código da máquina alemã Enigma. Até há um filme sobre ele, embelezado por Benedict Cumberbatch. Mas ninguém se lembra de Elizabeth Smith (apesar da sua biografia estar publicada) a especialista em criptografia que esteve ativa entre 1929 e o final da II Guerra Mundial, período em que descodificou códigos de gangsters, traficantes chineses, militares japoneses e... a enigma alemã.

Quem também colaborou no esforço de guerra no conflito de 1939-45 foi a famosa atriz Hedi Lamarr. Austríaca, nascida Hedwig Kiesler, fugiu para os Estados Unidos em 1938 e conseguiu sucesso num mundo em que é aceito as mulheres fazerem sucesso: Hollywood. O que não conseguiu foi ser reconhecida os pelos seus dotes menos evidentes, onde obteve sucessos mais importantes. Hedwig, que não tinha treino científico, desenvolveu vários desenhos e equipamentos para os aviões de Howard Hugues e depois inventou um sistema de despistar os sinais dos torpedos radio-controlados dos nazis. A descoberta foi patenteada em 1942, mas utilizada apenas em 1962 pela marinha norte-americana, quando finalmente se acreditou que uma invenção de uma atriz famosa podia ter qualidade técnica.

Além das apagadas porque não podiam fazer coisas de homens, temos quase as invisíveis porque tornaram possível os homens fazerem coisas.

Coretta Scot King, por exemplo, era apenas a mulher do grande Martin Luther King. Mas sempre trabalhou ao lado dele, participando nas mesmas ações políticas pró-integração. Depois do assassinato do marido criou e dirigiu o Centro Pela Mudança Não Violenta, em Atlanta, uma organização destinada a prorrogar o trabalho de King. Conseguiu que o dia da sua morte fosse feriado nacional – em 1983, decretado por Ronald Reagan. Até à morte, em 2006, desenvolveu um trabalho tão ativo como o famoso ícon da luta pela igualdade racial nos Estados Unidos. Todas estas atividades enquanto criava os quatro filhos do casal.

Quem também ajudou e inspirou o marido famoso foi Zelda Fitzgerald. Bailarina e pintora com talento, escreveu três romances – “Z”, “Save Me The Life” e “Scandalabra” - certamente menos famosos do que “O grande Gatsby”; mas se sabe que mesmo assim F. Scott Fitzgerald não se sentia confortável com o talento literário da mulher e desconversava sempre que se falava no assunto.

Faltam muitas, dirão. Pois faltam. Mas, se são invisíveis, como podemos descobrir seu brilho?

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova Iorque foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

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