Saúde

01/04/2019 | domtotal.com

Uma doencinha do diabo

Convivo com ela harmoniosamente, pois sou obrigado a tratá-la como inimiga muito próxima.

Quando a descobri, a danada já estava, havia algum tempo, escondida no meu pâncreas, rindo da minha ignorância.
Quando a descobri, a danada já estava, havia algum tempo, escondida no meu pâncreas, rindo da minha ignorância. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Por ser assunto sempre meio desagradável, não gosto de falar ou escrever sobre doenças. Mas hoje, a título de utilidade pública, resolvi tratar de uma com a qual convivo há quase 40 anos. Chama-se diabetes.

Como o próprio nome indica, é uma doencinha do capeta. Insidiosa, traiçoeira, sub-reptícia, covarde, ela fica de tocaia, preparando o uso dos seus métodos maléficos, especializada que é em minar o organismo humano e, se bobear, até levá-lo à morte.

Quando a descobri, a danada já estava, havia algum tempo, escondida no meu pâncreas, rindo da minha ignorância. Só deu as caras depois de um punhado de exames. Foi o último desses exames que revelou a causa do meu emagrecimento sem causa aparente. Emagrecia progressivamente, ao ponto de preocupar a família e amigos. Que é que você tem, Afonso? Sei não, estou fazendo exames pra ver o que é, respondia eu, chateado com aquele meu visual que incomodava a mim e ao próximo.

Pesava setenta e tantos quilos e fui minguando, minguando como uma folha ao sol de outono. Cheguei a baixar perigosamente para 50 quilos. Com as veias entupidas de açúcar, urinava e bebia água sem parar, bebia água e urinava sem parar, sem desconfiar que aquilo era fruto da inoperância do pâncreas, que se recusava a produzir insulina. Esse hormônio, como até os não diabéticos sabem, é responsável pela abertura de orifícios microscópicos nas veias, com a finalidade de fazer com que os carboidratos se distribuam pelo organismo. Sem a ação insulínica, a glicose se aloja no sangue, o que impede o funcionamento normal de órgãos diversos, como os rins. Aí vêm a sede e o destempero urinário e a desidratação e o emagrecimento.

Quando fui apresentado a ela, a diaba já tinha causado estragos, mas eu a domei. Sofri, mas domei. Desde então, há quase quatro décadas, tomo insulina diariamente. Comecei com comprimidos, mas comprimido não é insulina, e não resolve no caso da chamada Diabetes Mellitus, tipo 1. É preciso injetar o hormônio que o pâncreas não produz. Só mesmo com a injeção de insulina se pode evitar que ela cause danos irreparáveis ao seu hóspede, entre eles o entupimento dos vasos, o que resulta em cegueira, impotência ou até amputação de membros.

Convivo com ela harmoniosamente, pois sou obrigado a tratá-la como inimiga muito próxima. Mas é preciso dizer que ela até que me fez bem em certa medida, porque me obrigou a cortar o açúcar, o que afinal não me causou sacrifícios maiores. Açúcar demais faz mal à saúde, como se sabe, e eu nunca fui muito chegado a doces. Até a Coca Cola que eu tomava imprudentemente após as refeições não me fez falta quando tive de cortar esse hábito ou vício nefasto.

Mas de uma coisa a diabetes não conseguiu me privar: não deixei de tomar meu uisquezinho ou minha cachacinha. Se ela insistir nessa exigência, não tenha dúvida, meu caro amigo e minha amantíssima amiga: irei mandá-la pro diabo que a carregue, ela que tem parentesco com o coisa ruim.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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