Cultura

15/04/2019 | domtotal.com

Ariane Mnouchkine apresenta peça tragicômica de temática feminina no Brasil

Em uma cozinha dos anos 1960, mulheres de 22 a 87 anos estão reunidas para colar um milhão de selos para concorrer a prêmios.

Ariane concede entrevista à AFP em teatro do Rio de Janeiro.
Ariane concede entrevista à AFP em teatro do Rio de Janeiro. (AFP)

A fundadora do célebre Théatre du Soleil, Ariane Mnouchkine, apresenta no Rio de Janeiro a peça "Les Belles Soeurs" ("As comadres", em sua versão em português), uma tragicomédia musical com 20 atrizes e nenhum homem.

Deixando pela primeira vez o teatro que fundou e onde, há mais de cinco décadas, revoluciona a arte cênica, esta incursão ao Brasil também é a ocasião para ela expressar sua preocupação com a situação "extremamente alarmante" dos artistas sob o governo de Jair Bolsonaro.

Após duas apresentações no festival de Curitiba, a estreia de "As comadres" no teatro SESC Ginástico do Rio de Janeiro aconteceu na quinta-feira.

Em uma cozinha dos anos 1960, mulheres de 22 a 87 anos estão reunidas para colar um milhão de selos para concorrer a prêmios. Um "gineceu" onde riem, dançam, cantam, lamentam, sentem ciúmes e discutem.

"São mulheres que expressam na música suas frustrações, seus infortúnios, mas no fundo as vemos por todo o palco sofrer e sem escapar de uma certa servidão voluntária", disse Ariane Mnouchkine em entrevista à AFP.

Aquela que consegue se emancipar é rejeitada.

O dramaturgo canadense Michel Tremblay, que escreveu em 1965 a peça de onde foi tirado o espetáculo musical produzido por seu conterrâneo René Richard Cyr, "é muito duro sobre a pequenez, intolerância, mesquinhez, egoísmo" das mulheres retratadas.

"Mas a peça, apenas pelo fato de dar visibilidade a 15 atrizes, é revolucionária. Geralmente vemos 15 homens e duas mulheres", explicou Ariane Mnouchkine.

Em sua peça há 20 mulheres no total, 15 no palco e 5 nas laterais como num coro antigo. "Isso é o que é forte, ver a força coletiva de toda uma gama de mulheres de todas as idades".

"Desprezo pelos artistas"

Alguns veem "um chamado à resistência" na peça que estará em cartaz até 19 de maio no Rio de Janeiro. "Eu não me permito dar um manual. Mas se as pessoas a percebem assim, melhor ainda", disse Ariane Mnouchkine.

"Eu penso sobre o impacto que este espetáculo pode ter no Brasil de hoje. Mas cabe às pessoas que o assistem dizer. O nosso papel é realizar o espetáculo".

"Nós retomamos a montagem de René Richard Cyr. É realmente sua encenação. Eu vi esse espetáculo em Paris e achei extraordinário, extremamente comovente e engraçado".

"Depois, se fizer refletir ou que toque ou levante questões, que seja assim. Mas não cabe a mim dizer o que as pessoas devem pensar".

Menos reservada quando questionada sobre a situação dos artistas no Brasil desde a eleição de um presidente de extrema direita, Ariane Mnouchkine não esconde sua preocupação.

"Não vou comparar o destino dos artistas com o dos índios do Brasil" (que acabam de publicar uma carta evocando os "primórdios de um apocalipse" por ocasião dos 100 dias do mandato de Bolsonaro), mas "os artistas estão em uma situação extremamente alarmante e que deve alarmar os artistas do mundo inteiro".

"Já não havia muitos recursos, mas agora aparentemente (...) há um desprezo pelos artistas", acrescentou ela.

"Existem mentiras (sobre) como os artistas vivem", sobre seu financiamento. "É grave".

Os círculos artísticos no Brasil se queixam da diminuição dos subsídios de um governo que suprimiu o Ministério da Cultura e lançou uma cruzada contra o "marxismo" na cultura.

"Conheço uma pequena parte do meio artístico brasileiro, e vejo sua angústia, sua tristeza. É raro no Brasil que as pessoas demonstrem tristeza. Há uma dignidade da alegria aqui", ressaltou Ariane Mnouchkine.

Com a peça "As comadres" é a primeira vez, e aos 80 anos, que ela monta um espetáculo "de A a Z com artistas que não são do Théâtre du Soleil", a companhia que ela fundou em 1964 nos arredores de Paris.

Mas é também "a primeira vez que o Théâtre du Soleil faz um espetáculo com um outro diretor teatral, (o canadense) Robert Lepage", apontou a artista. "Isso me deu um pouco de tempo, e o pude fazer sem trair o Théâtre du Soleil".

"Espero que a peça percorra todo o Brasil, a América Latina, Portugal. E talvez a França", concluiu.

Está previsto que a peça chegue a São Paulo no final de maio e talvez passe por Porto Alegre.


AFP

EMGE

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