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15/04/2019 | domtotal.com

Esboço de um romance transamazônico

Do que mais recorda do dia que acordou foram seus passos titubeantes pelos corredores em busca de explicações para o ocorrido.

Ricardo Soares
Ricardo Soares

Por Ricardo Soares*

As cidades eram Tocantinópolis, Araguaína, Paragominas. E Coimbra um certo repórter que  ainda num certo torpor do pós –acidente que havia sofrido  não lembrava para qual  cidade afinal  havia voltado quando o telefone tocou e Abramides corria pela sala a finalizar os preparativos para receber amigos que iam visitar o “sobrevivente”.

Dez dias antes ele havia sofrido o acidente grave na Transamazônica. O único repórter do sistema solar que havia conseguido quase se matar em uma estrada  deserta e por um motivo ridículo. Acelerado demais para as condições daquilo que nem podia se chamar “estrada” ele não notou a tempo um declive liso e acidentado ,derrapou e mergulhou seis metros abaixo com o Passat marrom tração dianteira capotando várias vezes. Sim, o  acidente foi no tempo dos Passats na já longínqua década de 80.

Ele só lembra do começo do capotamento. Tudo mais são trevas e silêncio. Acordou três dias depois com sangramento no ouvido e a cara toda ralada (isso lhe valeu por algum tempo o apelido de Niki Lauda) em um hospital simples e limpo que até agora não lembra justamente se era Tocantinópolis, Araguaína ou Paragominas.  

Do que mais recorda do dia que acordou foram seus passos titubeantes pelos corredores em busca de explicações para o ocorrido . As pessoas o olhavam com assombro e ele com assombro despertou  com o olhar firme de um menino pequeno, feio e sem camisa,  com um umbigo saltadíssimo que o olhava no leito. Saiu correndo quando ele abriu os olhos para ver, também com assombro, que na entrada da enfermaria havia um enorme poster com a dura estampa do general Médici de quem o médico chefe era um entusiasta.

Aos poucos foi encaixando fatos com datas e percebeu, lentamente, que estava vivo e que havia capotado. Quem o levou até o hospital foi uma tal “dona Sara” que o socorreu com dois caminhoneiros e o levou até onde estava. Não se recorda se chegou a vê-la no hospital e a agradeceu ou se a imagem de uma mulher espartana e séria que ele guarda daqueles dias era da tal dona Sara ou de alguma outra senhora circunspecta.

O que Coimbra agora sabe ouvindo o telefone tocar e Abramides correr é que é muito grato a dona Sara e aos seus cuidados e também a Vic Parisi, fotógrafo leal e companheiro, que foi aos lugares onde Coimbra deveria ter ido e tomou anotações para que ele pudesse enfim escrever suas reportagens. Além de tirar, óbvio, lindas fotos. Será eternamente grato pelo lindo gesto.

Três das  costelas de Coimbra doem demais. E continuariam a doer até o dia em que morreu em outro acidente muito tempo depois na estrada que liga Firenze a Roma.  Havia ganhado o costume de coçar as costelas quebradas e ainda imobilizadas por um colete. Elas ainda doeram muito quando se levantou para atender ao telefone enquanto Abramides estava na faina . Do outro lado da linha uma voz soturna, grave, direta e reta, sem dar espaços para interrupções :

— Escuta porque só vou falar uma vez... a Carmem nunca mais te procurou porque ficou grávida de um filho seu e não queria te incomodar.  Ela está vivendo com o menino lá no Rio de Janeiro, Rio Comprido...

Antes que ele pudesse perguntar quem era, antes que pudesse voltar a retomar o fôlego o sujeito desligou para nunca mais ligar. E agora, diante das dores de suas costelas, do seu ainda entorpecimento, do corre –corre de Abramides   e dos amigos que estavam chegando Henrique Coimbra, o cético repórter, tinha que assimilar a informação de que era pai de um menino. Que vivia no Rio de Janeiro.

*Ricardo Soares é escritor e jornalista. Publicou 8 livros.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!


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