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16/04/2019 | domtotal.com

Maior abandonado

Abandono é um barco que parte e deixa você esperando no cais

'Se me esqueceres, só um pedido, esquece-me bem devagarinho'.
'Se me esqueceres, só um pedido, esquece-me bem devagarinho'. (Reuters)

Por Marco Lacerda*

Eu queria ser achado na rua por alguém que me pegasse pela mão e me levasse pra casa, qualquer lugar, qualquer casebre na periferia, desses em que à noite a lua fura o zinco e enche de estrelas o chão. Não faço questão sequer de migalhas de pão dormido, preciso apenas da proteção e do amparo da mão.

Não há nada que eu quisesse nessa vida e não tivesse alcançado, mas nunca tive as mãos e o coração tão vazios. Troco passos sem sentido pelas ruas sem saber aonde ir, caminhando entre multidões de zumbis conectados a celulares que não possuem, são possuídos por eles.

Não me sinto nem um pouco diferente dos mendigos – profissionais ou não – que vagam pelas ruas pedindo ajuda e muitas vezes ganham insultos como esmola. Assaltado numa esquina sob o olhar indiferente dos transeuntes, o que dói mais não são as perdas nem as porradas levadas, mas o olhar nublado por ódio e desprezo dos meus algozes. Busco nas plataformas dos políticos alguma que defenda essa categoria à qual pertenço. Acabo sempre não votando em ninguém.

Atropelado na faixa de pedestres por uma BMW pilotada por um casal trocando carícias ao volante, sem sequer notar que jogaram alguém no chão de asfalto, penso numa praia deserta onde só se chega a pé. Não existe mais vida real, estamos perdidos nos cafundós de um universo virtual sem nenhum parentesco com a palavra virtude.

As coisas ficaram piores quando fiquei órfão há alguns meses.
Depois de décadas afastado do meu país por deveres de ofício, voltei pra casa, para estar mais próximo da minha mãe em sua solidão – interior, como a minha. Brigávamos, discutíamos, até nos arranhávamos. Mas nada durava mais que meia hora. Nos tornamos amigos, cúmplices, parceiros, confidentes, até o seu último suspiro – por um estranho desígnio do destino, ela e eu sozinhos num apartamento de hospital. Sinto saudade, penso nela todos os dias. Afinal, se eu não pensar nela, quem vai pensar?

De tanto ter sido esquecido, aprendi a dizer adeus antes de ser abandonado outra vez. O que mata a gente não é o abandono, mas esse olhar de quem passa por nós e não nos vê. Disfarço meu abandono com frases de efeito quando o que eu gostaria é apenas dizer: Me dá um abraço! Que tolice! Quanta vida, quanto amor desperdiçado por ... por que mesmo, meu Jesus Cristinho?

Vou seguindo meu caminho noite adentro com versos de João Cabral de Melo Neto ecoando dentro do peito:

Seu José, Mestre Carpina,

e se em vez de seguir,

tomasse a melhor saída,

a de saltar numa noite,

fora da ponte e da vida?


*Este texto usa alguns versos do cancioneiro popular brasileiro, a começar pelo título, surrupiado daquela que considero a mais bela canção composta por Cazuza.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total.

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