Religião

19/02/2013 | domtotal.com

A profecia esquecida de Ratzinger sobre o futuro da Igreja


Uma semana após o clamoroso anúncio de Bento XVI reaparece uma sua significativa declaração. Por Marco Bardazzi – Vatican Insider / 17 de fevereiro de 2013.

ROMA –  Uma Igreja redimensionada, com menos seguidores, obrigada a abandonar também boa parte dos lugares de culto construídos nos séculos. Uma Igreja católica de minoria, pouco influente nas escolhas políticas, socialmente irrelevante, humilhada e obrigada a “recomeçar das origens”.

Mas também uma Igreja que, através desta “enorme reviravolta”, reencontrará a si mesmo e renascerá “simplificada e mais espiritual”. É a profecia sobre o futuro do cristianismo feita 40 anos atrás por um jovem teólogo bávaro, Joseph Ratzinger. Redescobri-la hoje ajuda a oferecer uma ulterior chave de leitura para decifrar a renúncia de Bento XVI, porque traz de volta o gesto surpreendente de Ratzinger no contexto de sua leitura da história.

A profecia encerrou uma série de programas no rádio que o então professor de teologia realizou em 1969, num momento decisivo de sua vida e da vida da Igreja. Eram os anos violentos da contestação estudantil, da chega do homem à Lua, mas também das batalhas sobre o Concílio Vaticano que acabava de se concluir. Ratzinger, um dos protagonistas do Concílio, tinha deixado a turbulenta Universidade de Tubingën e refugiara-se na mais tranquila Regesburg.

Como teólogo estava isolado porque não concordava com os amigos “progressistas” Küng, Schillebeeckx e Rahner sobre a interpretação do Concílio. É neste período que se consolidam para ele novas amizades com os teólogos Hans Urs von Balthasar e Henri de Lubac, com os quais iniciará a revista  “Communio”, que torna-se quase de imediato o trampolim para alguns jovens sacerdotes “ratzingeriani” hoje cardeais, todos apontados como possíveis sucessores de Bento XVI: Ângelo Scola, Christoph Schönborn e Marc Ouellet.

Em cinco discursos radiofônicos pouco conhecidos – republicados algum tempo atrás pela Ignatius Press no volume “Faith and the Future” – o futuro Papa naquele complexo 1969 apresentava a própria visão sobre o futuro do homem e da Igreja. É sobretudo a última transmissão, que foi ao ar no dia de Natal pela “Hessian Rundfunk”, que se apresenta como uma profecia.

Ratzinger afirmava estar convencido que a Igreja estivesse vivendo uma época quase semelhante à que se seguiu ao Iluminismo e à Revolução francesa. “Estamos num enorme momento de mudança – explicava – na evolução do gênero humano. Um momento, em relação ao qual, a passagem da Idade Média aos tempos modernos parece quase insignificante”. O professor Ratzinger comparava a era atual com aquela do papa Pio VI, sequestrado pelas tropas da República francesa  e falecido como prisioneiro em 1799. A Igreja encontrava-se na época sufocada pela força que queria aniquilá-la para sempre, tinha visto seus bens confiscados e as ordens religiosas extinguidas.

Uma situação não muito diferente, explicava, poderia acontecer para a Igreja atual, ameaçada na concepção de Ratzinger pela tentação de reduzir os padres em “assistentes sociais” e sua obra em mera presença política. “Da crise atual – afirmava – surgirá uma Igreja que terá perdido muito. Ficará pequena e terá que recomeçar mais ou menos das origens. Não será mais capaz de morar nos prédios que construiu nos tempos da prosperidade. Com a diminuição de seus fiéis, perderá também grande parte dos privilégios sociais”. Recomeçará pelos pequenos grupos, pelos movimentos e por uma minoria que recolocará a fé no centro da experiência pessoal. “Será uma Igreja mais espiritual, que não pleiteará um mandato político, namorando ora a Esquerda e ora a Direita. Será pobre e se tornará a Igreja dos indigentes”.

O que Ratzinger descrevia era “um processo longo, mas quando toda essa série de dificuldades passar, florescerá um grande poder de uma Igreja mais espiritual e simplificada”. Naquele momento os homens descobrirão estar morando num mundo de “indescritível solidão” e tendo se esquecido de Deus “perceberão o horror de sua pobreza”.

Então, e só então, concluía Ratzinger, se darão conta “daquele pequeno rebanho de crentes como algo de totalmente novo: o descobrirão como uma esperança para si, a resposta que sempre tinham procurado em segredo”.

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