Brasil

04/06/2014 | domtotal.com

Racismo à moda da casa

Os campos de internamento de japoneses no Brasil eram visitados como se fossem zoológicos.

Nos campos de concentração, estudantes brasileiros ofereciam capim aos japoneses detidos.
Nos campos de concentração, estudantes brasileiros ofereciam capim aos japoneses detidos.

Por Alexandre Kawakami*

Vocês sabiam que já houve campo de concentração no Brasil? Surpresa, não? E não foi um só, não. Foram 31. Recebiam alemães, italianos e japoneses, copiando o modelo norte-americano. Nos Estados Unidos, retiraram todas as famílias de japoneses da costa oeste e os prenderam no que foi chamado de "campos de internamento". A justificativa era a de que japoneses, ainda que nascidos nos Estados Unidos, cidadãos norte-americanos, se aliariam a eventuais invasores japoneses quando estes atacassem a costa oeste norte-americana. Vocês sabem, porque japonês é tudo igual.

Então assim foi feito também no Brasil. Mas existia uma diferença entre os campos onde se internaram os japoneses e os de outras nacionalidades. O pesquisador Claudio Seto entrevistou uma senhora que foi presa na Granja do Canguiri, entrevista transcrita no livro Ayumi – Caminhos da Imigração, escrito em conjunto com Maria Helena Uyeda. Copio alguns pontos do seu relato:

"Os adultos foram obrigados a trabalhar na produção agrícola e as crianças foram separadas de seus pais e levadas para a Escola Agrícola Militar de Castro. (...) Essa medida, tomada pelo interventor Manoel Ribas, seria um pretexto para dar educação às crianças, mas os japoneses interpretaram como uma iniciativa para que eles evitassem a fuga do local.

Pior do que ficar isolados, os japoneses da granja tiveram de lidar com o preconceito: eles recebiam a visita de estudantes que faziam gozações e chegavam a oferecer capim aos moradores, além de imitar animais (faziam mugidos e relinchos). Maria Helena lembra que havia, nesta época, uma indústria norte-americana que precisava arrecadar sucata de borracha e metal para reciclagem. Em Curitiba, então, foram organizadas campanhas para recolher esse material e os estudantes que participassem teriam como 'prêmio' um passeio à Granja Canguiri. 'Todas as semanas os alunos iam ver a vitrine de demonstração de poder das autoridades', conta Maria Helena." Como uma viagem ao zoológico, entendem?

Segue aqui o link de ótimo resumo do livro, com vários detalhes adicionais sobre as condições precárias de vida, o preconceito nas cidades, a destruição de lojas, enfim... Essas coisas que tem de se fazer com japa, né? Porque é tudo igual. Vejam aí: 

Confira a matéria

Mas não bastou copiar o modelo norte-americano. 3.000 cidadãos de origem japonesa de vários países foram deportados da América Latina para os Estados Unidos, para “internação”. Sabe como é, porque japonês é tudo igual, em qualquer lugar do mundo.

Só que em 1983, foi publicado nos Estados Unidos pela Comissão de Relocação e Internação de Civis em Tempo de Guerra do Congresso Norte Americano um relatório chamado Justiça Pessoal Negada. O relatório deixa claro que número insignificante dos cidadãos norte-americanos internados cooperou com o inimigo. Alguns sequer haviam visitado o Japão desde que nasceram. Pelo contrário: os batalhões de nikkeis foram dos mais condecorados durante a guerra, sendo famoso um que lutou ao lado dos nossos pracinhas em Monte Casino, o 442º Regimento de Infantaria. TODOS os seus soldados eram nikkeis. TODAS as suas famílias estavam em campos de concentração norte-americanos durante a guerra.

Importante notar que nenhum italiano ou alemão foi internado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Assim, o relatório conclui que a internações tiveram razões racistas e ordenaram o pagamento de reparações aos sobreviventes.

Mas isso foi só durante a guerra, não é mesmo? Em tempos de paz isso não acontece.
Bom, em 1930, um grupo de eugenistas introduziu emenda constitucional com vistas à restringir os número de imigrantes japoneses autorizados a entrarem no país. Este regime de restrição de imigrações durou até – pasmem- 1980. Sua razão? “Para não sujar a raça brasileira.” Um relato fascinante deste período de nossa história se encontra no livro “O Imigrante Ideal.”

Meu bisavô e meu avô foram presos durante a Segunda Guerra Mundial. Achavam que meu bisavô era figura iminente na colônia de Getulina, em São Paulo. E sendo figura iminente, só podia ser espião. Porque japonês é tudo igual. 

Milhares de imigrantes japoneses foram presos ou expulsos do Brasil por suspeitas de espionagem. A delação anônima de atividades "contra a segurança nacional" tinha pouca relação com atividades de espionagem, e mais com desavenças entre vizinhos, cobrança de dívidas e até brigas de crianças. Nipo-brasileiros foram presos por atividades suspeitas quando se reuniam em piqueniques e encontros artísticos.

Porque japonês é tudo igual.

Existe uma razão para a criminalização do preconceito. Eu discordo veementemente da criminalização, mas suporto fervorosamente a razão em que se apóia. O preconceito é abjeto, é nojento, porque ele assassina a individualidade da pessoa, antes de qualquer discussão. Ele dispensa o que é o indivíduo, sua história, seu esforço, suas crenças, seus sonhos, suas particularidades. Ele elimina qualquer chance desse indivíduo expor o que ele tem só de seu. E o faz com uma só noção:

[Japonês, ou qualquer outro] é tudo igual.

Que a prisão destes imigrantes nunca mais deixe nossa memória.

*Alexandre Kawakami é Mestre em Direito Econômico Internacional pela Universidade Nacional de Chiba, Japão. Agraciado com o Prêmio Friedrich Hayek de Ensaios da Mont Pelerin Society, em Tóquio, por pesquisa no tema Escolhas Públicas e Livre Comércio. É advogado e consultor em Finanças Corporativas.

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