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12/03/2018 | domtotal.com

O venezuelano que fugiu da fome

Wilmer é um dos 40 mil venezuelanos que fugiram do seu país e vive um 'milagre' no Brasil.

Como Wilmer, venezuelanos tentam driblar a fome, a insegurança e a escassez generalizada.
Como Wilmer, venezuelanos tentam driblar a fome, a insegurança e a escassez generalizada.

Por Heloísa Mendonça*

No início de 2017, o venezuelano Wilmer Cordero, de 23 anos, começou a ter que escolher qual das três refeições teria que pular: o café da manhã, o almoço ou o jantar. O salário que ganhava como funcionário de um agência de publicidade em Caracas, capital da Venezuela, começou a encurtar diante de uma inflação galopante no país, que fechou o ano em mais de 2.600%. O dinheiro só alcançava para pagar um quarto alugado e a passagem de ônibus para ir ao trabalho. O pouco que sobrava dava para comer no máximo duas vezes ao dia. O jovem ainda tinha que conviver com a frustração de já não conseguir ajudar financeiramente os pais e os três irmãos menores que moram no interior do país, em Barquesimeto, também em condições complicadas.

Wilmer tentou driblar a fome, a insegurança, a escassez generalizada, mas como a crise político-econômica no país não dava trégua, se viu obrigado a tentar a sorte em terras estrangeiras como milhões de outros compatriotas. "Dá um medo grande ir em direção ao desconhecido, sem saber se você vai conseguir um emprego, se vai sofrer algum tipo de xenofobia, se vai dar certo. Mas o maior medo era continuar na Venezuela, no governo de [Nicolás] Maduro assistindo a situação piorar diariamente e não poder fazer nada", conta o venezuelano.

Há muitos anos, a insegurança virou lugar comum no país, explica. "Já estávamos acostumados a tomar cuidado com os roubos, a evitar sair em certos horários e lugares. Mas como que alguém se acostuma a viver de estômago vazio? A verdade é que essa situação te obriga a sair da Venezuela. Por isso milhares de pessoas no país optam por uma migração pouco planejada", diz.

A vizinha Colômbia é o destino mais escolhido pelos venezuelanos que cruzaram a fronteira fugindo da crise e da fome nos últimos anos. A cada dia, segundo o Departamento de Migração da Colômbia, são mais de 37.000 pessoas atravessando a fronteira para buscar alimentos e remédios. Mas muitos vão para ficar. No fim do ano passado, a Colômbia tinha cerca de 550.000 venezuelanos em situação legal ou ilegal no país, 62% a mais que a cifra registrada no meio de 2017.

Wilmer preferiu, no entanto, optar por cruzar outra fronteira, um pouco menos requisitada: a do Brasil. "Já somos tantos na Colômbia...Pensei que, se tentasse entrar por Roraima, minhas chances de conseguir um emprego seriam melhores. Tinha a questão do idioma, mas aprender outra língua também seria interessante para o meu futuro", conta. Para empreender a viagem, conseguiu, primeiro, um contato de outro venezuelano que morava em Boa Vista e o ajudaria com a acomodação nos primeiros dias. Em troca, Wilmer, que se formou em Comunicação Social na Universidade Central da Venezuela, se comprometeu a cuidar de um site de uma associação que ajudava os venezuelanos recém-chegados ao Brasil.

"Dá um medo grande ir em direção ao desconhecido, sem saber se você vai conseguir um emprego, se vai sofrer algum tipo de xenofobia. Mas o maior medo era continuar na Venezuela"

Sair da Venezuela não foi, entretanto, tão simples como pensava. Antes de seguir rumo ao Brasil de ônibus - o meio de transporte mais barato-, o venezuelano teve que partir em uma peregrinação em busca de dinheiro em espécie. A falta de notas é tanta que muitos bancos só admitem retiradas diárias que não ultrapassem 20.000 bolívares (pouco mais de um real). "Na época que eu estava lá, com esse dinheiro você conseguia comprar, no máximo 2 quilos de arroz", explica. Com contas em três bancos, Wilmer teve que passar pelos bancos todos os dias por um bom tempo até conseguir o dinheiro necessário para a viagem ao Brasil. "Para sair de lá, eu precisava pagar com dinheiro, pois os terminais e os ônibus geralmente não aceitam cartão. Foi muito difícil e humilhante já que aquele dinheiro era meu, e consegui com muito esforço tendo que deixar de comer várias vezes", explica.

A viagem a Boa Vista, capital de Roraima, durou exatos dois dias. O ônibus que partiu de Caracas deixou o venezuelano na cidade de Santa Elena de Uairén, no sudeste da Venezuela, já quase no limite dos dois países. De lá, Wilmer pegou um táxi e cruzou a fronteira até a cidade brasileira de Pacaraima. Já em solo brasileiro, trocou milhares de bolívares por 25 reais e pegou um ônibus até a rodoviária da capital de Roraima, onde estava, para o seu alívio, o conhecido venezuelano que o hospedaria.

Já na chegada, o jovem se surpreendeu com a quantidade de venezuelanos vivendo nas ruas da cidade e pedindo empregos com cartazes em vários semáforos. "Conseguir um emprego formal ali é muito difícil, mas, ao mesmo tempo, sair da cidade para outros centros urbanos brasileiros em busca de dinheiro é muito caro, impossível para a maioria. As pessoas acabam tendo que ficar ali aceitando bicos ou morando na rua. É muito triste", conta.

A prefeitura de Boa Vista estima que cerca de 40.000 venezuelanos já tenham entrado na cidade, o que representa mais de 10% dos cerca de 330.000 habitantes da capital. De acordo com Polícia Federal, em 2017 foram registrados 22.247 pedidos de refúgio por venezuelanos. Além do refúgio, os estrangeiros agora também pedem a chamada residência temporária que foi permitida no ano passado e passou a ser gratuita a partir de agosto. Wilmer optou por essa modalidade e em poucos dias na cidade já conseguiu o CPF e a carteira de trabalho.

Apesar de ter garantido a acomodação na cidade, o venezuelano teve que sobreviver com 160 reais que pediu emprestado de uma amiga na Venezuela durante oito semanas. "Não foi fácil, para tudo ia caminhando, às vezes fazia trajetos de duas horas, e a comida dividia entre outros compatriotas. Apesar da emoção que tive ao ver um supermercado lotado de comidas, o oposto da Venezuela, não podia comprar muito", explica.

O mês de novembro foi o divisor de águas da vida do venezuelano. Após dois meses vivendo em Boa Vista, uma notícia animadora chegou através de uma brasileira que conheceu na cidade. Uma multinacional do setor alimentício estava procurando candidatos com título universitário que falassem espanhol nativo. O emprego, para uma área administrativa, seria em Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, a mais de 4.000 km dali.

Primeiro Wilmer pensou que não tinha chances. O trabalho era diferente de tudo que já tinha feito e dezenas de outros venezuelanos também tinham aplicado para a vaga. Mas mesmo assim, outra vez, optou por arriscar. "Fui e, poucos dias depois, me disseram que eu tinha conseguido. Acredito que foi um milagre. Foi tudo muito rápido, quando vi já estava no avião bancado pela empresa indo para São Paulo", conta.

Há três meses, o sentimento do venezuelano é de alívio. Começou a ganhar um bom salário, tem carteira assinada, uma geladeira cheia de alimentos e um teto confortável que divide com um colega de trabalho. Tem feito o possível para ajudar os familiares e amigos que seguem enfrentando a luta diária na Venezuela. Voltou a mandar dinheiro para os pais, a fim de ajudar nos estudos dos três irmãos menores. Já fez transferências também para ajudar alguns amigos, que assim como ele, planejam cruzar a fronteira venezuelana em busca de outra vida. O objetivo de Wilmer agora é se estabilizar no Brasil e pensar como pode trazer parte da família para o país.

Wilmer tem saudades da Venezuela, mas não da que acaba de deixar pra trás. No futuro, gostaria de regressar. "Mas acho que a situação no país vai demorar muito em se resolver. Além do dano econômico, houve um dano social e cultural muito grande que tardará em sanar. Ninguém quer fugir ou sair de seu país nessas condições. Meu sonho, desde pequeno era conhecer o mundo, mas saindo pelo aeroporto internacional, com passagem de ida e volta", diz. O venezuelano confessa que prefere não reclamar. Apesar de tudo, sabe que a sua história é de vitória e superação, distinta da maioria dos outros venezuelanos que ainda buscam uma vida melhor longe da sua terra natal. "Sou uma pessoa de sorte".

*Heloísa Mendonça escreve para El País.

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