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05/11/2018 | domtotal.com

Ressentimento, porta para a vingança

Ódio e desejo de vingança são palavras-chave para compreender o ressentimento.

"É a diferença que causa o ódio, ou melhor, é a recusa da diferença que o engendra".

Por Scarlett Marton*

Compreender o valor dos valores é tarefa sempre difícil de realizar, porque requer colocar sobre si um ponto de interrogação a respeito das próprias crenças, o que sempre foi um exercício de profunda dificuldade. De certa maneira Nietzsche propõe-se a isso em Genealogia da Moral para tentar entender como sentimentos morais dos indivíduos se constroem e se conservam sob determinadas circunstâncias. Para Scarlett Marton, renomada pesquisadora em Nietzsche no Brasil, o pensador alemão foi um psicólogo avant la lettre. “É o que ocorre na Genealogia da Moral. Ao psicólogo caberá, então, questionar o valor dos valores morais, examinando as ‘condições e circunstâncias de seu nascimento, de seu desenvolvimento, de sua modificação’. A ele caberá relacionar os valores com as avaliações de que procedem e investigar de que valor estas partiram para criá-los. Ora, é justamente à crítica dos valores que Nietzsche dedica a maior parte de seus escritos”, descreve Scarlett Marton nesta entrevista.

Neste ano ocorre o 130º aniversário da obra  Genealogia da Moral, no original Zur Genealogie der Moral. Eine Streitschrift, de Friedrich Nietzsche.

Outro tema de profunda relevância em sua obra é a transformação que os valores morais sofrem a partir da interferência de um certo ressentimento baseado no ódio e na vingança. “Assim a transformação dos valores foi fruto do ressentimento de homens fracos, que, não podendo lutar contra os mais fortes, deles tentaram vingar-se através desse artifício. Ódio e desejo de vingança seriam as palavras-chave para compreender o ressentimento. É a diferença que causa o ódio, ou melhor, é a recusa da diferença que o engendra”, explica. “E assim se transfere o princípio democrático de uma igualdade das capacidades, das responsabilidades, das oportunidades sociais, enfim, de uma igualdade da felicidade no sentido pleno do termo, para uma igualdade diante dos objetos que se adquire. Em poucas palavras, a igualdade formal de direitos converte-se em igualização consumidora”, complementa.

Eis a entrevista.

Em que sentido genealogia, psicologia e história se imbricam no contexto de Genealogia da Moral?

Num dos primeiros textos em que trata da psicologia, Nietzsche chega a defini-la como ciência que investiga a origem e a história dos sentimentos morais. À primeira vista, essa definição que ele apresenta em Humano, demasiado Humano parece muito próxima da que se encontra em Christian Wolff. Para Wolff, contudo, a psicologia deveria deduzir-se dos princípios gerais colocados pela metafísica; os fenômenos morais não poderiam, portanto, comportar uma “origem” e muito menos uma “história”. Para Nietzsche, ao contrário, impõe-se justamente inscrevê-los num tempo e num espaço. Com isso, ele opera um corte em relação à metafísica: não se fundando na noção de alma humana, os sentimentos morais deixam de remeter a essências; eles surgem, modificam-se e, por vezes, desaparecem. Tendo uma origem e uma história, acham-se também relacionados com a organização social dos indivíduos, de tal forma que em diferentes sociedades existiriam diferentes morais.

O que essa obra tem a nos dizer e nos desafiar 130 anos após sua publicação?

Dentre as descobertas filosóficas dos últimos cento e trinta anos, há que se notar a do fenômeno do ressentimento. Foi Nietzsche quem diagnosticou com lucidez, por vez primeira, a maneira de pensar, agir e sentir dos ressentidos. Na Genealogia da Moral, ele bem mostra que, sobrepujando a aristocracia guerreira da Grécia dos tempos homéricos, os sacerdotes converteram a preeminência política em preeminência espiritual. Enquanto valor aristocrático, “bom” identificava-se a nobre, belo, feliz; tornando-se valor religioso, passa a equivaler a pobre, miserável, impotente, sofredor, piedoso, necessitado, enfermo. Assim a transformação dos valores foi fruto do ressentimento de homens fracos, que, não podendo lutar contra os mais fortes, deles tentaram vingar-se através desse artifício. Ódio e desejo de vingança seriam as palavras-chave para compreender o ressentimento. É a diferença que causa o ódio, ou melhor, é a recusa da diferença que o engendra.

Além disso, em quais autores Nietzsche estava interessado à época da redação da Genealogia? Pode-se notar uma influência destacada de quais pensadores nesse escrito?

Fino estrategista, Nietzsche não hesita com frequência em converter em aliados seus adversários, num primeiro momento; dando a entender que assume as posições que advogam, evidencia os pontos vulneráveis daqueles que, então, se dispõem a questionar; contesta, por fim, estes que, de início, tomara por cúmplices. Dependendo dos alvos de ataque que elege e dos interlocutores que escolhe, a uma mesma proposição confere um tom assertivo ou irônico, dubitativo ou jocoso. É preciso, pois, explorar não apenas o que ele diz, mas sobretudo como ele diz, a quem se endereça e contra quem se dirige.

No caso da Genealogia da Moral, na primeira parte da obra, Nietzsche marca distância em relação ao tratamento dado pelos utilitaristas e evolucionistas às questões morais. Contrapõe-se a Stuart Milll e Herbert Spencer e também se volta contra Paul Rée, de quem fora amigo próximo de 1875 a 1882. Vale lembrar que acabou de ser publicado na coleção Sendas & Veredas a tradução do livro de Paul Rée intitulado A Origem dos Sentimentos Morais, que é de fundamental importância para a compreensão das posições que Nietzsche assume na Genealogia da Moral.

Quais são os pontos de convergência fundamentais entre Ecce Homo, de Nietzsche, e As Palavras, de Sartre? A partir dessa aproximação, quais seriam as implicações filosóficas dos escritos autobiográficos de ambos os autores?

Os escritos autobiográficos constituem uma das minhas “pequenas obsessões”. Não foi por acaso que publiquei em 2004 meu livro intitulado A irrecusável busca de sentido. Autobiografia intelectual, em que faço um balanço das minhas “escolhas” durante o meu percurso.

São várias as questões que a relação entre vida e obra suscita. Uma delas diz respeito ao tempo próprio da autobiografia. Escrito necessariamente inconcluso, interrompido ou prematuro, ele se abre ao futuro. Como nele apresentar a vida? Fatiá-la em momentos sucessivos, capítulos cronologicamente articulados de um folhetim? Ou, desrespeitando sequências lineares, trazê-la de uma só vez, com suas diferentes fases superpostas e, quiçá, fundidas? Como pôr em cena a obra? Enquanto parte de um inventário psicológico ou como objeto de um relato anônimo? E, num segundo nível de questões: ao rememorar episódios da própria história, em que medida não se reafirma a intimidade burguesa?

Outra de suas pesquisas acerca de Nietzsche examinou a condição feminina. Quais são as considerações principais que esse filósofo faz acerca das mulheres e como tais ideias foram apropriadas/recebidas pelo meio acadêmico?

Na verdade, no momento estou trabalhando na elaboração do meu décimo sétimo livro, que tem por objeto precisamente “Nietzsche e as mulheres”. Durante muito tempo, as considerações do filósofo a respeito da condição feminina foram tomadas com precaução, por causa da misoginia presente em seus textos. Revelava-se muito mais prudente, ao que parece, ignorá-las. Dentre os poucos que levaram em conta seus comentários, houve quem buscou defender a ideia de que eles não estavam à altura dos seus talentos ou simplesmente não eram de interesse filosófico. Recentemente, vários escritos feministas se propuseram discutir as posições assumidas por Nietzsche a propósito das mulheres; eles se situam sobretudo no contexto dos estudos publicados em língua inglesa. Investigar as eventuais contribuições da filosofia nietzschiana para a teoria feminista e discutir como interpretar as observações do filósofo sobre o feminino, estas têm sido as vias adotadas.

Poderia relatar a gênese do surgimento do GEN e suas atividades atuais?

Imbuída do espírito que ainda animava o Departamento de Filosofia da USP no final da década de 1980, espírito esse que tinha em alta conta a formação, concebi e implementei o GEN – Grupo de Estudos Nietzsche. Acabava de defender a tese de doutorado. Inscrita num período histórico determinado, ela foi testemunha e cúmplice da situação efetiva dos estudos nietzschianos. No Brasil, o filósofo chegara à Universidade no final da década de 1960. Em suas investigações, professores a ele recorriam de forma esporádica; tomavam-no como objeto de curiosidades intelectuais avulsas. A Nietzsche ainda não estava inteiramente assegurado o acesso à cena acadêmica do país. Era preciso, pois, construir Nietzsche como objeto de conhecimento. Minha tese de doutorado, que veio a público com o título Nietzsche - das forças cósmicas aos valores humanos, visou justamente a contribuir para dar ao autor de Zaratustra a legitimidade filosófica de que entre nós ele ainda carecia. Ao menos, é assim que esse trabalho hoje se me aparece.

Em 1989, quando das primeiras reuniões do GEN, convidei alguns estudantes para iniciarem comigo o exame crítico de Assim falava Zaratustra. Nos dez primeiros encontros, fizemos uma análise estrutural e genética das dez seções do prólogo do livro. Lemos frase por frase, palavra por palavra; estivemos atentos aos conceitos presentes e às estratégias adotadas. Pesquisamos as possíveis referências à história da filosofia, à religião cristã, ao contexto cultural; trouxemos para as nossas conversas a versão luterana da Bíblia, os escritos de Goethe e Wagner, os poemas de Hölderlin e Heine. O trabalho se estendeu por mais quatro anos, um para cada uma das partes do livro.

Quais são as redes de diálogo e parceria estabelecidas pelo GEN com outras entidades de pesquisa sobre esse filósofo, como o Groupe International de Recherches sur Nietzsche - GIRN e o Centro Colli Montinari, por exemplo?

Na universidade brasileira, de modo geral, entende-se por internacionalização enviar nossos estudantes ao exterior, para estágios de doutorado ou pós-doutorado, e receber professores estrangeiros para dar conferências, participar de congressos, além de publicar os seus trabalhos entre nós. É evidente a desproporção nesse caso, pois não nos colocamos como parceiros, e sim como colonizados. A meu ver, internacionalização tem de ser uma via de mão dupla. Por isso mesmo, há cerca de vinte anos tenho fortalecido e consolidado parcerias intelectuais e acadêmicas com grupos de pesquisa internacionais. Além dos grupos que você mencionou, valeria a pena lembrar SEDEN (Sociedad Española de Estudios sobre Friedrich Nietzsche), Stiftung Weimarer Klassik, Internationale Nietzscheforschungsgruppe Stuttgart. Na condição de codiretora do GIRN e de membro do conselho científico do recém-criado HyperNietzsche, pude abrir espaço para que jovens pesquisadores brasileiros participem de publicações e congressos fora do Brasil, discutindo com colegas europeus em igualdade de condições. Mais ainda, tenho trabalhado para fazer que a língua portuguesa seja reconhecida como uma língua de comunicação científica tão legítima quanto o inglês, o francês, o italiano ou o alemão.

A partir do trabalho de pesquisa desenvolvido pelo GEN, quais são os grandes desafios na construção de uma tradição brasileira acerca da filosofia desse pensador?

Com a implementação do GEN, persegui o propósito primeiro de contribuir para formar estudantes que, por sua vez, se tornariam formadores. E formar implica, antes de tudo, fazer ver que, no trabalho de pesquisa, se deve sempre partir do status questionis, de modo a não arrombar portas abertas; significa mostrar que, tendo conhecimento da fortuna crítica, é nossa responsabilidade levar adiante o trabalho que já foi realizado. Para tanto, são necessárias ferramentas. Não é por acaso que os integrantes do GEN procuram trabalhar com edições criteriosas dos textos de Nietzsche e sempre avaliar a pertinência ou não das traduções propostas; procuram ainda manter-se a par dos avanços da Nietzsche Forschung. Mas, para a construção de uma tradição brasileira de pesquisa do pensamento nietzschiano, é preciso não se deixar levar por tendências ou modismos; não importar temáticas ou metodologias que pouco têm a ver com o que fazemos. É preciso ainda evitar soluções de facilidade. Afinal, não há como abrir mão da atitude de probidade intelectual.

* Scarlett Marton é uma das maiores intelectuais especialistas em Nietzsche no Brasil. Coordena o Grupo de Estudos Nietzsche - GEN, da Universidade de São Paulo - USP. Realizou mestrado em Filosofia na Université Paris I Sorbonne, e o doutorado e a livre-docência em Filosofia na USP. É autora de diversos livros, dos quais destacamos Nietzsche, das forças cósmicas aos valores humanos (UFMG, 2000), Extravagâncias: Ensaios sobre a filosofia de Nietzsche (Discurso, 2001), A irrecusável busca de sentido. Autobiografia intelectual (Ateliê Editorial, 2004) e Nietzsche, filósofo da suspeita (Casa do Saber/Casa da Palavra, 2010).

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