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15/04/2019 | domtotal.com

As técnicas criminosas da cura gay

Um relato autobiográfico sobre crimes hediondos nas clínicas de conversão ao heterossexualismo.

Lucas Hedges no papel de Garrard Conley no filme Boy Erased, já disponível em DVD.
Lucas Hedges no papel de Garrard Conley no filme Boy Erased, já disponível em DVD.

Por Marco Lacerda*

“O médico me levou para uma sala pequena, e então me pediu para relaxar e me concentrar na minha respiração. Ele me disse para me recordar de quando eu estava fazendo sexo com um homem. De repente eu senti um choque elétrico. Eu saltei, sem saber o que tinha acontecido. Ele apenas sorriu e me disse que era assim que ele me curaria de ser gay.”

Quando Yang Teng visitou a clínica Xinyu Piaoxiang na cidade de Chongqing, no sul da China, em fevereiro de 2014, ele não sabia o que esperar. Yang não havia saído do armário ainda, e estava sentindo a pressão de sua família para que começasse uma família. Ele tinha ouvido de outras pessoas na comunidade gay que essa “terapia” poderia “curá-lo” da homossexualidade, mas sua curiosidade tornou-se terror quando ele percebeu que o tratamento envolvia ser eletrocutado, e foi embora antes do fim da sessão. Ele afirma que um programa completo de 30 sessões de uma hora, cada uma com três ou quatro choques elétricos, custam 30 mil yuan (R$ 18.460,00).

Revoltado e determinado a expor o abuso que a clínica cometia contra homens e mulheres homossexuais, Yang a processou. Em dezembro de 2014 uma corte de Pequim decidiu a seu favor, declarando que esses tratamentos são ilegais, e exigiu que a clínica pagasse 3,5 mil yuan (R$ 2.150,00) como compensação, além de publicar um pedido de desculpas em seu website.

O calvário do norte-americano Garrard Conley não foi menos doloroso. “Ou você é gay, ou é nosso filho.” Conley, de 34 anos, tinha 19 quando ouviu este ultimato dos pais, em 2004. Até então, nunca tinha contado a ninguém que era homossexual, e se deparou com a rejeição da família depois que seu estuprador o tirou do armário contra a sua vontade, no primeiro ano da faculdade. Aquele agressor decidiu que o melhor que podia fazer para “silenciá-lo” era revelar a orientação sexual da vítima aos seus pais.

Conley, filho de um pastor batista muito querido em sua comunidade e a quem admirava profundamente – queimou o rosto ao socorrer um desconhecido cujo carro havia quebrado no meio da estrada –, se vê obrigado a ingressar voluntariamente em um centro de conversão gay chamado LIA (sigla em inglês de “amor em ação”), em Memphis.

Trata-se de uma entidade cristã e contrária a qualquer atividade do mundo secular, que fazia terapias para “curar a homossexualidade”: vedava o uso de roupas coloridas; as moças tinham que se depilar duas vezes por semana, e os homens deviam andar rigorosamente barbeados, sem costeletas e sem camisetas interiores; proibia ir a shoppings, ter celular dentro da instituição, ler qualquer livro não cristão ou praticar yoga. Seus responsáveis também precisam aprovar (ou não) os trabalhos externos dos convertidos.

Cura gay foi o nome dado às iniciativas para patologizar a homossexualidade, isto é, para descrevê-la como doença. Falsamente se pressupõe que a heterossexualidade seria a única sexualidade saudável, para daí se classificar as outras formas de comportamento como anormais.

Garrard Conley escreveu uma autobiografia narrando sua experiência (Boy Erased – Uma Verdade Anulada, publicado no Brasil pela editora Intrínseca), com Nicole Kidman e Russell Crowe como os pais, e Lucas Hedges adaptando a experiência de Conley para a telona. No Brasil, o lançamento nos cinemas foi cancelado por decisão do estúdio Universal Pictures, mas já pode ser visto em DVD.

“Sobrevivi a um centro de conversão gay. Essas terapias levam ao suicídio”, diz Garrard Conley em sua autobiografia. A cura gay é um esconderijo para gays que sofrem com a prisão do armário. Em vez de romperem a prisão do medo, se lançam em uma jaula na qual quem se apresenta como cuidador é um carrasco do sexo. Não há cura para a homossexualidade, simplesmente porque não há doença nem perturbação ou perversão a serem tratadas.

Boy Erased: Uma Verdade Anulada. Veja o trailer.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do Dom Total.

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