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13/02/2017 | domtotal.com

O centenário de um golpe de Estado

Vladimir Putin já deu sinal verde para comemorações da revolução russa de 1917.

Vladimir Lênin: 'Uma nação não pode ser livre oprimindo outras nações.'
Vladimir Lênin: 'Uma nação não pode ser livre oprimindo outras nações.'

Por Marco Lacerda*

No começo do século XX, a Rússia era um país de economia atrasada e dependente da agricultura: 80% de sua economia estava concentrada no campo (produção de gêneros agrícolas). Os trabalhadores rurais viviam em extrema miséria e pobreza, pagando altos impostos para manter a base do sistema czarista de Nicolau II. O czar governava a Rússia de forma absolutista, ou seja, concentrava poderes em suas mãos não abrindo espaço para a democracia. Mesmo os trabalhadores urbanos, que desfrutavam os poucos empregos da fraca indústria russa, viviam descontentes com o governo do czar.

Em 1905, Nicolau II mostra a cara violenta e repressiva de seu governo. No famoso Domingo Sangrento, manda seu exército fuzilar milhares de manifestantes. Marinheiros do encouraçado Potenkim também foram reprimidos pelo czar. Começou então a formação dos sovietes (organização de trabalhadores russos) sob a liderança de Vladimir Lênin. Era a semente da revolução socialista na Rússia e a queda da monarquia.

Em 2017, a Rússia se dispõe a recordar o centenário da revolução de 1917, e seus dirigentes gostariam que esse aniversário histórico ocorresse em um ambiente de união, sem reabrir feridas nem aprofundar em excesso um tema que ainda divide em extremo os cidadãos mais velhos e afeta o mesmo Estado em sua condição de herdeiro da União Soviética.

O presidente Vladimir Putin deu “sinal verde” para as comemorações oficiais em dezembro passado, quando assinou uma disposição na qual encarregava a Sociedade Russa de História (SRH) de formar um comitê organizador do centenário. Putin também recomendou aos governos regionais e municipais e a todos os interessados que participem das comemorações. O comitê se reuniu pela primeira vez recentemente, em Moscou, na presença de Sergei Naryshkin, que, além de ser presidente da SRH, é o chefe do Serviço de Inteligência Estrangeiro (SVR), desde o fim de 2016.

O comitê é formado por 63 pessoas, entre elas historiadores e diretores de diversas instituições relacionadas com a história do país, responsáveis por arquivos e museus, jornalistas e publicitários. Nesse diversificado grupo estão o cineasta Nikita Mijailkov, o diretor da agência de notícias Rossiya Segodnya, Dmitri Kiselyov (atingido pelas sanções ocidentais após a anexação da Crimeia), e a diretora da emissora de TV estatal RT (antiga Russia Today), que transmite em vários idiomas, Margarita Simonian, além de intelectuais liberais como Olga Sviblova, diretora do Museu de Arte Multimídia, e o responsável da Igreja Ortodoxa russa, Vladimir Legoida.

Uma comemoração polêmica

O aniversário, tal como o Estado russo quer comemorá-lo, não é um evento pontual, mas um processo que vai desde a revolução de fevereiro de 1917 à de outubro do mesmo ano, e prossegue até o fim da guerra civil em 1922. Em relação aos acontecimentos de outubro (novembro no calendário atual), a terminologia que se impõe cada vez mais é “golpe de Estado de outubro”, apesar de os anúncios oficiais frequentemente evitarem se pronunciar e, por isso, a expressão “centenário da revolução de 1917” se torna mais cômoda para evitar confrontos com os eleitores do Partido Comunista da Rússia.

Uma das dores de cabeça das autoridades russas às vésperas do centenário é como comemorá-lo deixando, ao mesmo tempo, bem claro que não se quer fomentar nenhuma tendência revolucionária, senão o contrário. “Em muitos países, nos últimos anos, se importaram as chamadas técnicas revolucionárias e outras ‘revoluções de cores’ que sempre deixam para trás sangue, morte de civis, destruição e desgraça para os países que são vítimas desse tipo de experimento”, afirmou Naryshkin na sessão inaugural do comitê de organização.

As concepções políticas do Kremlin, para quem os Estados Unidos fomentaram a revolução na Ucrânia, na Rússia e em outros países, figuraram no discurso do alto funcionário, que invocou a “memória genética do povo russo” para destacar o “preço colossal da revolução”. “A história da Revolução Russa paulatinamente tem deixado de dividir e opor os cidadãos, e nós devemos apoiar essa tendência e criar as condições necessárias para refletir sobre as lições históricas daqueles acontecimentos de um século atrás”, disse. “É preciso recordar sem paixões os vencedores e as vítimas, porque tanto uns como os outros tinham sua verdade. Esse enfoque objetivo e delicado nos permitirá reforçar os valores de união e solidariedade cidadãs e ampliar a capacidade da sociedade para resolver de forma pacífica os conflitos e contradições”.

A revolução russa de 1917. Veja o vídeo.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do DomTotal.

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