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17/04/2017 | domtotal.com

O lugar mais triste do mundo

Coreia do Norte: novas armas nucleares, mesmos abusos dos direitos humanos.

Por Macarena Vidal*

A Coreia do Norte é hoje um país diferente do que era em 1994, quando ocorreu a primeira substituição de gerações dentro da dinastia Kim e o “querido líder” Kim Jong-il assumiu o poder. Naquela altura, o regime que durante a era dourada da aliança com Moscou tinha mantido um nível de vida superior ao de seu vizinho do sul, começava a sofrer as consequências da queda da União Soviética. A retirada de fornecimentos, combinada com uma série de desastres naturais, além de outros fatores, criava o que o regime chamou, eufemisticamente, de “Árdua Marcha”, uma fome de dimensões épicas.

Embora nunca tenha sido possível saber com precisão o número de vítimas, as organizações internacionais calculam que a fome, que começou em 1994 e só terminou em 1998, deixou centenas de milhares de mortos.

Aquele período seria um divisor de águas na gestão econômica e política norte-coreana. A escassez desarticulou as redes de fornecimento estatais que até então atendiam as necessidades básicas da população. Pela primeira vez em décadas, os cidadãos tinham de usar da criatividade, e não depender totalmente do Estado, para poder pôr algo na mesa. Começou a surgir uma pequena economia de trocas e de comércio privado, especialmente ao longo da fronteira com a China, uma tendência que continua até hoje.

Em 1998 começou uma fase de maior proximidade à Coreia do Sul, graças à política de aproximação promovida pelo presidente sul-coreano Kim Dae-jung. Essa política – que acabaria em 2008 com o abandono de projetos conjuntos, como o polo industrial de Kaesong – somou-se ao comércio com a China e à economia incipiente para proporcionar divisas ao regime e obter certa melhoria econômica.

Pyongyang, a capital do país e vitrine do regime, exibe hoje um número muito maior de táxis e outros veículos e vive um pequeno boom na construção civil. A incipiente classe média pode, se tiver dinheiro suficiente, consumir produtos estrangeiros ou tomar um café em estabelecimentos aparentemente bem abastecidos.

A fome também fortaleceu a influência das forças armadas, reafirmada na política do songun ou “primeiro os militares”, um dos pilares da ideologia de Pyongyang. Para sobreviver em seu isolamento, optou pelo desenvolvimento armamentista, especialmente o nuclear. Em 2006, realizou seu primeiro teste nuclear. Depois disso, mais quatro testes, sendo os dois últimos no ano passado. Como resposta, a comunidade internacional fez da Coreia do Norte o país mais sancionado do mundo.

Uma coisa não mudou ao longo destes anos, nem mesmo com a morte de Kim Jong-il em 2012 e a chegada ao poder de seu filho mais novo, Kim Jong-un. É o culto à personalidade e a situação atroz dos direitos humanos. Em 2014, uma comissão de investigação da ONU concluiu que os abusos na Coreia do Norte “não têm paralelo no mundo contemporâneo”.

O relatório reunia depoimentos de vítimas e testemunhas que descreviam em detalhe os horrores dos campos para presos políticos: da caça desesperada de ratos e cobras para alimentar bebês desnutridos até o uso de prisioneiros para a prática de artes marciais. “Esses crimes contra a humanidade incluem o extermínio, o assassinato, a escravidão, a tortura, prisão, violações, abortos forçados e violência sexual, a perseguição por motivos religiosos, políticos, raciais ou de gênero, a transferência forçada da população, desaparecimentos e o ato desumano de privação intencional de alimentos durante um tempo prolongado”.

O regime norte-coreano também se voltou contra suas próprias fileiras. Já nos tempos de Kim Jong-un, o caso mais célebre até agora tinha sido a execução de seu tio, Jang Song-thaek, considerado até então o “número dois” do sistema. A morte de Kim Jong-nam, o irmão mais velho do Líder Supremo, na Malásia, em circunstâncias semelhantes a um romance de espionagem, pode superá-lo.

Um passeio pelas ruas estranhas de Pyongyang

*Macarena Vidal escreve para o El Mundo.

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