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12/06/2017 | domtotal.com

Porto seguro

A cidade do Porto em festa para degustar um dos vinhos mais celebrados do mundo.

A história do vinho do Porto começa no século 17, quando os ingleses passaram a importar a bebida.
A história do vinho do Porto começa no século 17, quando os ingleses passaram a importar a bebida.

Por Isabelle Moreira Lima*

A cidade do Porto, no norte de Portugal, está em festa, brindando – obviamente – com seu célebre vinho fortificado. O motivo são os 260 anos da demarcação e regulamentação da região produtora do Douro, comemorados recentemente com uma maratona de jantares, visitas a adegas, coquetéis e, no momento mais esperado, uma degustação com vinhos do Porto produzidos ao longo de três séculos. Sim, este fortificado é capaz de envelhecer por mais de cem anos.

Estrela da degustação que incluiu 15 rótulos, o Bulas Very Old Port é um Tawny da segunda metade do século 19 engarrafado no ano passado. São apenas 200 garrafas. O palpite do diretor de certificação do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), Bento Amaral, um dos maiores especialistas de Porto do mundo, é que se trata da safra de 1860. Amaral, que prova cerca de 3 mil rótulos por ano, avaliou o vinho como “pronto para beber”, o que soa irônico (temos que esperar tanto para beber um bom Porto?).

Na degustação do Port Wine Day, como foi chamado o aniversário da demarcação, o vinho dourado pálido mostrou boa acidez (7,6 para os mais técnicos), 286 gramas de açúcar por litro e notas de especiarias e mel. Bento Amaral destacava as características e nós, degustadores do mundo todo, dispostos em longas mesas com mais de 15 taças à frente, custávamos a acreditar que aquele líquido tão vivo havia sido feito há 156 anos. Para Amaral, a técnica aprimorada por séculos e a qualidade das uvas do Douro é que tornam a bebida tão longeva.

A região produtora, que começa em Peso da Régua, a cerca de 100 km ao leste da cidade do Porto, e vai até a fronteira espanhola, é quente e seca. Sofridas com a insolação e o solo pobre, as uvas são fruto de uma agricultura extrema. Na semana em que muitas quintas iniciavam sua vindima, o Paladar arriscou-se por uma hora cortando uvas na geografia íngreme de socalcos do Douro, na Quinta do Crasto. A vista estonteante não ameniza o sol de 46°C.

Considerando que os trabalhadores encaram oito horas diárias ali, entende-se um dos motivos da evasão da mão-de-obra jovem, um problema para as vinícolas durienses.

O resultado, no entanto, são uvas de alta concentração, níveis de açúcar excelentes e acidez brilhante que, além do vinho do Porto, nos últimos 30 anos geram os DOC Douro, os vinhos tranquilos ou de mesa, como são chamados ali.

Mas voltemos ao Porto, que é a grande estrela do aniversário do Douro como região demarcada – a mais antiga do mundo, nascida com os marcos autorizados pelo Marquês de Pombal. Hoje, ele quer retomar seu papel de embaixador de Portugal e superar a ideia de que é uma bebida cara e ultrapassada.No Port Wine Day, além da degustação dos vinhos antigos, de alta gama e alto preço, provamos o Porto Tônica, coquetel feito com Porto branco, água tônica, limão e hortelã. De tão refrescante, nem os estudiosos reclamam. “A experimentar”, sugere Bento Amaral.

A história do vinho do Porto começa no século 17, quando importações de vinhos franceses pela Inglaterra estavam proibidas e os ingleses precisavam continuar bebendo. Encontram na região do Douro uma bebida escura e adstringente que os agradou tão profundamente que quiseram, a qualquer custo, mantê-la intacta até o Reino Unido. Passaram a adicionar aguardente para estabilizá-la antes da viagem.

Em 1678, o filho de um comerciante de Liverpool encontrou uma vinícola de frades cistercienses que adicionava a aguardente durante a fermentação, o que matava as leveduras ativas e dava o caráter doce. Na década de 1730, adições extras de açúcar e sucos de frutas colocaram em risco a reputação do Porto e levaram à demarcação em 1756 pelo Marquês de Pombal.

  • Porto, um vinho de Portugal e do mundo:

*Isabelle Moreira Lima escreve para o caderno Paladar, de O Estado de S. Paulo.

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