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13/02/2017 | domtotal.com

O travesti da família brasileira

O transexual que encarou a ditadura militar lança sua primeira biografia.

Rogéria, 73 anos: 'Consegui fazer meu nome, ser respeitada, ser chamada de senhora.'
Rogéria, 73 anos: 'Consegui fazer meu nome, ser respeitada, ser chamada de senhora.'

Por Camila Moraes*

Se tem uma coisa que perturba Rogéria, o travesti mais famoso do Brasil, é fazer-se de vítima, ou então que façam isso por ela. “O que mais me irrita é quando as pessoas dizem ‘é muito difícil ser artista nesse país, né?’ ou ainda ‘você deve ter sofrido muito”. Rogéria, cuja trajetória acaba de virar uma biografia autorizada, daquelas que contam com a anuência do biografado, diz com dedo em riste que “não sofreu coisa nenhuma”. E assegura que o Brasil dos anos 1960, época em que ela se fez artista, era o melhor lugar do mundo para ser travesti. “Para essas pessoas que querem desgraça, eu respondo: ‘Você não conhece o meu dossiê? Não sabe que eu batia nos garotos de pequena e que os shows e os travestis mais chiques eram daqui, deste país?”.

É apenas mais uma das provocações dessa senhora de 73 anos, vaidosa, divertida e religiosa, que nasceu Astolfo Barroso Pinto em Cantagalo, no Rio de Janeiro. E que, por mais que tenha vivido mil aventuras em pele feminina, Astolfo, ela garante, nunca deixou de ser. De onde veio essa há muitas mais, conforme comprova o leitor de ‘Rogéria - Uma mulher e mais um pouco’, lançada pela editora Sextante em outubro de 2016.

A biografia, escrita por Marcio Paschoal, amigo e vizinho de Rogéria no bairro carioca do Leme, é recheada de causos sexuais que dão de beber aos curiosos, mas que quase terminam por ocultar o que há de mais interessante nessa história: os obstáculos que a travesti derrubou quase sem saber. O primeiro deles foi fazer-se artista no fatídico ano de 1964, início da ditadura militar no Brasil, atuando em Les Girls, o primeiro espetáculo nacional de transexuais, dirigido por João Roberto Kelly.

Era uma época de censuras e medos espalhados na classe artística. Ainda assim, Rogéria nunca foi presa nem teve de fugir do país. Em lugar disso, conquistou em 1979 como atriz, ao lado de Grande Otelo em O desembestado, um Troféu Mambembe – importante prêmio, já finado, criado em 1977 pelo Ministério de Cultura com o objetivo de distinguir a produção cultural do eixo Rio-São Paulo. “Olha para mim. Eu lá era um perigo para a ditadura? Não, querida. Já era gay, me vestia de mulher, e ainda ia me meter em política? Não me interessava”, garante. “Nos anos de chumbo, não tinha estrela, não tinha vedete, nada... Todo mundo fugiu. Nós, homossexuais, levantamos o show business naquela época. E as pessoas gostavam da gente”. Não é pouco. Às apresentações que fazia nos anos 60 no mítico Teatro Rival, no centro do Rio, Rogéria ainda por cima ia com vestidos bordados pela mãe e acompanhada do namorado.

O travesti da família brasileira

Mas o que mais a enche de orgulho é ter se tornado “a travesti da família brasileira”. O título, cunhado por ela mesma, veio à custa de muito trabalho – dos palcos das boates cariocas às de Paris, nos quais se consagrou como vedete, e das entrevistas à imprensa às atrações da TV Globo, onde chegou a ser escalada para o papel de avó mais de uma vez. Custou, também, hábitos de boa menina: “Eu ando pelas ruas do Leme, e as senhorinhas me param para dizer ‘você nunca fez um escândalo… você se comporta’. Isso vem de pequena. Sempre respeitei minha mãe, minha professora, e ainda cuidava de criança”, conta. Quando se tornou uma artista conhecida, e se vestia de mulher todos os dias, Rogéria passou a comprovar na pele a aceitação do público: “As pessoas tocavam em mim e diziam ‘ela é de carne mesmo!”.

Quem vê Rogéria aos papos no Rio, cabelo preso e unhas feitas, provando de tempos em tempos à interlocutora que é “carola” (“tenho os meus santos”, “Cristo é vida”) e ao mesmo tempo se descrevendo como “uma senhora de pau”, não imagina como tudo começou. Mas não é difícil: Astolfinho – seu apelido de infância – se vestiu pela primeira vez de mulher aos 14 anos no Carnaval de 1957. Bastou um maiô preto, uma saia amarela e um chapéu, sem peruca ou maquiagem, para levar cantadas na rua (“vai aonde, gracinha?) e ganhar confiança. Em casa, onde cresceu longe do pai, ganhou bronca da mãe não por usar roupas femininas, mas por deixar-se ver.

Até que a família, que sempre viu em Astolfinho um artista, acostumou-se ao futuro, que começaria a chegar quando ele se fez maquiador na extinta TV Rio, em 1964. Lá, Astolfo virou Rogério por sugestão de alguém a quem seu nome de batismo soava “muito formal”. E lá Rogério maquiou grandes estrelas do rádio e da TV da época, como as rivais Emilinha Borba e Marlene, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso e Fernanda Montenegro. Rogéria conta que todos na casa a estimulavam a “cair de pau” nos palcos, mas foi Fernanda Montenegro quem a convenceu. “Não vou, Fernanda... Vestida de homem?’. Ela disse ‘isso não existe, meu filho. Arte é talento e vocação'. Muito generosa, né?”. Os passos seguintes dão conta de Rogério em um concurso de fantasias, conquistando só de espartilho preto, cinta-liga e chapéu o primeiro lugar ao lado de outro travesti, Suzy Wong, “a bicha mais rica da festa”.

Ao anúncio de seu nome pelo locutor do evento, o público fez o batismo:

– Ele é Rogério, maquiador da TV Rio.

– Ro-gé-ria! Ro-gé-ria!

Cabelos longos em Paris

Do sucesso na noite carioca, Rogéria, que longe dos holofotes ainda não se vestia de mulher, fez as malas nos anos 1970 para perseguir o estrelato fora do país. Passou por Angola, Moçambique, Estados Unidos e Espanha – onde, para trabalhar, queriam que ela fizesse a operação de mudança de sexo, que ela nunca fez –, até chegar à França em 1971. Na capital, Paris, tudo mudou. Primeiro, o cabelo que era curto e andava maltratado, cresceu, ficando farto e sedoso. Depois, os ares da cidade a inspiraram a assumir a faceta très chic. “Mesmo sem o cabelo crescer, já me sentia feminina o suficiente para passar por uma mulher chique. Nada melhor do que poder andar na rua de mulher em Paris”, ela relembra – e suspira.

Na França, Rogéria aprendeu muito com o travesti Chou-Chou, que foi uma espécie de madrinha para ela, com quem trabalhava na noite parisiense e dividia apartamento. Da amiga, que tinha mania de comprar roupas, aprendeu bastante, mas nada comparado às lições que recebeu da mãe, dona Eloah, inclusive sobre a "arte" de ser mulher. “Eu vivi rodeado de mulher. Minha mãe me dizia: 'Você vai se vestir de mulher? Então, sabe de uma coisa? Nós somos mais asseadas'. Desde então, se não está de unha feita, não sai de casa.

Rogéria conta que Eloah a “aceitava completamente”, e por esse elo afetivo tão sólido teve mais do que o espetáculo para se firmar na vida. A operação de mudança de sexo foi a única coisa à que sua mãe se opôs. “Disseram que eu ia fazer uma operação transexual, aí ela escreveu para mim. Mas eu nunca quis operar. Imagina, operar o apêndice já é uma complicação...”, ela diz, garantindo que já passou o tempo em que saía dizendo o que os outros devem ou não fazer. “Vou jogar pedra no vidro dos outros? Eu também tenho telhado de vidro. Cada um faz o que quer”.

Rogéria se descola da militância LGBT

É por essa convicção que o travesti ícone dos travestis brasileiros passa ao largo da militância LGBT. Rogéria prefere repousar no abraço das velhinhas que encontra no Leme, das mães e avós que a assistem em novelas e programas de auditório, e também, na medida do possível, agradar as colegas de profissão, as amigas e inclusive as inimigas. De preferência, aos 73, vive sem roces. “Adoro minhas amigas, sou a favor de todas, do casamento, de tudo. Mas deixa eu continuar no meu canto”. Pergunto se o lugar que alguma vez ela assumiu na linha de frente dos travestis brasileiros, levantando bandeira, foi um lugar que não procurou. A resposta é "não". “E eu já não sou a bandeira? Quando me deram o papel de avó na novela, chorei de alegria. Depois tem quem diz: ‘Você não entra na militância’. Não tinha siglas quando apareci. Consegui fazer meu nome, ser respeitada, ser chamada de senhora”.

Enquanto traz de volta as conquistas do passado, Rogéria também faz projetos. Além de ter lançado a biografia no fim de 2016, ela atuou no documentário Divinas divas, dirigido por Leandra Leal e previsto para estrear neste primeiro semestre. Também continua fazendo shows e dando palestras esporadicamente, enquanto sonha com um filme de ficção sobre sua vida, para o qual ainda não consegue pensar em uma atriz para o papel principal. É um personagem difícil, afinal. “Nasci homossexual, nunca fiquei em armário, não acredito em opção sexual e sempre me posicionei contra qualquer tipo de hipocrisia. Tem gente de movimento gay que não gosta de algumas coisas que digo, mas para esses eu falo que, antes deles chegarem, já existia Rogéria, meu amor”.

Rogéria por Rogéria. Veja o vídeo.

*Camila Moraes escreve para o El País.

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