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11/09/2017 | domtotal.com

A cumplicidade entre dois gênios

Exposição mostra as afinidades entre a obra de Henri de Toulouse-Lautrec e Pablo Picasso.

Obras de Henri de Toulouse-Lautrec e Pablo Picasso: gênios artísticos desde a infância.
Obras de Henri de Toulouse-Lautrec e Pablo Picasso: gênios artísticos desde a infância.

Por Marco Lacerda*

Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) e Pablo Picasso (1881-1973) nunca se conheceram. Quando Picasso visitou Paris pela primeira vez, em outubro de 1900, Lautrec estava doente e morreria prematuramente um ano depois. Mesmo assim, a obra radical de Lautrec, seu modo de perceber a modernidade, produziu impacto potente no jovem Picasso. Através do artista francês, ele descobriu o pluralismo da sociedade moderna que condicionaria sua maneira de entender a arte.

Apesar de estas afinidades serem bem conhecidas, a exposição Picasso/Lautrec, com curadoria do professor Francisco Calvo Serraller, catedrático em História da Arte da Universidade Complutense de Madrid, e Paloma Alarcó, chefe de conservação de pintura moderna do Museu Thyssen-Bornemisza de Madrid, é a primeira mostra monográfica dedicada à comparação dos dois grandes mestres da modernidade. A exposição ficará em cartaz de 17 de outubro a 21 de janeiro de 2018 no Museu Thyssen-Bornemisza.

Através de uma centena de obras organizadas em torno dos temas que interessaram a ambos - os retratos caricaturais, o mundo noturno dos cafés, cabarés, teatros, a realidade crua dos marginais, o espetáculo do circo ou o universo erótico dos bordéis - pode-se comprovar que o diálogo de Picasso com Lautrec, com influências e coincidências, não se limita exclusivamente às primeiras obras do pintor espanhol, mas percorre toda a sua produção artística até a maturidade.

A carreira artística de Lautrec durou apenas 15 anos, a de Picasso, mais de sete décadas. Os dois foram gênios artísticos desde a infância, sentiram-se atraídos por Paris na juventude e rechaçaram a influência acadêmica que lhes foi imposta. O domínio do desenho foi uma das chaves que daria sentido à obra de ambos. Tanto Picasso como Lautrec desenharam compulsivamente durante toda a vida. Tinham predileção especial para a linha e a caricatura e desde muito jovens encheram com extraordinária destreza centenas de cadernos com seus desenhos.  

Ambos pensavam e se expressavam desenhando e qualquer nova obra era precedida por ensaios e experimentações em papel. Mas o modo de olhar é o que mais os vincula. Lautrec sempre abordou transformações que não eram simples questão de descrição, mas de percepção: as perspectivas distorcidas e anti-naturais, as figuras cortadas nas bordas do quadro e a captação do motivo por trás dos personagens, respondem à intenção de incluir o espectador na cena retratada. Picasso, por sua vez, avança um passo mais ao submeter as formas pictóricas a um processo de redução, destruição e metamorfose, que já estava presente de modo incipiente em algumas imagens de Lautrec.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do DomTotal.

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