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14/05/2018 | domtotal.com

O gênio que mudou a Literatura

Nos 55 anos de sua morte, editoras de todo o mundo relançam a obra de William Faulkner.

William Faulkner:
William Faulkner: "Nossa tragédia é um temor geral que permeia o mundo inteiro".

Por Marco Lacerda*

Criar a partir das contradições do coração, algo que não existia antes e que cem anos depois continurá emocionando quem o leia. Este era o propósito de William Faulkner. Se tivéssemos que citar três escritores que mudaram a literatura do século 20, um deles teria que ser obrigatoriamente o autor de “O som e a fúria”.

Sem suas obras, García Márquez, Vargas Llosa Juan Rulfo, Flannery O´Connor, Toni Morrison e mais uma lista interminável de autores teriam escrito outro tipo de livros e contado suas histórias de outra forma. Nos 55 anos de sua morte, editoras de todo o mundo anunciam o relançamento de algumas das obras mais importantes de William Faulkner.

Faulkner é um dos elos indispensáveis na cadeia que liga a Bíblia, a tragédia grega, Shakespeare e Cervantes ás comédias humanas de Balzac e Dickens e segue com as paixões turvas de Dostoyevski, Joseph Conrad e Herman Melville. Quando lhe outorgaram o Prêmio Nobel, em 1949, num primeiro momento, ele o recusou dizendo: “Como aceitar um prêmio que já foi dado a Pearl S. Buck e Sinclair Lewis”. Mas ao final, pressionado pelo Departamento de Estado dos EUA, aceitou e pronunciou em Estocolmo um dos discursos mais recordados da história do Prêmio:

“Nossa tragédia é um temor geral permeia o mundo inteiro, enfrentado por tanto tempo que acabamos por aprender a suportá-lo. Já não existem problemas do espírito. Só me resta uma pergunta: Quando explodirei”?

O direito de sonhar

Faulkner se negava a aceitar o fim do homem. “O dever do escritor, do poeta, é escrever sobre essas coisas. Eles têm o privilégio de ajudar o homem a resistir, elevando seu coração, recordando-lhe o valor, a honra, a esperança, o orgulho, a compaixão, a piedade e o sacrifício que foram a glória do passado”.

Sua galeria de personagens bebe nas mesmas fontes da detestável Sara Glamp, de Dickens, da sanguinária lady Macbeth, da sofrida Ofelia, do menino Huck Finn, de Marc Twain, mas também de personagens quixotescos em luta sem trégua para que o ideal se imponha à realidade na natureza dos ser humano.

“A vida – dizia o escritor que, às vezes se comparava ao capital Ahab, de Melville – é movimento e o movimento tem a ver com o que o faz homem mover-se, que é a ambição, o poder, o prazer. O tempo que um homem pode dedicar à moralidade é roubado forçosamente do movimento do qual ele mesmo é parte. O homem, cedo ou tarde, é obrigado a escolher entre o bem e o mal porque a consciência moral assim o exige, a fim de que possa viver consigo mesmo o dia de amanhã. Sua consciência moral é a maldição que tem que aceitar dos deuses para obter deles o direito de sonhar”

O direito de respirar

Faulkner dizia que um escritor precisa de três coisas: experiência, observação e imaginação, embora não precise da última. Criado na cidade americana de Oxford, no Mississipi – o avô foi morto na rua depois de um duelo com um de seus sócios –, William quis alistar-se como piloto durante a II Guerra, mas a guerra acabou antes – o que não o impediu de retornar a Oxford como um falso herói de combates, vítima de uma insuportável dor de cabeça causada por tiro de raspão.

Em Nova York trabalhou como carteiro até descobrirem que, em vez de entregar as cartas, passava o tempo jogando, bebendo e fazendo-se passar por um poeta decadente. Em Paris, encontrava-se com Joyce em cafés, mas nunca se atreveu a dirigir-lhe a palavra. Mais tarde se estabeleceu em New Orleans, onde, em vias de desistir de triunfar como escritor, descobriu a fonte que sempre buscara, o mundo de Yoknapatawpha com “O som e a fúria”, “Enquanto agonizo” e “Absalão! Absalão!”. De um jeito próprio contou suas histórias e assim mudou a história da literatura.

O mundo de Faulkner começou a desmoronar no dia 6 de julho de 1962, depois de cair de um cavalo. Há anos sua escrita havia entrado em declínio: necessidades econômicas, desgaste do seu universo narrativo, insônias invencíveis, conflitos permanentes na vida doméstica e uma paranóica desconfiança de tudo e todos. No fracassado romance “Uma fábula”, ele escreveu: “Com o tempo você se faz velho e, então, vê a morte. Então se dá conta de que nada, nem o poder, nem a glória, nem a riqueza, nem o prazer, nem sequer a libertação do sofrimento tem tanto valor como o simples ato de respirar, o simples fato de estar vivo”.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do DomTotal.

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