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03/12/2018 | domtotal.com

Damien Hirst dá à luz 13 fetos

Obras do artista britânico foram mantidas ocultas no Qatar durante cinco anos.

Esculturas da instalação 'A Viagem Maravilhosa' diante do hospital Sidra, no Catar.
Esculturas da instalação 'A Viagem Maravilhosa' diante do hospital Sidra, no Catar.

Por Peio H. Riaño*

Quatorze esculturas gigantes de bronze do artista britânico Damien Hirst, que percorrem o desenvolvimento de um feto da fecundação até o nascimento, dão as boas-vindas aos pacientes do hospital Sidra, no Catar. A Viagem Milagrosa, um conjunto instalado diante do hospital, culmina com um bebê recém-nascido de 14 metros de altura. As peças voltaram a ver a luz depois de terem ficado cinco anos cobertas, supostamente pelas críticas que geraram, conforme informa a agência AFP.

Hirst intuiu a polêmica que a exposição de figuras humanas em um país islâmico causaria. “É a primeira escultura nua no Oriente Médio”, disse o artista ao Doha News na época da instalação. “É muito ousada.” O britânico esquentava o clima com suas declarações, e as figuras entraram na alça de mira dos mais suscetíveis.

A instalação é parte da impressionante coleção de arte contemporânea do hospital Sidra, onde a irmã do emir, Al-Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al-Thani, investiu no que há de mais seleto no mercado internacional, com a intenção de criar e transmitir uma imagem de modernidade e abertura do país árabe, de 2,6 milhões de habitantes. No total, 65 obras de arte, incluindo uma instalação de neon da provocadora artista britânica Tracey Emin.

O custo das 14 esculturas da composição A Viagem Milagrosa é estimado em 17,5 milhões de euros (75,4 milhões de reais), aos quais devemos adicionar os honorários do artista. A polêmica provocada por essa instalação monumental está tornando mundialmente conhecido esse hospital para crianças e mulheres, que tem 400 leitos e foi inaugurado em janeiro com um investimento de mais de 7 bilhões de euros (30 bilhões de reais).

O gênio do marketing

 Não é à toa que a galeria White Cube considera Hirst o artista mais especialista em marketing do mundo. Estas 14 esculturas comprovam isso. Para o artista Dinos Chapman, que também costuma estar envolvido em polêmicas, a caveira de platina –coberta com 8.601 diamantes incrustados e com um peso total de 1.100 quilates − foi obra de um gênio, mas não da arte, e sim do marketing.

Não há ninguém como ele para transformar uma imagem em uma marca capaz de dar a volta ao mundo. De fato, ele mesmo reconhece que “tornar-se um nome de marca é uma parte importante da vida”. Afinal, este “é o mundo em que vivemos”, justifica Hirst. “O sucesso de Damien Hirst está em uma marca sólida e em um processo de manufatura com controle de qualidade”, escreveu o especialista em arte Don Thompson em seu famoso libelo O Tubarão de 12 Milhões de Dólares (editora Bei).

Vinte e cinco anos depois de seu tubarão dissecado, o que o mercado de arte mais reconhece e valoriza em Damien Hirst é seu faro para chamar a atenção. “Sua marca cria publicidade e suas obras atraem pessoas que, de outra forma, nunca teriam contemplada a arte contemporânea”, afirma Thompson, elogiando ironicamente a astúcia do artista.

A arte é o de menos, parece indicar Hirst, a única coisa que importa é colocar uma nova imagem de impacto (e kitsch) no fluxo de imagens. Mesmo, como é o caso, tornando invisível a mulher e resumindo-a a uma mera portadora de embriões, que crescem e nascem... após uma “viagem milagrosa”.

*Peio H. Riaño escreve para La Vanguardia.

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