13 Mai 2016 | domtotal.com

O que não fazemos vira sonho


(Reprodução)

Por Marcel Farah

Quando entrei no Governo Federal, em 2009, para acompanhar o trabalho da Rede de Educação Cidadã, esperava me deparar com um estado em transformação. A ascensão do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República era repleta de expectativas e esperanças. Por mais que já tivesse vivido, do lado de fora do estado, esta experiência desde 2003, a energia positiva que emanava desta conquista ainda tinha muita força, principalmente em meio àquelas e àqueles que lutavam pela transformação social.

A nossa sociedade é toda construída em torno de milhares de relações sociais que se dão no cotidiano concreto de nossas vidas. Nas relações de amizade, nas relações de trabalho, nas relações familiares, nas relações afetivas, na produção de nossa cultura. Portanto a transformação social deve considerar este complexo enredamento para ser sólida. A desigualdade e a justiça social só serão alcançadas se iniciadas desde baixo. Para isso, em um governo de trabalhadoras e trabalhadores, diferente dos nossos primeiros 500 anos de história oficial, considerando isso, deveria apostar em uma mudança desde a base das relações sociais. Isso implicaria em dar exemplo com uma gestão da burocracia estatal em que não se reproduzisse algumas arbitrariedades, hierarquias, preconceitos e desigualdades.

Este era o estado em transformação que eu esperava. Um estado cuja burocracia se pensasse humana, reduzisse as desigualdades salariais, em que o "pessoal da limpeza" tivesse gradativamente o mesmo status de coordenadores, diretores e secretários. Este foi meu primeiro sonho, logo desfeito pela afirmação de uma gestão burocrática e arcaica em que privilégios se reproduziam, em que o cerne da questão da desigualdade não era enfrentado.

Este é apenas um aspecto do resultado do programa de conciliação colocado em prática pelos governos do Partido dos Trabalhadores. Um aspecto pouco debatido, mas muito importante neste momento em que a consumação de um golpe de estado se torna a cada dia mais concreto.

Afinal, não fomos capazes de alterar as relações sociais dentro da máquina do estado, não alteramos a lógica mercadológica (e não meritocrática) dos concursos públicos, não superamos a desigualdade de tratamento que rebaixa o "trabalho braçal", não superamos a disputa de cargos, e sucumbimos ao permitir que as relações sociais não se alterassem no todo social.

Hoje a primeira Presidenta da República foi afastada do seu cargo para defender-se de uma acusação infundada de crime de responsabilidade. E este é um ato institucional de machismo. Machismo, em grande parte aplaudido e validado por nossa população. Espero que o ministério de homens brancos e corruptos que o golpista Temer está montando seja alvo de muitos escrachos e protestos.

A admissibilidade do processo de impedimento pelo poder Legislativo é a culminação do avanço do conservadorismo no mundo, resultado do acirramento da luta de classes frente à crise capitalista, fortalecida pela aliança de uma mídia nacional oligopolizada e conservadora, ao parlamento mais conservador desde 1964 (raptado pelo poder econômico), e um Judiciário conivente e adestrado a seguir as maiorias políticas sem necessariamente lutar pela justiça. E além de tudo isso é também machismo.

O impeachment é uma grande injustiça, e por isso um golpe. Os interesses de fundo são o retorno ao controle da máquina pública pelas mesmas elites dos nossos primeiros 500 anos de história oficial, para dar continuidade à implementação de um programa político conservador, que esfola nosso povo, se submete aos mandos do capital internacional, ao imperialismo, destrói as organizações da classe trabalhadora, incentiva a violência contra a mulher, mata os jovens de periferia, principalmente os negros, e promove a criminalização da luta por direitos tendo como braço desta brutalidade a polícia militar.

É verdade que o governo que mais dialogou e buscou representar os interesses populares de nossa nação esta sendo derrubado à força mais pelos seus acertos, por ter se colocado ao lado de quem mais precisa. Mas é também verdade que o intuito golpista prosperou com nossos erros, com o fato de não radicalizarmos a transformação da sociedade desde baixo, como sempre defendemos, devido à alegada correlação de forças desfavorável.

O grande problema foi que não priorizamos a transformação da correlação de forças, e assim nos submetermos a ela. Não envolvemos a população no debate sobre projeto de nação, nos esforço para fazer a reforma política, no apelo pela reforma agrária, tributária ou das comunicações, e a narrativa que prosperou foi aos poucos formulada sobre um suposto aumento da corrupção, mais um suposto aparelhamento do estado. Um absurdo, já que estes governo foram que os que mais enfrentaram a corrupção e combateram o aparelhamento estatal.

Há muito o que avaliar sobre o momento que vivemos. Mas uma coisa devemos reafirmar daqui para frente: não percamos as oportunidades de ir à raiz dos problemas expondo os conflitos com objetivos pedagógicos, para que mais e mais pessoas entendam que as classes sociais são uma categoria de analise atual e que o golpe, mais uma vez, é uma ruptura em prol dos interesses dos 1% mais ricos, da classe burguesa, da elite que domina o país desde seu nascedouro como país, e até mesmo antes disso.

Hoje saio do Governo Federal. Não ficarei nenhum dia servindo a um governo ilegítimo. Saio para continuar o trabalho que lá desenvolvia, de educação para a transformação, e para denunciar dia após dia que estamos sofrendo um golpe de estado para restabelecer a normalidade de injustiça social e desigualdade que marcou e ainda marca a história deste pais.

À luta, às ruas! Golpistas, não passarão!!!

Marcel Farah
Educador Popular
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