06 Abr 2015 | domtotal.com

Tributo ao Companheiro Manoel Bahia


Manoel Ramos de Souza, o Bahia, coordenador da Ocupação Vitória.
Manoel Ramos de Souza, o Bahia, coordenador da Ocupação Vitória. (Reprodução/Internet)

Por Gilvander Moreira

Manoel Ramos de Souza, o Bahia, 27 anos: coordenador da Ocupação Vitória em Belo Horizonte e Santa Luzia, MG, dia 31/03/2015, às 15:00h, foi covardemente assassinado. Bahia, pessoa super humana, um herói, um guerreiro, um mártir da luta por moradia própria, digna e adequada. COMPANHEIRO BAHIA, SEMPRE PRESENTE, EM NÓS, NA LUTA! Bahia não morreu, se multiplicou. Bahia não foi sepultado, mas semeado na terra da Ocupação Vitória e na terra baiana de Paulo Afonso ao lado do Velho Chico.

Mais informes, Notas, textos e vídeos com/sobre o Bahia no face da Ocupação Vitória, em www.ocupacaovitoria.blogspot.com.br , www.freigilvander.blogspot.com.br

Tributo n. 1: O RIO SÃO FRANCISCO, EM PAULO AFONSO, NA BAHIA, ABRAÇA O COMPANHEIRO BAHIA!

Por Maria do Rosário de Oliveira Carneiro.

Companheiro Bahia volta para a Bahia. Volta para os braços do Rio São Francisco que banha a cidade de Paulo Afonso, sua terra natal.

Com a alegria que é própria do encontro de conterrâneos, conheci o Bahia na Ocupação-comunidade Vitória, em Belo Horizonte e Santa Luzia, MG. Bahia me contou que era de Paulo Afonso e conversamos sobre muitas coisas da Bahia. Falamos do Rio São Francisco que banha sua cidade, da saudade...

Fomos convivendo e descobri que naquele jovem, que hoje, dia 03 de abril de 2015, completa 27 anos de vida, digo vida porque ele vive, existe uma linda pessoa humana. Solidário, íntegro, ético, companheiro e defensor do povo pobre trabalhador, com uma profunda consciência de classe trabalhadora. Participou de várias lutas, não somente das lutas da Comunidade Vitória, mas das demais ocupações da Izidora, de Belo Horizonte e região metropolitana.

Na véspera de sua morte covarde, nos encontramos em uma reunião à noite na Ocupação Esperança, uma das três Ocupações da Izidora, reunião esta, preparatória para o encontro com o governo de Minas Gerais, no dia seguinte, para as tratativas da Mesa de Negociação sobre as ocupações. Ele estava silencioso, mas ao final pediu a palavra e fez uma grande defesa do povo que espera por uma decisão justa do governo: disse perceber que as famílias da Izidora estão cansadas de promessas, decepcionadas com a proposta apresentada até agora na Mesa de Negociação, pois representa uma forma de despejo. Conclamou às demais lideranças a seguirem lutando. "Nossa fé tem que estar na nossa luta", disse. "Tenho medo que eles estejam nos enganando, o povo está sofrendo. Não podemos aceitar injustiças." Afirmou.

Desde o momento que ficamos sabendo de sua morte, covardemente assassinado, às 15:00h – mesmo horário da crucificação de Jesus Cristo – dia 31/03/2015, temos comungado muita dor. Somos muitos o que sentimos sua partida. Mas experimentamos uma esperança. Carregamos em nós a certeza da semente que cai em terra fecunda, que germina, nasce e produz frutos. 

Pelo sangue de Manoel Bahia que escorreu pela terra da Izidora, em Belo Horizonte e Santa Luzia, fica decretado que as famílias que vivem nas ocupações de Minas Gerais e do Brasil não podem ser despejadas, não podem ser retiradas daquele chão. O Sangue de Bahia é a sentença final transitada em julgado. Não cabe nenhuma decisão em contrário. Cabe o reconhecimento de que aquela terra é sagrada e pertence ao povo que hoje nela vive e lhe possibilita cumprir a função social.

A família de Manoel Bahia solicitou que ele fosse sepultado, melhor dizendo, semeado, em Paulo Afonso, sua terra natal. Bahia não foi sozinho. Foi com ele uma representação da grande família que ele tem nas terras mineiras, terra amiga, terra dos nossos amores, terra companheira e irmã. Um gesto de extremo amor.

Sua despedida na Comunidade Vitória foi a mais bonita mística da vida misturada com a luta por solidariedade, partilha e justiça. Quando seu corpo seguiu rumo à Bahia, eu me lembrei de nossa conversa cheia de saudades no dia que nos conhecemos. Lembrei-me do Rio São Francisco, do axé daquela gente simples e feliz. Senti, no fundo do coração, o Rio São Francisco abraçando e acolhendo o Bahia. Bahia volta para a Bahia, volta para o Rio que também sente saudades... Nós seguiremos firmes na luta. Bahia, muito mais vivo você vive em nós! Obrigada pelo seu testemunho, pela sua doação. Honraremos seu nome!

Maria do Rosário Carneiro. 
Belo Horizonte, MG, Brasil, dia 03 de abril de 2015, aniversário do companheiro Bahia, 27 anos. COMPANHEIRO BAIA, SEMPRE PRESENTE, EM NOS, NA LUTA!

Gilvander Moreira
é frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.
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