09 Mai 2015 | domtotal.com

Torna-te aquilo que tu és

A coragem está estritamente ligada a nossa vida pública. Não somos algo estritamente privado.

Um dos maiores desafios da nossa existência é saber quem somos.
Um dos maiores desafios da nossa existência é saber quem somos. (Divulgação)

Por Rafael B. Barbosa

Um dos maiores desafios da nossa existência é saber quem somos. A filosofia, em grande parte, dedicou-se ao esforço de apreender algo sobre nossa existência. A pergunta, quem somos? faz parte do sistema de muitos filósofos tanto antigo como contemporâneos. Na tentativa de pensar um pouco o modo pelo qual podemos responder a esta pergunta, gostaríamos de refletir a partir da frase do poeta grego Píndaro na qual ele diz, “torna-te aquilo que tu és”.

Este ‘imperativo' já fora analisado por muitos filósofos ao longo dos séculos, dentre os quais, o alemão F. Nietzsche se destaca. Contudo, a frase continua a nos interpelar e, hoje, ainda nos exige uma análise de seu significado. É isto que tentaremos esboçar, entretanto, faremos isso livremente, olhando para nós e tentando articular algumas palavras em torno da frase de Píndaro.

Podemos dizer que há uma máxima no verso do poeta lírico ao tomá-la como uma exigência para 'ser aquilo que somos’. Ao mesmo tempo, a frase não sugere definição alguma sobre o que devemos ser. O 'aquilo que somos’' é um acontecimento que se realiza à medida que vivemos e, estaria justamente aí, sua dificuldade de aplicabilidade. Como tornar aquilo que somos se não sabemos, de saída, quem somos?

Conhecemo-nos meio que confusamente, dizendo o que somos por aproximação de algumas coisas que fazemos, gostamos, possuímos. Quando dizemos o que somos sentimos a limitação daquilo que dizemos. Temos a impressão de que algo falta a dizer sobre nós mesmos. Sentimos por dentro o que estamos falando por fora. Parece que um desencontro se instala entre o que sentimos de nós e o que estamos dizendo. A palavra não nos define, mas sem ela não expressamos quem somos. Nesse sentido,  somos algo que nunca damos conta de dizer efetivamente. Com isso, abre-se uma lacuna naquilo que somos, uma vez que, um vazio se instala em nossa experiência.

Quando conseguimos conhecer algo de nós,  quase nunca conhecemos de modo claro e translúcido como o cristal. Mas o conhecimento é algo mais fosco, embaçado, próximo ao esboço dos artistas. Uma espécie de rascunho que antes do artista colocar o projeto em cores e perspectivas, ensaia uma visualização possível.

Porém, esse conhecimento parco e contingente sobre nós mesmos não nos impossibilita de dizer algo sobre nós. Apenas, coloca tudo o que dizemos no âmbito do provisório e inacabado. Coloca-nos na insuficiência.  Faz com que a nossa compreensão  seja mais elaborada a partir das vias intuitivas, que vivemos, do que das vias intelectivas, que sistematizamos.

Se, de fato, somos esse acontecimento contínuo que inviabiliza qualquer definição total, não no sentido de que sobre nós não podemos dizer nada, mas no sentido que faz com que toda definição seja provisória e contigente, afirmamos que nunca estamos suficientemente terminados para dizer que somos isso ou aquilo. Tornar aquilo que somos não significa cumprir um destino, tampouco realizar uma meta estabelecida. Mas, construir-se em nossa realidade. Desse modo, “tornar aquilo que é” nos exige dois traços fundamentais, coragem e fina escuta.

A coragem está estritamente ligada a nossa vida pública. Não somos algo estritamente privado. O que somos acontece e se realiza em sociedade. Aquilo que dizemos sobre nós deve encontrar um mínimo de respaldo na sociedade que vivemos, caso contrário seria impossível viver nela.

Se de um lado temos um movimento que parte de nós, daquilo que entendemos ser para a cultura, por outro lado, há um movimento contrário, a cultura tende a dizer o que somos. A coragem estaria nesse liame entre aquilo que somos e o que se espera que sejamos.

Assumir a vida que se realiza em nós, provisoriamente e precariamente, exige coragem para nos posicionarmos diante de um mundo que pode esperar outra coisa de nós. A coragem não seria a capacidade de enfrentar todas as outras verdades que a cultura possui em detrimento da verdade de quem somos. Ao contrário, ela seria nossa condição de apresentarmos publicamente o que somos, mesmo sem certeza sobre o que realmente somos. A coragem sustenta a ousadia de sermos nós mesmos. Essa simplicidade que  nos possibilita dizer, sou assim.

Se do nosso lado, precisamos de coragem para realizarmos o que somos à medida que vivemos, na cultura há que se desenvolver a hospitalidade. É preciso construir uma sociedade que seja capaz de acolher a diferença entre os diversos modos de ser. Ainda mais, uma cultura que me permite dizer quem sou, ou ainda, quem posso vir a ser.

Por ora, vivemos o oposto com as determinações heteronormativas, classicistas, entre outras incidências sociais que justificam a legitimidade de uma existência.  Com isso, queremos dizer que hoje, nossa sociedade favorece às existências que se coadunam com aquilo que ela acredita ser uma vida de verdade, como por exemplo, ser bem sucedido, ter uma profissão x ou y, ser bonito, ser saudável, o casamento entre homem e a mulher, etc. Diante deste cenário, para a vida se realizar como ela se mostra é preciso ousadia. Afinal, as manifestações diferentes do socialmente estabelecido, tornam-se marginalizadas. Em nossa sociedade a frase de Píndaro seria, mais ou menos, assim, “torna-te aquilo quem tu és desde que seja homem, mulher, branco, bem sucedido, casado, tenha cabelo liso.”

Outro fator desencadeado pelo poeta é a capacidade de nos fazermos na escuta de nós mesmo. Nossa compreensão sobre quem somos nem sempre resulta da investigação intelectual sobre nós. Geralmente, nascemos quando nos escutamos. Trazemos a audição como condição fundamental para a realização daquilo que somos, uma vez que, costumamos renegar os sentidos em detrimento da investigação racional do que somos. Evocar a audição é assegurar um testemunho daquilo que me invade antes de qualquer tematização possível. Na escuta, somos testemunhas de nós mesmos. Desse modo, podemos dizer que, a escuta de si inverte nossa posição no mundo ao nos colocar como aquele que se diz a partir do acolhimento de si. Quer dizer, não somos o imperativo que visa a si mesmo, mas aquele que atesta o que em nós acontece. Nessa escuta somos vibrados internamente. Descobrimos movimentos que nos interpelam, outros que nos causam repulsa e outros ainda que nos despertam interesse e desejo.

Nossa resposta ao que somos não é uma realização de uma existência dada previamente, mas uma descoberta. Tornar aquilo que somos é uma aventura humana, na qual nos descobrimos e nos recobrimos a cada vivência. Se há uma necessidade de nos tornarmos algo pode ser porque, de partida, não sabemos o que somos e esse algo precisa ver à luz. Existimos numa zona anterior a qualquer significação possível. Trazer o que somos à superfície da cultura, da narração, da consciência é um trabalho mais aos moldes do artista que do cientista. Como que buscar um modo de dar visibilidade ao que sustenta toda a vida silenciosa que somos.

O artista, geralmente, tem uma intuição inicial, mas no desenvolvimento de sua obra o sentido e o significado estão acontecendo. Ao final, ele se torna ao mesmo tempo autor e expectador. A obra feita é fonte de sentido e significado no mundo. Ela introduz no mundo já determinado um nova maneira de apreendê-lo. Nossa vida acontece como obra de arte na medida em que dela somos seus artífices e expectadores.

A frase de Píndaro se torna altamente profética hoje em dia. Ser aquilo que somos, na coragem e escuta de si, aparece como uma transgressão em um mundo onde as ‘identidades’ já estão dadas a priori e nos forçam a segui-las, como um modelo a ser cumprido. É preciso abandonar esse aporte primeiro da identidade para nos fazermos na aventura do inacabado. Talvez, essa condição de abandono ao contínuo movimento do  vir a ser, “tornar-se”, pode ser a chave daquilo que chamamos realização humana.                    

Rafael B. Barbosa
Doutorando em filosofia contemporânea na École Normale Supérieur (ENS- Paris) e Paris Science et Lettres (PSL), Paris, França.
+ Artigos
Comentários

Instituições Conveniadas