29 Out 2017 | domtotal.com

Vale a pena armar a sociedade?

No Brasil, o número de mortes por armas de fogo, atualmente, é próximo a índices de cenários de guerra.

Já passei por diversas situações de violência: assalto, furto e sequestro relâmpago.
Já passei por diversas situações de violência: assalto, furto e sequestro relâmpago. (Reprodução)

Por Nany Mata

Qual foi seu contato mais próximo a uma arma? Meu pai era militar - engenheiro, mas tinha que andar armado mesmo assim - e acostumei com o fato de ter uma arma em casa. Na realidade, as poucas vezes que vi o revólver fora da cintura dele foram quando ele o guardava naquela maletinha preta, a sete chaves.

Anos após a cena se repetir, perguntei “pai, porque você faz tanta questão de escondê-la?”. “Não gosto de ter que usá-la, na verdade, se pudesse, não teria uma”, disse. Em um primeiro momento, no auge da minha adolescência, estranhei um pouco porque sentia certa segurança quando estava ao lado dele em posse da arma. “Você já atirou em alguém?”. Ele respondeu - orgulhoso - que não. Me contou um pouco sobre os treinamentos de quando era mais jovem e frisou que nunca tinha pensado em atuar na rua e sentia certa tranquilidade por não ter enfrentado nenhuma guerra - o que poderia obrigá-lo a trabalhar em campo.

Acredito que seja daí meu sentimento de que arma não traz segurança, ao contrário, pode representar insegurança. Como já relatado em outras colunas, já passei por diversas situações de violência: assalto, furto e sequestro relâmpago (que pareceu durar uma eternidade). Será que se eu tivesse uma arma em mãos os prejuízos teriam sido reduzidos?

Contra números não há argumentos

Acredito piamente no oposto; talvez eu só esteja viva para escrever essa coluna porque nunca reagi. Para usar arma, precisamos de preparação psicológica e física e isso não vem não vem no manual do produto. Em artigo publicado na Gazeta do Povo, o advogado Luiz Fernando Valladão resume bem essa ideia, “enfrentar e vencer quem é veterano no crime são dificuldades até de policiais e militares treinados, quem dirá de civis”, comenta.

Valladão ainda aponta dados que corroboram o fato de que armar a população não é a melhor alternativa, ao comparar Estados Unidos e Japão.

“Os Estados Unidos registraram um tiroteio em massa por dia do ano – índice mais alto entre as nações desenvolvidas. Só em 2014 foram registrados quase 34 mil crimes cometidos com armas de fogo no país. No mesmo período, no Japão, a taxa foi de seis, uma das menores do mundo. Para se comprar uma arma no país asiático, é preciso passar por horas de aula e realizar testes escritos e de tiro ao alvo, com 95% de aproveitamento. É obrigatório também ser aprovado em exames psicológico e antidoping. Devem ser conferidos, ainda, eventuais antecedentes criminais e ligações com grupos extremistas – do comprador, de amigos, familiares e até de colegas de trabalho. E a lei também é rigorosa com quem vende armamento.”

No Brasil, o número de mortes por armas de fogo, atualmente, é próximo a índices de cenários de guerra. Em 2015, foram quase 42 mil pessoas executadas a tiros. Enquanto isso, uma enquete no site do Senado mostra que quase 90% da população brasileira deseja que o Estatuto do desarmamento seja revogado. E o projeto segue na Casa, com grandes chances de passar.

A queda do Estatuto, que representaria o armamento da população, me parece um tiro no pé - além de aumento expressivo de tiros literais - que vai provocar o aumento da violência, já tão grave, no nosso país. Não dá para armar indivíduos que não sabem manusear sequer seus próprios direitos.

Nany Mata
Jornalista, especialista em Comunicação Corporativa e Inbound Marketing. Acredita nos Direitos Humanos, na luta feminista e LGBT. Não se acanha em ser acusada de defensora de bandidos ou utópica. Trabalhou e é voluntária da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), entidade sem fins lucrativos que visa a humanização no cumprimento da pena e a ressocialização de indivíduos que cometeram delitos.
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