06 Set 2018 | domtotal.com

Adeus, Luzia!

Mais importante do que punir os negligentes, imprudentes e que agiram com falta de perícia no trato do acervo do museu.

O crânio de Luzia é referência para identificar os processos migratórios da humanidade na Pré-História.
O crânio de Luzia é referência para identificar os processos migratórios da humanidade na Pré-História. (Reprodução)

Por Wagner Dias Ferreira

Adeus, Luzia. Perdoe o descaso. Siga mais forte, agora na alma e no inconsciente coletivo do povo brasileiro.

Luzia me foi apresentada nos bancos de escola. O crânio humano mais antigo das américas. Encontrado na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. Permaneceu por cerca de 10.000 anos protegido pelo ambiente de grutas e pela natureza de Minas Gerais. Agora, destruído pelo homem moderno. Os civilizados, evoluídos não destruíram a mulher negra forte e resistente, aquela que lutou e existiu por milênios.

Em menos de 200 anos, depois de ser retirada do local onde foi encontrada, agora é cinza. Antes permanecesse deixada aos cuidados da natureza que foi muito mais preservadora do que a humanidade. Que se cuide o planeta Terra, Marte e o próprio sol. O homem está chegando.

O crânio de Luzia é referência para identificar os processos migratórios da humanidade na Pré-História, sendo um crânio negroide, demonstra que ela pertenceu a processos migratórios africanos que permitiram ao homo sapiens negro povoar o mundo.

Central também para entender o racismo no inconsciente coletivo humano. É que o primeiro grande processo migratório dos homo sapiens negroides provavelmente implantou povoamentos negroides em todo o mundo. Posteriormente os processos migratórios de populações não negroides promoveram o enfrentamento dessas primeiras populações para se instalarem.  Nascendo aí um primeiro sentimento racista.

Em Minas, na cidade de Barão de Cocais, é possível encontrar o monumento da Pedra Pintada com excelentes pinturas rupestres, muito bem preservadas, e observar o local ver como aquelas populações negroides viviam (as pinturas da Pedra Pintada têm idade semelhante ao crânio da Luzia).

No Brasil, quando se visita o Museu Arqueológico de Xingó, lá onde está a Hidrelétrica, em Sergipe, observam-se elementos de populações não negroides, já mais parecidos com os índios brasileiros encontrados, nas suas diversas nações, no tempo das invasões europeias protagonizadas por portugueses, espanhóis, holandeses e franceses. Mostrando como as migrações não negroides foram chegando em seguida àquelas que as precederam.

Estas duas constatações em Minas Gerais e em Sergipe demonstram como o Brasil é importantíssimo no estabelecimento das dinâmicas das migrações pré-históricas que povoaram o mundo, inclusive na teoria da transposição para as Américas pelo estreito de Berhing, primeiro as populações negroides, depois as populações não negroides.

Essa superficial constatação demonstra o peso da perda que o mundo e a humanidade sofreram com o incêndio do Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro.

Observem que está referido aqui, superficialmente, apenas os tópicos pré-históricos brasileiros. Ao se avaliar todo o acervo perdido a única palavra que pode aproximar o sentimento de perda é incomensurável.

Mais importante do que punir os negligentes, imprudentes e que agiram com falta de perícia no trato do acervo do museu é imediatamente estabelecer a prevenção de novos eventos dessa natureza.

Minas Gerais está cheia de monumentos históricos pré-históricos, pré-coloniais, coloniais, imperiais e já republicanos que precisam de imediata atenção do povo, que precisa preservar sua história para não perder sua identidade.

Certa feita, ao atuar em um processo judicial (1991), foi necessário pleitear uma certidão de nascimento em uma cidade do interior de Minas Gerais. A resposta do cartório fora que os documentos da época haviam se perdido em um incêndio durante os combates entre Minas e São Paulo na Revolução de 30. Ao oficiar a Paróquia da cidade para pleitear o Batistério da pessoa, a igreja prestou a mesma informação. Então, o Brasil precisa superar a cultura de tolerar as perdas provocadas por incêndios. Isso não pode ser comum ou normal.

Urge promover uma intensa interação e integração do povo com o patrimônio histórico para que isso cause aos governantes o constrangimento necessário a uma permanente ação de preservação desses elementos que compõem a identidade, presente no inconsciente coletivo do povo brasileiro. 

Wagner Dias Ferreira
Advogado e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MG
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