13 Dez 2018 | domtotal.com

Alívio e apreensão frente às futuras políticas públicas

Tais descuidos apontam para a necessidade de que o futuro presidente inclua em sua equipe experientes assessores   para assuntos internacionais.

Não posso deixar de observar que foi, no mínimo, deselegante a resposta de Paulo Guedes à jornalista argentina de que o MERCOSUL não é uma prioridade
Não posso deixar de observar que foi, no mínimo, deselegante a resposta de Paulo Guedes à jornalista argentina de que o MERCOSUL não é uma prioridade (Daniel Ramalho/AFP)

Por Flávio Saliba

Alívio? Talvez seja o que os brasileiros sintam neste momento. Lá se vão pelo menos cinco anos de sufoco entre as grandes manifestações de rua, o impeachment da “presidenta” e o ódio destilado nas últimas eleições. Ninguém merece. 

Meus temores ficam por conta de medidas polêmicas que venham a ser tomadas pelo novo governo e a inconformidade de parcelas mais inquietas das forças políticas derrotadas. Na verdade não houve um vencedor e, sim, vencedores que depositaram nas urnas um baita não às velhas oligarquias e a seus aliados dos últimos anos. Estes saem da historia menores do que entraram.

É cedo para emitir juízos sobre o futuro governo, mas é possível identificar em sua equipe discordâncias sobre temas como a reforma da Previdência: ao futuro ministro da Economia  parece agradar a ideia de que esta seja votada ainda no governo Temer, enquanto o futuro ministro chefe da Casa Civil propõe sua reformulação e aprovação após a posse do presidente eleito.

Esta última perspectiva me cheira à vaidade que costuma acometer recém-eleitos desejosos de tudo refazer, sobrecarregando e, com frequência, inviabilizando a agenda de reformas urgentes.  

Sempre critiquei o isolacionismo e o acentuado conteúdo ideológico da política externa brasileira, mas não posso deixar de observar que foi, no mínimo, deselegante a resposta de Paulo Guedes à jornalista argentina de que o MERCOSUL não é uma prioridade. Não custa lembrar que o país vizinho, a Argentina, é o nosso terceiro maior parceiro comercial e o principal importador de produtos industriais brasileiros. Lembrei-me das palavras do ex-presidente Lula que ao ser indagado sobre a formação de um bloco econômico nas Américas respondeu que a ALCA, a Aliança de Livre Comércio das Américas, já havia nascido morta.

Tais descuidos apontam para a necessidade de que o futuro presidente inclua em sua equipe experientes assessores para assuntos internacionais. Vislumbro alguns nomes de velhos jornalistas que viveram em várias partes do mundo cobrindo guerras, estudando geopolítica e se inteirando dos mais diversos costumes e idiossincrasias regionais. Basta abrir o leque de   opções para identificar, fora do círculo imediato do poder, nomes que prestariam bons serviços à política externa brasileira. 

É, também, preocupante a anunciada fusão dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Isto equivale a colocar a raposa para tomar conta do galinheiro. A minúscula Holanda é o segundo maior exportador de produtos agroindustriais do mundo, o que comprova que a nossa agropecuária não carece de mais desmatamento e, sim, do aumento da produtividade e da incorporação de maior valor agregado aos seus produtos de exportação.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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