20 Dez 2018 | domtotal.com

A globalização e a política externa brasileira

Cabe à nação brasileira se esforçar para tirar o máximo proveito das oportunidades que a economia globalizada oferece.

A crítica à globalização é, hoje, uma das bandeiras de correntes mais extremadas da direita
A crítica à globalização é, hoje, uma das bandeiras de correntes mais extremadas da direita (Pixabay)

Por Flávio Saliba

Apesar dos monumentais problemas econômicos a serem enfrentados pelo futuro governo, creio haver razões para algum otimismo. Entre elas destacam-se os nomes até agora anunciados para comandar alguns ministérios. Cumprindo promessas de campanha o futuro presidente procura cercar-se de técnicos qualificados em todas as áreas, esquivando-se de indicações políticas que venham de fora do seu círculo de apoiadores de primeira hora.  Mesmo mantendo-se fiel a suas convicções, Bolsonaro parece disposto a dialogar e a fazer os necessários ajustes nas medidas anunciadas em campanha. As indicações de caráter mais claramente ideológico para o primeiro escalão são as dos ministros da Educação e das Relações Exteriores.

Quanto a esta última temo que ele tenha exagerado na dose e explico-me.  Há tempos venho insistindo que a política externa brasileira assumiu caráter francamente terceiro mundista, afastando o país dos mercados e das práticas democráticas ocidentais. Não à toa, em seu “Choque de Civilizações”, de 1996, Samuel Huntington se indaga se países como o Brasil fariam parte integral da civilização ocidental. Paradoxalmente, o processo de globalização, associado a políticas internas e externas erráticas, contribuiu para a crescente marginalização econômica, política e tecnológica do Brasil. Basta consultar a literatura especializada para constatar que a esquerda brasileira sempre se mostrou contrária à globalização.

Paradoxalmente também, a crítica à globalização é, hoje, uma das bandeiras de correntes mais extremadas da direita, seja devido à pregação isolacionista de Donald Trump, seja devido à visão conspiratória de que os males do mundo globalizado decorrem de orquestrada façanha do comunismo internacional. Ora, é um equívoco ser contra ou a favor da globalização posto que este fenômeno não é produto de ideologias. Trata-se de um processo estrutural (e sabemos que estruturas não se transformam facilmente) associado à fase avançada do capitalismo, cuja lógica, impulsionada pela celeridade dos avanços tecnológicos, é a da contínua ampliação dos lucros e dos mercados. Cabe à nação brasileira se esforçar para tirar o máximo proveito das oportunidades que a economia globalizada oferece, precavendo-se de seus efeitos perversos, tais como o do desemprego em massa da mão de obra não qualificada, o da violência individual e coletiva e o do crescente poder do crime organizado. Estes tendem a proliferar nas sociedades que não lograram integrar-se vantajosamente na nova divisão internacional do trabalho, mantendo-se como meras fornecedoras de matérias primas.

O delineamento de uma política externa consequente, além do desejável alinhamento com as democracias ocidentais, notadamente com os Estados Unidos, depende de uma infinidade de variáveis econômicas e geopolíticas que desaconselham o mimetismo retórico do atual governante da maior potência econômica e militar do planeta.

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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