10 Jan 2019 | domtotal.com

Mudança de paradigma

Bolsonaro precisa descer do palanque e evitar o confronto aberto com os críticos do seu governo.

Nunca antes na história deste país uma primeira-dama discursou na posse do marido.
Nunca antes na história deste país uma primeira-dama discursou na posse do marido. (Marcelo Camargo/Ag. Brasil)

Por Jorge Fernando dos Santos

A posse do presidente Jair Bolsonaro, no primeiro dia do ano, emocionou o público e revelou uma mudança de paradigma na política nacional – a começar pelo ministério eminentemente técnico. Por mais que a oposição critique, o fato é que a cerimônia foi um espetáculo cívico como há muito não se via em Brasília.

A quebra de protocolo foi com certeza o ponto máximo da solenidade. Nunca antes na história deste país uma primeira-dama tinha discursado na posse do marido. Mais que isso, Michelle de Paula falou antes do presidente e reafirmou seu compromisso com os deficientes, começando pelos surdos-mudos.

Como era de se esperar, as más línguas disseram que a fala da primeira-dama teve como objetivo desfazer a imagem machista do marido. Até mesmo a presença no parlatório de um intérprete de libras negro e de rabo-de-cavalo foi considerada por alguns como jogada de marketing.

A repercussão da posse e a simplicidade do casal Bolsonaro contrariaram as expectativas da esquerda, que numa atitude infantil e antidemocrática boicotou a cerimônia. Por outro lado, o presidente recebeu com simpatia os cumprimentos de colegas socialistas, como o boliviano Evo Morales, o uruguaio Tabaré Vásquez e o português Marcelo Rebelo de Sousa.

O conservador Benjamin Netanyahu, premiê israelense, foi o chefe de estado mais aplaudido pela multidão. A grande mídia não registrou, mas ao sair do carro oficial ele foi ovacionado aos gritos de “Israel, Israel” e tentou caminhar ao encontro do público, sendo dissuadido pelos seguranças.

Sem tempo a perder

Outra coisa que saltou aos olhos na cerimônia de posse foi a caneta Bic com a qual Bolsonaro e seus ministros assinaram os termos de posse. O efeito junto à opinião pública foi o mesmo provocado pelo relógio de plástico usado por ele na campanha eleitoral – que, aliás, foi a mais barata da história.

A esquerda, obviamente, criticou a caneta e o relógio, bem como a presença do filho Carlos no carro oficial. Esqueceu-se que Paula Rousseff, filha da ex-presidente Dilma, fez o mesmo na posse da mãe. Tudo isso são bobagens, que nada acrescentam ao contexto. Resistir a um governo eleito e em começo de mandato é prova de imaturidade política.

Bolsonaro, por sua vez, precisa amadurecer no exercício do poder. Ao discursar para o povo, ele pecou por declarar o fim do socialismo no Brasil. O sistema democrático que o elegeu e que ele jurou respeitar garante a todos a liberdade de pensamento. O fato de o governo ser de direita não pressupõe que toda a população o seja ou tenha que concordar com ele.

Em outras palavras, Bolsonaro precisa descer do palanque e evitar o confronto aberto com os críticos do seu governo. Seria um erro lamentável adotar a mesma postura de Lula, que exerceu dois mandatos atacando a oposição como se estivesse em campanha. É ainda mais urgente falar menos e fazer mais. O Brasil não tem tempo a perder.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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