12 Jan 2019 | domtotal.com

Batismo da mãe Terra

Precisamos cuidar da vida com a mesma ternura que uma mãe vela por seu filho ou filha doente.

A Terra, a água e a natureza não podem ser reduzidas a meras mercadorias.
A Terra, a água e a natureza não podem ser reduzidas a meras mercadorias. (Pixabay)

Por Marcelo Barros

Nesse domingo 13 de janeiro, as Igrejas de tradição latina e também as orientais encerraram o ciclo litúrgico do Natal, festejando a memória do batismo de Jesus. Em muitas regiões do mundo, nos primeiros dias do ano, as pessoas buscam entrar no mar ou banhar-se em um rio como rito de purificação para o ano novo. Grupos espirituais e comunidades tradicionais realizam ritos de purificação pela água, pelo ar e pelo fogo, elementos comuns da mãe Terra, sem os quais a vida não existiria ou não seria a mesma.

O rito original do batismo (em grego, o termo significa mergulho), feito pelo profeta João Batista no rio Jordão, significava um compromisso de purificação e renovação de vida. O batismo era um desses ritos de renascimento, no qual somos convidados/as a sermos parte da Terra. Ao nos unirmos à água, primeiro elemento da vida, assumimos o compromisso de nunca nos distanciarmos da Terra a qual pertencemos. O próprio Jesus, ao assumir o batismo no Jordão, fez esse sinal de se unir à terra e à água para ser profeta do reino divino que vem ao mundo. Então, não podemos permitir que a ambição humana continue a contaminar a flora, a fauna e o mundo mineral.  A Terra, a água e a natureza não podem ser reduzidas a meras mercadorias.

Precisamos cuidar da vida com a mesma ternura que uma mãe vela por seu filho ou filha doente. Nosso planeta é mais do que apenas uma bola imensa que gira ao redor do sol. É um organismo vivo dentro do conjunto do sistema solar. Sua diversidade é comparável ao equilíbrio que há entre os órgãos de nosso corpo, diversidade e equilíbrio indispensáveis para que possamos viver.

Todos nós desejamos um futuro melhor para a humanidade e para o planeta Terra, tão ameaçado pela crise ecológica. Entretanto, para que nossos votos possam ser eficazes, é importante que o nosso desejo se concretize em ações de solidariedade que levem a uma nova organização da sociedade. Nossos desejos de um futuro melhor devem se concretizar no apoio aos movimentos populares e fóruns que trabalham por um novo mundo possível.  Toda a humanidade se encontra envolvida em uma crise  que atinge as bases do sistema social e econômico dominante. Essa situação joga as novas gerações em uma situação deprimente de insegurança e desemprego estrutural e ameaça destruir até as próprias condições da vida no planeta Terra.

A partir dessa semana, muitas pessoas voltam ao seu ritmo habitual da vida e do trabalho. A Agenda latino-americana desse ano de 2019 é dedicada às “grandes causas no pequeno”. De fato, temos que redescobrir que as Grandes Causas estão também comprometidas nesse imenso âmbito do “pequeno” do nosso dia a dia, do pessoal-privado, da intimidade, do familiar, das amizades, da nossa casa, do entretenimento, do ócio... Em tudo o que vivemos, mergulhemos na comunhão com a Mãe Terra, nos sintamos unidos/as a toda a humanidade e todos os seres vivos. Assim, em nós, se atualizam o batismo de Jesus, o mergulho místico de todas as pessoas que são nossos mestres e mestras em todas as religiões e o batismo da Mãe-Terra.

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).
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