27 Jan 2019 | domtotal.com

Você já sentiu medo?

Muitos discutiam em 2018 se deveriam lutar por seus direitos ou se calar para permanecer vivo.

Voltamos a um período em que precisamos pensar em exílio como opção para vivermos por inteiro.
Voltamos a um período em que precisamos pensar em exílio como opção para vivermos por inteiro. (Rawpixel/ Unsplash)

Por Nany Mata

Você já sentiu medo? Mas medo mesmo, de verdade. Medo que te fez atravessar a rua porque um cara fazia um olhar ameaçador para você. Medo de vestir a roupa que você queria e voltar para casa agredido, ou nem voltar. Medo daqueles que te obrigam a mudar sua forma de agir para se manter vivo.

Exagero, muitos dizem. Exagero, insistem pessoas das quais você espera proteção. Não entenderam nada.

Em 2018, esse medo tomou conta de mim e de muitas pessoas próximas. A gente discutia se deveria lutar por nossos direitos ou se calar para permanecer vivo. Lutar até morrer para não morrer sem lutar.

Parecia distante, parecia impossível, mas o maior medo foi ampliado pelo resultado das eleições. O Brasil já estava no pódio dos países que mais matam LGBTs no mundo e os números cresceram ainda mais nos últimos meses.

Falta humanidade

A culpa? É de uma sociedade que prefere a hipocrisia a vidas humanas. A culpa? É sua que insiste em ignorar os dados e dizer que é exagero. A culpa? É de quem deu poderes a quem acredita que LGBTs não deveriam existir. Pois saiba que a gente existe e não se trata de uma escolha. E, por mais que vocês queiram, não temos vergonha, mas orgulho.

Mas temos medo. Mesmo com medo, muitos lutam. Marielle foi assassinada por isso. O deputado Jean Wyllys se viu obrigado a não só atravessar a rua, mas se mudar de país, desistir de sua própria vida para viver por inteiro, como ele mesmo escreveu em sua carta de despedida.

O país não foi capaz de garantir a segurança e condições básicas para que ele pudesse exercer suas funções, afirmou a advogada chilena Antonia Urrejola Noguera, relatora especial do Brasil na Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

A comissão já havia decretado uma medida cautelar para que o Estado tomasse medidas de proteção ao deputado. Mas em um país em que Direitos Humanos são mal vistos, como o nosso, a gente já não espera humanidade.

Jean se exilou por medo. Ele, obviamente muito mais exposto por cada um de nós, por ser uma pessoa pública que vinha nos representando muito bem no legislativo - ao ter a rara atitude de cumprir promessas de campanha, coisa que políticos brasileiros só têm feito para o mal.

Depois de um período de progresso, em que, apesar da LGBTfobia ainda conseguíamos viver por inteiro, voltamos a um período em que precisamos pensar em exílio como opção para vivermos por inteiro. Seguimos escolhendo que roupa usar e como se portar, cumprindo uma pena que não deveria ser nossa.

Nós ficaremos aqui, com medo. 

Nany Mata
Jornalista, especialista em Comunicação Corporativa e Inbound Marketing. Acredita nos Direitos Humanos, na luta feminista e LGBT. Não se acanha em ser acusada de defensora de bandidos ou utópica. Trabalhou e é voluntária da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), entidade sem fins lucrativos que visa a humanização no cumprimento da pena e a ressocialização de indivíduos que cometeram delitos.
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