31 Jan 2019 | domtotal.com

Metáfora do mar de lama

Dilma e Pimentel têm que ser responsabilizados, não há dúvida. Ambos ajudaram as empresas a deixar tudo como estava.

A exemplo do ocorrido em Mariana, o rompimento da Barragem do Feijão, em Brumadinho, foi um crime de (ir)responsabilidade.
A exemplo do ocorrido em Mariana, o rompimento da Barragem do Feijão, em Brumadinho, foi um crime de (ir)responsabilidade. (Douglas Magno / AFP)

Por Jorge Fernando dos Santos

Não há muito o que dizer sobre a tragédia ocorrida em Brumadinho, no sábado passado (26/01). A comoção nacional já disse tudo. Ou quase tudo! Mas, por mais que se diga, é preciso gritar aos quatro ventos: NÃO FOI UM ACIDENTE, FOI CRIME!

Acidentes acontecem sem que se possa culpar alguém, a não ser o acaso ou o destino. Já os crimes, esses ocorrem deliberadamente ou por negligência. Se um pneu estoura numa curva e o carro atropela alguém, isso pode ser considerado acidente. Se um motorista dirige alcoolizado e atropela alguém, isso é crime culposo.

A exemplo do ocorrido em Mariana, o rompimento da Barragem do Feijão, em Brumadinho, foi um crime de (ir)responsabilidade. Duas tragédias que poderiam ter sido evitadas pela Vale-Samarco. A lama desses desastres é a metáfora do mar de lama que tomou conta do país nos últimos anos.

No episódio de Mariana, a nação se revoltou e se comoveu, menos a Justiça e os poderes constituídos. As indenizações às vítimas e a punição dos possíveis culpados foram empurradas com a barriga, enquanto os governos simplesmente autorizaram as mineradoras a persistirem no erro.

Acordo benéfico

Dilma e Pimentel têm que ser responsabilizados, não há dúvida. Ambos ajudaram as empresas a deixar tudo como estava. Não só eles, mas também parlamentares, que atropelaram o compromisso com os eleitores em função do interesse de alguns.

Por sinal, o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, que investigou o desastre de Mariana, acusa Dilma Rousseff de assinar acordo com a Vale, a Samarco e a BHP “extremamente benéfico às empresas”. Ela simplesmente decretou que rompimentos e colapsos de barragens devem ser considerados “desastres naturais”.

No caso de Brumadinho, o absurdo foi tão grande que tiveram a brilhante ideia de instalar um refeitório logo abaixo da barragem, o que só fez aumentar o número de mortos. Crime no mínimo culposo, pois os operários ficaram presos numa verdadeira arapuca.

Proveito político

Num momento de tanta dor, esquerdopatas de plantão postam mensagens nas redes sociais dizendo que “foi bem feito” para a população de Brumadinho, cuja maioria votou em Bolsonaro. O presidente deu o troco, sobrevoando o local e determinando ajuda imediata às vítimas. Enviou homens das Forças Armadas e conseguiu ajuda até de Israel.

Alguns tentam culpá-lo e também ao governador Zema pela tragédia. Outros não se furtam a criticar os liberais, defensores da privatização, já que o capitalismo seria a causa de todos os males. Essa gente se esquece de que o maior acidente nuclear da história ocorreu em Chernobil, na Ucrânia, em 1986, ainda sob o regime soviético.

Bom lembrar que, onze anos após a privatização parcial da Vale pelo governo FHC, o BNDES retomou o controle da empresa ao recomprar 1,5 bilhão em ações com recursos dos fundos de pensão. Em 2009, por meio da Litel, holding criada no governo Lula, o Estado assumiu o controle da Valepar (extinta em 2017) e obteve 49% das ações da Vale.

Presidente da Vale entre 2002 e 2011, Roger Agnelli foi demitido por resistir a pressões do governo petista. Ao deixar o cargo, enviou uma carta à presidente Dilma denunciando irregularidades na empresa. Ele morreria cinco anos depois, num acidente aéreo, sem que o caso fosse investigado.

Oxalá os novos governos tirem uma lição das tragédias de Mariana e Brumadinho. Afinal, engenheiros e ambientalistas já alertaram para o risco de rompimento de novas barragens da Vale-Samarco. Em outras palavras, Bolsonaro e Zema precisam mudar a postura diante do meio ambiente – em favor da vida humana e da natureza.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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