21 Fev 2019 | domtotal.com

A imprensa e o poder

Se o governo é a vidraça, a imprensa deve ser a pedra. É bom os bolsonaristas já irem se acostumando.

Além de informar o público, é papel da mídia fiscalizar e questionar o poder.
Além de informar o público, é papel da mídia fiscalizar e questionar o poder. (Pixabay)

Por Jorge Fernando dos Santos

No período em que esteve no poder, o PT e seus militantes passaram boa parte do tempo reclamando da “mídia golpista”. Chegaram a fazer manifestações contra a Rede Globo, ameaçando instituir no país o “controle social da mídia” – eufemismo para censura.

Durante o curto mandato de Michel Temer, a imprensa bateu forte no presidente e em seus aliados, denunciando falcatruas que envolveriam diretamente a cúpula emedebista. Temer não caiu, mas teve a reputação colocada em xeque graças à mesma imprensa que teria apoiado o “golpe” contra Dilma.

Agora quem reclama são os bolsonaristas, muitos dos quais consideram a Globo e a Folha de S. Paulo veículos de esquerda. Isso não deixa de ser um bom sinal. Além de informar o público, é papel da mídia fiscalizar e questionar o poder. Mesmo que não seja plenamente alcançada, a imparcialidade é a meta do jornalismo.

Como qualquer ramo de negócio, empresas de comunicação têm seus interesses. Pensar o contrário seria ingenuidade. Jornais, revistas, portais, emissoras de rádio e TV sobrevivem graças aos anúncios de particulares e às verbas oficiais de publicidade. Encontrar o ponto de equilíbrio entre o interesse e a busca da verdade é o grande desafio.

É fato que parte da mídia manipula informações de acordo com a vontade dos donos ou de terceiros. Em Belo Horizonte, por exemplo, a irmã do então governador Aécio Neves influenciava diretamente a imprensa local, chegando mesmo a interferir nas pautas. Apesar disso, a verdade apareceu em manchetes nacionais. 

Anos de chumbo

Grupos como as Organizações Globo e a Folha de S. Paulo apoiaram o regime militar desde a sua gênese. Documentos divulgados pela CIA informam que Roberto Marinho não só apoiava, como também orientava os militares. Ele teria, inclusive, desaconselhado a abertura política prematura pretendida pelo marechal Castello Branco.

Contudo, a imprensa exerceu importante papel na luta contra o arbítrio e a repressão política. O Correio da Manhã, por exemplo, foi fechado por não se curvar ao regime. Outros veículos foram duramente perseguidos, entre eles os tabloides de oposição, como o Pasquim, cujos diretores chegaram a ser presos mais de uma vez.

Nos anos de chumbo, o editor da revista Veja, Mino Carta (hoje dono da Carta Capital), negociava pessoalmente com a censura a liberação de artigos e reportagens. Muitas vezes ele ia a Brasília conversar com o “bruxo” do regime, Golbery do Couto e Silva, principal arquiteto da abertura política.

A própria Globo foi várias vezes censurada. E mesmo apoiando os militares, a empresa mantinha em seus quadros artistas e jornalistas de esquerda ou críticos do regime. Pode parecer contraditório, mas o próprio Roberto Marinho dizia que nos seus comunistas ninguém encostava a mão.

Embora muitas vezes o interesse empresarial se sobreponha à ética, há que se considerar que a liberdade de imprensa é um dos pilares da democracia. O engajamento do jornalismo deve ser fatídico e não ideológico. Quando políticos exageram nos elogios a determinado veículo, isso pode ser um sinal de que este não está cumprindo devidamente a sua missão.

Como escreveu George Orwell, autor dos clássicos A Revolução dos Bichos e 1984, “jornalismo é publicar aquilo que alguém quer que não se publique; todo o resto é publicidade”. Em outras palavras, se o governo é a vidraça, a imprensa deve ser a pedra. É bom os bolsonaristas já irem se acostumando.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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