14 Mar 2019 | domtotal.com

A essência do jornalismo

A morte de Dídimo Paiva pode ter sido a pá de cal sobre o jornalismo impresso que conhecemos.

Dídimo foi, acima de tudo, um humanista – palavra fora de moda nos tempos atuais
Dídimo foi, acima de tudo, um humanista – palavra fora de moda nos tempos atuais (Reprodução/Facebook Jornalistas de Minas)

Por Jorge Fernando dos Santos

Muito tem se falado sobre Dídimo Paiva desde a sua morte, ocorrida na madrugada do último sábado. Jornalista de tempo integral, mesmo depois de aposentado, ele serviu de modelo para muitos colegas de profissão. Era um liberal preocupado com os problemas sociais do país. Acima de tudo, um humanista – palavra fora de moda nos tempos atuais.

Dídimo comia, bebia e respirava jornalismo. Enciclopédia de conhecimento e generosidade, era desapegado das vaidades e das ilusões de poder. Ético por natureza, recusou convites para cargos de confiança em governos das mais variadas tendências. Nunca aceitou favores patronais.

Presidente do Sindicado dos Jornalistas Profissionais nos “anos de chumbo”, Dídimo Paiva arriscou a própria pele ao esconder militantes de esquerda. Ajudou a escrever o Código de Ética dos Jornalistas e uma vez confrontou cara a cara o general Golbery, arquiteto da abertura política.

Mesmo não sendo de esquerda, Dídimo foi um dos primeiros a sonhar com um partido de trabalhadores, ideia que ajudou a incutir na cabeça do sindicalista Lula – cujo governo muito o decepcionou, antes mesmo do escândalo do mensalão.

Cabeças de prata

Houve um tempo em que os jornais pareciam feiras de rua, com todo aquele trança-trança de gente de todo tipo, pessoas fumando e falando alto, aparelhos de rádio e televisão ligados, sem falar no ruído das máquinas datilográficas e no tilintar dos telefones de disco. 

Quando o Estado de Minas e o Diário da Tarde funcionavam na Rua Goiás, a notícia geralmente subia a escada. Todo mundo tinha acesso à redação e uma história para contar. Artistas, escritores, políticos, policiais, desportistas, ambulantes e até vendedores de loteria. Um simples bate-papo podia render uma pauta. Saber ouvir era a grande virtude do repórter.

BH tinha muitos jornais naquela época, sem falar nas sucursais da imprensa nacional. Não havia a tecnologia de hoje e as notícias eram apuradas pessoalmente ou enviadas por agências de notícia. Os poucos profissionais do mercado estavam quase todos empregados.
Os focas respeitavam e admiravam os “cabeças de prata”, com os quais aprendíamos tudo o que os cursos de Comunicação nunca ensinaram. Valorizávamos a experiência daqueles que já conhecíamos de nome ou de texto e sugávamos deles o máximo possível. Tempos românticos, aqueles!

Dídimo Paiva era um desses mestres, tendo a seu lado colegas hoje também saudosos, como Vander Piroli, Roberto Drummond, Plínio Carneiro, Geraldo Magalhães, Cyro Siqueira e outros – sem nos esquecer do legendário “General da Banda”, Célius Áulicus, cujo talento se revelou no semanário Binômio, de Euro Arantes e José Maria Rabelo.

Visão estratégica

No velório realizado sábado, na Casa do Jornalista, todo mundo tinha uma história com o Dídimo. Todos aprendemos com ele, sobretudo ética e compromisso com a verdade. Em certo momento, me dei conta de que não estávamos nos despedindo do mestre. Afinal, ele sempre estará na nossa memória. O que velávamos ali era a essência do velho e bom jornalismo.

Perdidos entre as redes sociais e os novos paradigmas da comunicação, os jornais que ainda circulam sofrem de certa miopia. As editorias fecharam-se aos informantes que vinham de todos os lados, trazendo furos e novidades.

A notícia ficou burocrática e declaratória, sempre dependendo das versões oficias. Tanto que surgiu o termo “jornalismo investigativo”, como se investigar não foi necessariamente a missão do repórter. A cobertura local perdeu espaço para os temas nacionais, abordados superficialmente. 

Com as redações enxutas e assépticas, estagiários e repórteres nem sempre experientes fazem das tripas coração para dar conta do recado. Na sociedade do espetáculo, o jornalismo impresso perdeu o rumo. O texto virou slogan e o lead foi deixado de lado. Vale mais o projeto gráfico que o conteúdo noticioso.

Os cursos de Comunicação, por sua vez, ensinam muita teoria e pouco jornalismo. Exigem mestrado, mas não cobram dos professores a devida experiência de redação. Lembro-me das palavras de um velho repórter cujo nome não me recordo: “para ser jornalista é preciso ser cético, ético, curioso e, acima de tudo, bom leitor”.

Por tudo isso, da mesma forma que a morte de Ricardo Boechat metaforizou a agonia do jornalismo televisivo nesses tempos de ódios e mimimis, algo me diz que a morte de Dídimo Paiva pode ter sido a pá de cal sobre o jornalismo impresso que conhecemos. Oxalá eu esteja errado!

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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