24 Mar 2019 | domtotal.com

Era vidro e se quebrou

Bolsonaro está conseguindo não ganhar o jogo

Bolsonaro não está em fase de boa sorte.
Bolsonaro não está em fase de boa sorte. (Miguel Schincariol/AFP)

Por Carlos Brickmann

O jogo ia bem: dois projetos da mais alta importância, a lei de combate ao crime e a reforma da Previdência, entregues ao Congresso logo no início do Governo, uma definição clara de prioridades (primeiro a Economia, logo depois a Segurança, manter tranquilo o que já funcionava, o agronegócio), e fazer barulho com outros temas para distrair a oposição. E que é que se poderia pedir de melhor do que uma oposição dirigida por Gleisi Hoffmann?

Pois Bolsonaro está conseguindo não ganhar o jogo: permitiu que temas destinados apenas a fazer barulho dominassem de verdade a pauta oficial, passou a impressão de que um escritor residente nos Estados Unidos manda em parte do Governo, e não conseguiu controlar as iniciativas de seu filho Carlos, o 02, a quem chama carinhosamente de “pitbull”. Ou, pior ainda, é conivente com os ataques via twitter a aliados de que necessita – alguns de seu próprio grupo, como o vice Mourão; outros de fora, como Rodrigo Maia.

Bolsonaro não está em fase de boa sorte. Na disputa entre Supremo e Lava Jato, foi atingido Moreira Franco – sogro de Rodrigo Maia. A tropa virtual bolsonarista festejou, e Rodrigo Maia, já chateado com Moro, se cansou. Não rompe com o Governo, nem desiste da reforma da Previdência, mas coordenar a ação política oficial, de maneira a conseguir os votos suficientes para aprová-la, isso não. E que governista poderá fazer a coordenação? Onyx Lorenzoni? Eduardo, filho 03? Melhor não: perder de muito é ruim demais.

Deixa...

Há muita gente de prestígio tentando convencer Rodrigo Maia a ficar no barco, como Janaína Pascoal, uma das redatoras do pedido de impeachment de Dilma, deputada estadual paulista com a maior votação de um parlamentar na história do país. Paulo Guedes, o superministro da Economia, trabalha nisso. E há quem tente convencer Bolsonaro de que o papel de seus filhos não é constranger o Governo – posição da ala militar, cujo porta-voz é o vice-presidente Mourão. Aliás, Mourão já avisou Bolsonaro de que não tem mais paciência para as ofensas que Olavo de Carvalho lhe dirige. Cansou.

...disso

O integrante mais surpreendente da turma do deixa-disso é o senador Flávio Bolsonaro, o filho 03. Pelo twitter, disse: “O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é fundamental na articulação para aprovar a Nova Previdência e projetos de combate ao crime. Assim como nós, está engajado em fazer o Brasil dar certo!” No mesmo post, desagravou Rodrigo Maia dos ataques de seu irmão Carlos e do ministro Sérgio Moro, que tinha deixado claro que em sua opinião o presidente da Câmara dava prioridade à Previdência e deixava para sabe-se lá quando o projeto de combate ao crime.

A paz militar

Pode ser que o presidente Bolsonaro tenha ouvido os conselhos do grupo militar e dado comando de ordem unida ao filho 02 e aos guerrilheiros de Internet. Afinal de contas, ou é isso ou não haverá reforma da Previdência (nem o pacote da segurança de Moro). E, a continuar assim, nem Governo.

Coincidência

A gravação da conversa de Michel Temer com Joesley Batista foi divulgada poucos dias antes da votação da reforma da Previdência. A prisão de Moreira Franco ocorreu no momento em que seu genro era o principal articulador da aprovação da reforma da Previdência. A discussão de Sérgio Moro com Rodrigo Maia, em que o ministro disse que o povo não aguentava mais a insegurança (e recebeu dura resposta) aconteceu na mesma ocasião. O destino, ó destino cruel, parece conspirar contra a reforma da Previdência.

O show da vida

A prisão de Temer e Moreira Franco foi parte de um duelo entre Operação Lava Jato e Supremo. O Supremo tomou decisões que reduziram a margem de ação dos procuradores da Lava Jato (que deixaram clara sua irritação), e esta poderia ser a primeira resposta – o que explica o estardalhaço com que foram feitas, com paralisação do trânsito (e, claro, imagens da TV).

Os bois gigantes

Por falar em prisões, sai nesta segunda, no Brasil e nos EUA, o livro Traidores da Pátria, do jornalista Cláudio Tognolli. Na capa, a foto dos irmãos Joesley e Wesley Batista – a conversa de Temer com Joesley, que a usou em delação premiada, quase derrubou o então presidente. No livro, documentada, a história do crescimento da JBS, com propinas para muita gente, inclusive, diz a delação, Michel Temer. Para crescer, a JBS se ligou ao Governo da época, do PT, e usou dinheiro de bancos públicos. Os irmãos por pouco não se livraram de qualquer pena, como prêmio pelas denúncias. Mas a delação tinha suas falhas, foi anulada, e o Supremo pode prendê-los.

Um lançamento inusitado: dois bois gigantes de fibra de vidro circularão por Brasília das 11h30 às 15h30, com DJ de música caipira e locutor. O livro sai no Brasil com três mil exemplares e nos EUA, em inglês, com dez mil.

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.
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