04 Abr 2019 | domtotal.com

O desabrochar da mulher de 50

Se os 40 anos foram apelidados de idade da loba, os 50 podem ser chamados de idade da flor.

Da esquerda para a direita, Ivone Lopes, Ana Leal e Ana Proença. Juntas formam o Trio Amarilis.
Da esquerda para a direita, Ivone Lopes, Ana Leal e Ana Proença. Juntas formam o Trio Amarilis. (Reprodução/ Instagram: @amariliscantobh)

Por Gilmar Pereira

A vida, no geral, compõe-se de fases ou ciclos – ou ao menos nós assim a organizamos culturalmente como modo de nos darmos conta dos seus processos. Distintas sociedades estabelecem ritos de passagem para assinalar as mudanças de período, algo que celebre o tempo que começa e estabeleça a ruptura com o modo de vida que se está a deixar. Isso ocorre sobretudo por volta do período da puberdade, quando meninos e meninas são vistos de modo diferente conforme os grupos sociais.

As mudanças que se dão no período da maturidade, porém, gozam de menor visibilidade e são poucas as sociedades que as celebram com ênfase. Nesse sentido, um dos ciclos femininos costuma, ao contrário, ser recebido negativamente. Se no fim da infância a menarca é vista como o início da capacidade reprodutiva da mulher, sua possibilidade de gerar vida, o climatério e o ciclo que ele inicia são tratados muitas vezes como ocaso ou mesmo como algo oposto à vitalidade.

A menopausa, isto é, a última menstruação, dá-se entre os 45 e 55, o que acontece concomitantemente a uma série de mudanças psicológicas e sociais que podem provocar aquilo que é chamado de crise da meia-idade. Entre a juventude e a velhice, a pessoa se percebe madura o suficiente para não cometer os mesmos erros do passado e, ao mesmo tempo, dá-se conta de que seu ritmo biológico e condições, embora bons, tenderão ao declínio e à senilidade.

Esse estágio leva a uma avaliação da vida e uma revisão de escolhas porque, sentindo-se ainda repleta de vitalidade, mas com mais maturidade, a pessoa quer fazer melhor proveito da própria vida. No caso das mulheres, elas são cobradas mais cedo que os homens porque se desenvolvem primeiro que eles na adolescência. Depois lhes exigem casamento e filhos. Há toda uma pressão social para que engravidem e tenham um segundo filho pois “o relógio biológico está contando”, como se fosse uma bomba, prestes a acabar com a chance da maternidade.

Já quando chegam aos 50, muitas notam o quanto viveram de coisas que realmente queriam e o tanto que cederam às imposições de outros. Nessa idade os pais já estão mais velhos e passam a ter mais necessidade de cuidados, invertendo o papel de quem cuidava para quem é cuidado. Os filhos, se ainda não saíram de casa, já podem se virar sozinhos. Muitos casamentos talvez tenham sido desfeitos e se está na segunda relação ou não. Em muitos lugares é comum a figura da mulher de 50 que trabalha, tem sua carreira e vida financeira com certa estabilidade, que se permite ficar com quem quiser sem se preocupar com moralismos. Mulher que se percebe forte, sensual, mais firme.

Muitas dizem, inclusive, que não conseguem encontrar mais um novo companheiro. Não porque não sejam bonitas ou incapazes, mas porque o sexo masculino da mesa geração não se adaptou aos novos tempos de forma igual. Pode parece exagero ao homem que ler isso, mas basta ficar atento aos relatos femininos e escutar os próprios congêneres. A figura do homem que quer seduzir se apresentando como aquele que vai cuidar da mulher não atrai aquelas que querem independência e parceria. Elas sabem que a promessa de cuidado pode se reverter facilmente em controle e dominação. Não querem ser mulheres de ninguém, são mulheres de si mesmas.

O meio masculino ainda se assusta com aquilo que hoje é chamado empoderamento feminino. Alguns colocam defeitos e tendem a ironizar a autonomia conquistada por muita luta e conscientização impulsionada pelo movimento feminista. Entre si as mulheres acabam por falar daqueles que as querem impressionar com aquilo que não lhes tocam: “são todos uns bobos”. Já quando olham para si, vêm o próprio potencial e se reinventam. Enfim, a mulher de 50 não se entende como quem não pode mais gerar vida, mas como alguém cheio de vitalidade a ponto de viver o que quiser. É fecunda porque gera-se a si mesma.

Apelidou-se os 40 anos da mulher como a idade da loba. Talvez se possa apelidar os 50 como a idade da flor. Não simplesmente por sua beleza ou muito menos por alguma suposta fragilidade. A flor aqui é metáfora do desabrochar. Se algo representou inverno, agora começaria a primavera.

Primavera em Abril

Embora seja outono no hemisfério sul, Belo Horizonte vive uma “Primavera em Abril”. Ana Leal, Ana Proença e Ivone Lopes compõe um trio Amaralis. As cantoras, apesar de terem trajetórias musicais e carreiras distintas, uniram-se para um projeto comum. O grupo recebe o nome da planta na qual, de uma única haste, brotam minimamente três flores.

O grupo se juntou pela primeira vez em novembro de 2017 para se apresentarem em um show beneficente, surgindo daí o desejo de continuarem cantando juntas. Elas tinham em comum não só a música, mas a faixa etária. Embora seus estilos fossem diferentes, compartilhavam desse processo bonito de amadurecimento, pessoal e musical, de quem se aproxima ou já tem 50 anos. A afinidade dessas três mulheres, empoderadas e decididas a fazer da música o alimento diário da alma, fez nascer o Trio Amarílis.

No show “Primavera em Abril”, elas passeiam por vertentes do samba, carimbó, xote, baião, forró, sertanejo caipira, além de uma canção composta por Ana Leal. Tudo muito florido e dançado, com o propósito de contagiar a plateia, que certamente sairá com a alma lavada – ensaboada e enxaguada, cheirando a aromas primaveris, em pleno mês de abril.

PRIMAVERA EM ABRIL
Quinta, 04 de abril às 19h
Local e Ingressos: Cine Theatro Brasil Vallourec

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
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