18 Abr 2019 | domtotal.com

As pisadas de bola do presidente

A reação do comandante em chefe das Forças Armadas deveria ter sido veemente: afinal de contas, quem deu a ordem de atirar?

Muitos caminhoneiros aplaudiram a ação do Exército, no ano passado, durante a liberação das estradas.
Muitos caminhoneiros aplaudiram a ação do Exército, no ano passado, durante a liberação das estradas. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Por Jorge Fernando dos Santos

Jair Bolsonaro não é futebolista, mas acaba de pisar na bola mais duas vezes. Ao comentar o assassinato do músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, ele declarou que o Exército não mata. No segundo lance duvidoso, ao segurar o aumento do diesel com as mãos, cometeu pênalti contra a Petrobras.

Evaldo foi morto no domingo, 7/4, na região de Guadalupe, no Rio de Janeiro. Ele estava com a família a caminho de um chá de bebê, quando seu veículo foi metralhado por soldados do Exército. Num ato de desespero, a esposa da vítima mostrou que tinha uma criança a bordo. Mesmo assim, os facínoras continuaram atirando.

Pouco habilidoso no uso das palavras, Bolsonaro tem levantado a bola para os seus críticos, colocando a zaga em perigo. A reação do comandante em chefe das Forças Armadas deveria ter sido veemente: afinal de contas, quem deu a ordem de atirar? Soldados não podem agir sem comando ou por livre vontade própria, o que já seria motivo de punição.

Disciplina e hierarquia

Os assassinos de Evaldo alegaram ter confundido o seu carro com o de supostos bandidos. No entanto, em vez de prestar socorro ao notar o equívoco, eles ainda teriam zombado da viúva. Isso denota não um erro, mas total desprezo pela vida humana. A função das Forças Armadas é defender o país e seus habitantes. O Brasil não precisa de pracinhas desse tipo. Para matar inocentes, bastam os traficantes e milicianos.

A primeira orientação que se recebe em qualquer curso de tiro é nunca disparar sem visualizar e/ou identificar o alvo. Na dúvida, a ação correta dos militares teria sido parar o veículo ou atirar nos pneus. Em seguida, ordenar que os ocupantes se identificassem. Apertar o gatilho só se justifica em caso de autodefesa. Evaldo nem sequer estava armado.

O treinamento militar visa justamente impor disciplina e garantir a hierarquia na tropa. Sem esses requisitos, não há força armada que se sustente. Daí o ritual de formação do soldado, que inclui a ordem-unida, continência, manobras de guerra, respeito e submissão aos superiores. Portanto, é preciso punir os culpados, a começar pelo comandante, antes que o sangue do inocente manche outras fardas.

A bomba-relógio do PT

Quanto à segunda questão, deve-se considerar que, ao intervir na Petrobras para evitar o aumento do preço do óleo diesel, Bolsonaro contradisse aquele que talvez tenha sido seu principal compromisso de campanha. Ou seja, diminuir a ação do Estado na tentativa de adestrar o livre mercado.

O ato derrubou a Bovespa e causou um prejuízo da ordem de R$ 32 bilhões à petrolífera nacional. O motivo da decisão foi evitar nova paralisação de caminhoneiros. No entanto, um governo que se pretende liberal não pode temer ameaças de greve. Ao abrir as pernas, ele pode se tornar refém do time dos sindicalistas.

O problema dos caminhoneiros resulta de um dos muitos erros do PT. Ao subsidiar a compra de caminhões com recursos do BNDES, a ex-presidente Dilma armou uma bomba-relógio. Com o aumento da concorrência e a queda no preço dos fretes, aqueles que confiaram no governo passaram a amargar uma dívida sem precedentes agravada pela alta dos juros.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, quer estimular a aposentadoria de caminhoneiros, visando minimizar a crise no setor de transporte de cargas. Por outro lado, todo mundo sabe que a greve ocorrida no governo Temer foi liderada principalmente por transportadoras. Tanto é verdade que muitos caminhoneiros aplaudiram a ação do Exército durante a liberação das estradas.

O direito de greve é garantido pela Constituição Federal, desde que não prejudique a população ou impeça o ir e vir das pessoas. Já o locaute é proibido por lei, devendo ser investigado e rigorosamente punido pela Justiça. A crise econômica penaliza a todos os brasileiros e nenhuma categoria deve ser privilegiada em detrimento das outras.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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