19 Abr 2019 | domtotal.com

O sentido da luta e a luta por sentido!


O governo Bolsonaro é um antigoverno, um desgoverno.
O governo Bolsonaro é um antigoverno, um desgoverno. (Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

Por Marcel Farah

A crise internacional de 2008 alterou a dinâmica de funcionamento global do capitalismo. Em geral, o sistema capitalista reagiu à crise salvaguardando o sistema financeiro e retomando políticas conservadoras. O reajeitamento dos diversos atores, entre transnacionais, países e blocos possibilitou um movimento de ascensão de forças conservadoras por várias regiões do mundo. A eleição de Trump nos EUA, de Macri na Argentina e agora de Bolsonaro no Brasil evidenciam o risco que o mundo corre de uma regressão política sem precedentes.

Na América Latina quebrou-se o “cinturão vermelho”, que já reuniu mais de uma dezena de países governados por forças progressistas. A situação hoje é de grave ameaça imperialista ao governo bolivariano da Venezuela, crise econômica profunda na Argentina, após a retomada das políticas neoliberais, e o caso do crescimento do neofascismo e neoliberalismo brasileiro.

No Brasil há alterações conjunturais significativas, pelo menos desde a descoberta do pré-sal, e das mobilizações de 2013, que culminaram no triplo golpe (impeachment/prisão/eleição) possibilitando a eleição de Bolsonaro à presidência da república.

Essas alterações no comportamento da classe dominante podem ser notadas pela ação das elites financeiras, industriais, do agronegócio, das comunicações, que deixaram de “tolerar” um governo do PT. Esses segmentos se juntaram a setores ultra conservadores da burocracia estatal para impedir a continuidade do governo de viés progressista de Dilma Roussef, principalmente quando a presidenta decidiu enfrentar os exorbitantes lucros dos bancos.

Contudo, a atuação destes setores, no limite da institucionalidade, acabou transbordando. E o que era exceção em termos de afronta ao pacto social de 1988, mais especificamente, aos direitos constitucionais e legais, tornou-se regra. Quanto a isso, não se pode transigir!

A consequência primeira da flexibilização institucional, assumida pelas elites para barrar Dilma a todo custo, permitiu o impeachment sem crime e a sobrevivência do governo corrupto e conservador de Temer por dois anos. Em 2018, culminou com a prisão de Lula, em um processo judicial, no mínimo contestável, com carência de provas adequadas, e viabilizada por uma exceção ao princípio da presunção de inocência, mantida a “fórceps”.

Frontal desrespeito à Constituição Federal.

“Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória” (Art. 5º, LVII, Constituição Federal de 1988), estas são as palavras que tiveram seu sentido roubado, no Brasil de hoje.

O sentido de “dignidade humana” também foi roubado.

A violência policial; os 80 tiros do exército contra Evaldo dos Santos Rosa, um “suspeito”, negro na periferia; o massacre na escola de Suzano; o assassinato de Pedro Henrique Gonzaga, jovem com deficiência, por um segurança do Extra; os oito moradores de rua queimados vivos de janeiro a abril de 2018; o assassinato sumário de metade dos 25 suspeitos de um assalto a banco em Guararema; o assassinato de Tatiane Spitsner, advogada arremessada pela janela de seu apartamento pelo marido no Paraná; e milhares de outros casos, que agora têm amparo nos discursos de ódio do presidente da república.

O sentido de “soberania” também foi roubado.

O povo também sente a proposta de destruição da Previdência Social, a revogação da política de valorização do salário mínimo, a privatização de bens públicos, a destruição e venda da Petrobras, o ataque às universidades públicas, às escolas e professores públicos etc.

Até o sentido de “governo” foi roubado.

Para complicar a situação o governo Bolsonaro é um antigoverno, um desgoverno. O próprio presidente boicota, por erro ou por esperteza, as suas propostas, obstruindo o debate democrático e afogando a oposição em suas próprias contradições.

Neste cenário, é imperioso resgatar o sentido de outras palavras:

1. “Luta social”, por meio da reorganização profunda do campo de esquerda, no sentido da democratização das organizações de esquerda, que reaproxime as bases vivas das forças populares das instituições partidárias, dos movimentos, dos sindicatos, das redes progressistas, alinhadas por um programa radicalmente democrático e popular, em que a meta síntese é a Liberdade de Lula, por ser um exemplo significativo do período de exceção que vivemos;

2. “Educação popular” por meio da retomada do trabalho de base, enfrentamento a todas agressões e retrocessos, enfrentamento à imposição cultural machista, autoritária e homofóbica, enfrentamento às postura entreguistas do governo e setores sociais, e às mentiras fascistas;

3. “Coerência”, por meio da negação à política de conciliação, ou possibilidade de aliança, com quem, de uma forma ou de outra, colaborou para chegarmos à situação atual;

Esse é o mínimo a orientar a ação de quem sabe que enfrentar o fascismo é retomar o sentido da vida em sociedade, caso contrário não vai sobrar nada.

Marcel Farah
Educador Popular
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